n° 50 – Ano XVII – Junho de 2019 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

Artigo

A forma e conteúdo da arquitetura do Jardim de Bosch

Os seres do Jardim se deleitam livremente em um ambiente bem natural, clima brando, paisagem de vegetação pouco encorpada, lagoas e relva…

Sandra Daige Antunes Correa Hitner – ABCA / São Paulo

Esta imagem é um detalhe do painel central do Tríptico do Jardim das Delícias de Jheronimus Bosch, 1503/4, acervo do Museu do Prado, Madri, Espanha. O tríptico foi elaborado em madeira, e o painel central tem dimensões de 220 x 195m.

O que teria levado Bosch a espalhar numa paisagem idílica, e para o regozijo dos seres humanos, edificações arquitetônicas que combinam formas de componentes do corpo humano, da natureza, da vegetação, dos animais, dos alimentos, dos objetos do cotidiano, dos objetos profissionais, das armaduras, de enfeites, de ferramentas, e que, acumuladas, sobrepostas e engatadas umas nas outras formam uma arquitetura, no mínimo, sinistra?

Segundo Argan, Clássico e Anticlássico (1999, p.464), “pelas premissas platônicas da teoria artística italiana, Deus também é forma por excelência; não apenas porque a forma é a qualidade permanente das coisas para além da aparência contingente e ocasional, mas porque Deus criou em primeiro lugar a forma, e a forma ideal das coisas atesta que, antes de estarem na criação, elas estiveram numa mente criadora e que possuem uma tendência natural a voltar à causa, isto é, a Deus”. E sendo mais uma tiragem da mente de Deus, Bosch era um artista provinciano flamengo que não conhecia Platão, mas sabe-se que não tinha a menor dificuldade em subordinar o problema das formas aos conteúdos psicológicos. Isto está registrado em todos os livros sobre o artista. Forma e conteúdo são indistinguíveis em seu trabalho.

Vejamos: os seres do Jardim se deleitam livremente em um ambiente bem natural, clima brando, paisagem de vegetação pouco encorpada, lagoas e relva. Tudo calmo e está claro. Não existe O Tempo no Jardim. Compondo com este ambiente agradável, há edificações arquitetônicas bizarras que não parecem nada aconchegantes, nem macias, muito menos confortáveis para desfrute de prazeres. Ao contrário, seu exterior revela prédios espinhentos, pontiagudos, tortuosos, frios, sem muita chance de proporcionar conforto sinestésico para os enlaces. No entanto, embutidos nos nichos abertos das paredes destas edificações, vê-se muitos pares visitantes do Jardim que, nus, ali talvez gozem de práticas mais intensas e licenciosas do que o resto da comunidade que está do lado de fora e que só se diverte esbarrando-se.

Observando particularidades individuais das formas sobrepostas e aglutinadas que compõem os prédios do Jardim, algumas delas nos remetem ao feitio dos alambiques alquímicos usados para destilar determinados ingredientes e transformá-los em ouro. Ora, a composição arquitetônica do Jardim pode abrigar uma metáfora existencial, na medida em que une e embala o melhor dos ingredientes da natureza, os seres humanos, e eventualmente pode gerar a substância mais sublime da criação: outro ser.

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