Perfil

Fernando Pernetta Velloso e o seu Ser Pintor

O artista completa 90 anos no dia 9 de agosto. E o seu tempo na arte se renova infinitamente.

Fernando A. F. Bini – ABCA /Paraná

Fernando Velloso, setembro de 2019, foto Mariana Canet.

“Ser pintor” foi sempre a vontade do artista Fernando Velloso. E de ser pintor de telas e tintas. É o que ele é, um gentleman em guarda-pó de pintor. Com sua formação em pintura pela Escola de Belas Artes do Paraná e em Direito pela Universidade Federal do Paraná ele soube aliar as duas profissões. Que uma não se sobrepusesse à outra, ao contrário, uma ajudou a outra para que ele desenvolvesse também sua atividade de incentivador cultural.

Velloso entende como ser pintor, o saber manusear com autoridade os materiais pictóricos, dominá-los, dominar a matéria, dominar o espaço compositivo do quadro. Sensibilizar a superfície escolhida, diz ele. Assim, após o período de formação no Brasil, com uma tendência inicial expressionista herdado do professor e artista Guido Viaro, ele vai fazer um estágio na França, em Paris, no atelier de André Lhote. É provável que em sua paixão por Picasso, modelo de artista da sua geração, ele tenha procurado a formação cubista: o pós-cubismo de Lhote, a sua relação com a figura e a tradição francesa fizeram-no se dirigir à abstração. Herdou a composição do quadro pictórico e a organização formal do espaço obtidos no atelier francês. Lembremos que André Lhote foi também professor e orientador de vários artistas brasileiros, Tarsila do Amaral, Iberê Camargo, Anna Letícia Quadros, Francisco Brennand e outros. Para Frederico Morais, “Lhote foi o pintor europeu mais procurado em Paris pelos artistas brasileiros na primeira metade do século XX”.

Fernando Velloso é incansável e se redescobre todo o tempo, entendendo que a abstração não tem limites e abre fronteiras, que é produto mental e decorre da concepção que o artista faz do mundo. Um mundo que ele cultiva para retirar dele o que há de melhor, muitas vezes com humor ou com ironia, mas sempre com uma análise pessoal.

Os visitantes do tempo, técnica mista sobre tela, 81x100cm., 2005, foto Dico Kremer.

A sua abstração é pictórica e colorista e, desde seus tempos em Paris, vem abandonando a sobriedade dos primeiros trabalhos e sua pintura começa a se encher cada vez mais de luz e cor. Fernando se renova sempre. Recentemente (setembro de 2019) o encontramos em uma exposição confrontando a sua abstração, que tem evidências na natureza, com a jovem fotógrafa Mariana Canet, que capta o abstrato do concreto na natureza, motivo para ele de se recriar e se refazer, expondo a sua última produção: “O concreto levado ao mínimo precisa ser reconhecido, na abstração, como o real mais expressivo” disse Wassily Kandinsky.

Quando Velloso volta da França, em 1961, além de ser o primeiro pintor a expor telas deliberadamente abstratas no Paraná, a sua inquietude, a sua visão crítica do momento e seu caráter revolucionário fazem com que ele passe a liderar um movimento de vanguarda dos anos 60. Começou por “virar a mesa” no XIV Salão Paranaense de Belas Artes, evento tradicional, quando repudiou a atuação do júri de premiação, que havia relegado às obras de tendências mais atuais da época, a um espaço com pouca visibilidade. Os artistas revoltados resolvem, cada um por si, retirar o seu próprio trabalho da exposição para empilhá-los diante do salão. Começando assim o importante “Movimento de Renovação das artes plásticas no Paraná”. Tudo isso com muita dignidade e gentileza, diria ele.

Mas ele não foi só artista, teve o importante papel de incentivador cultural, sempre elegante no agir e no falar, nunca ofendendo o interlocutor, com uma crítica ferina, destacando também os valores do criticado. Ainda muito jovem produzia um programa de rádio chamado “No Mundo das Artes”, na extinta Rádio Guairacá, em Curitiba, que registrou, ao vivo, o evento do XIV Salão Paranaense. Mantinha também uma coluna semanal, “Artes e Artistas”, no jornal o Diário do Paraná.

Passeio por formas revistas, técnica mista sobre tela, 92×73 cm., 2006, foto Dico Kremer.

Pela sua formação em direito, pela sua tradição intelectual, que vem desde o movimento Simbolista, junto a seu caráter inquieto e agitador, tomou parte nos mais importantes órgãos do Estado e do Município cuja ação estava centrada na área cultural: artes visuais, cinema, teatro, literatura, música. Apaixonado que é por todas as formas de arte e, principalmente, a “arte da conversa”.

Foi o idealizador e o primeiro diretor do Museu de Arte Contemporânea do Paraná que, desde a sua origem se propunha a ser um museu atuante, a verdadeira “casa do artista”, espaço de educação e pesquisa, com intercâmbios com outros museus: Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo, Museu de Arte do Rio Grande do Sul e com o Museu de Arte de Santa Catarina. A ação do Museu pôs a arte do Paraná em contato com a arte brasileira e mesmo universal com exposições antológicas. O Museu também abrigou, durante os anos 70, os “Encontros de Arte Moderna”, realizados pelo Centro Acadêmico da Escola de Belas Artes e que foi outro momento importante de discussão sobre a arte contemporânea.

Além de atuações nos departamentos culturais do Estado como Secretaria da Cultura, Fundação Cultural, Teatro Guaíra foi membro de Conselhos Culturais e conselheiro do Museu de Arte Contemporânea, Museu Oscar Niemeyer, Museu Municipal de Arte. Membro da ABCA e da AICA, da Associação Brasileira de Museus de Arte quando foi diretor nos anos 70. Como presidente do Conselho Regional de Museologia da 5ª. Região-PR, incentivou e fez a apresentação de muitos artistas jovens que tiveram a oportunidade de começar sua vida artística pelas mãos de Fernando Velloso.

Dramático encontro no outono, técnica mista sobre tela, 81×100 cm, 2008, foto Dico Kremer.

Perguntamos sempre porque não desenvolveu uma carreira internacional, porque não saiu de Curitiba, e a resposta, muito próxima do que dizia também Paulo Leminski, “Pinheiro não se transplanta”. O Fernando Velloso sempre acreditou poder fazer alguma coisa por Curitiba e o Paraná, e foi isto que ele fez e continua fazendo.

Queremos, com este breve perfil, parabenizá-lo pelos seus noventa anos que ele comemorará no dia 9 de agosto de 2020. Não fosse este momento de crise internacional, comemoraríamos este aniversário com uma grande exposição no Museu Oscar Niemeyer no mês de agosto próximo. Esperamos que a pandemia nos deixe realizá-la.

n° 54 – Ano XVIII – Junho de 2020 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

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