n° 45 – Ano XVI – Março de 2018  →   VOLTAR

Artigo

Escutamos os pássaros, mas nem sempre os vemos

Nós nos acostumamos com silvos e sons sibilantes nas ruas. Mas será que percebemos as espécies que habitam o meio ambiente?

Betina Rupp – ABCA / Rio Grande do Norte

Glaucis de Morais, série Papagaios, 2017, aquarela sobre papel. Foto: arquivo da artista.

Por volta dos cinco anos, o primeiro pássaro que lembro de ter a consciência da sua existência foi o Bem-te-vi. Perguntei que som era aquele que vinha de fora da janela do sexto andar e me deslumbrei com a resposta, ele não era apenas um passarinho, o nome dele era a tradução do seu próprio canto. Aquela explicação me pareceu muito coerente naquele momento de descobertas e de tranquila ingenuidade.

Apesar de identificar o som pelas manhãs, ainda tinha a curiosidade de conhecê-lo para ver como era afinal a sua aparência. Ao sair de casa, perguntava ansiosa: “esse é o bem-te-vi”? Inevitavelmente, me mostraram um na rua. Qual não foi a surpresa quando percebi que já havia visto esse pássaro em casa, não o de verdade, mas um estampado na lateral de uma lanterna de mão. Ele tinha as mesmas características: uma listra branca na cabeça preta, peito amarelo e um sobretudo escuro. Aquela lanterna, um souvenir de viagem trazido por alguém e abandonado a própria sorte, passou a fazer todo o sentido para mim. Um bem-te-vi adornava uma lanterna, que quando acesa parecia “ver tudo bem melhor”.

Hoje sei que os bem-te-vis são pássaros característicos da América Latina, altamente adaptáveis e monogâmicos. Ao contrário de outras espécies, não possuem dimorfismo sexual. Fêmeas e machos são semelhantes em tamanho e plumagem, e se comunicam de maneira festiva, mesmo estando bem longe um do outro.

No entanto, quando era criança, nem sempre era fácil saber mais sobre um determinado pássaro. Havia enciclopédias ilustradas maravilhosas que revelavam muitos segredos da natureza e, também, conjuntos de cartas, como baralhos, que apresentavam animais muito bem ilustrados, seguidos de nomes complicados. Em algum momento, ganhei um desses com pássaros. Egoisticamente guardei-o como um tesouro para olhar sempre que tivesse vontade e não compartilhá-lo com outras crianças. Fiquei fascinada com a variedade daqueles pássaros tão incríveis, com cristas de penas na cabeça, caudas flutuantes, penas bicolores e tricolores, listras e pontinhos, e, ao mesmo tempo, frustrada, porque não enxergava aqueles espécimes ao sair de casa. Só via pardais, bem-te-vis e pombas. É difícil para uma criança compreender o que eram aves do paraíso, o que era paraíso e onde ele ficava. Deduzi que deveria ser um lugar muito distante, porque nunca via nada parecido com aquelas maravilhas voando na janela.

Posso dizer, que passaram-se alguns anos até ver e conseguir identificar muitos pássaros ao ar livre, desde os mais comuns, como joão-de-barro, beija-flor, sabiá, cardeal, suiriri, saíra-sete-cores, sanhaçu-papo-laranja, andorinha, tesourinha, urubu, até os mais raros de encontrar, como tucano, coruja, martim-pescador, falcão, gavião, gaivota, atobá e fragata. Alguns nomes nem sempre condiziam com a realidade, o sanhaçu cinzento, por exemplo, é bem azulado, e o azulão, é todo preto. Ver esses pássaros livres pela primeira vez é como encontrar figurinhas que vão completando um álbum infinito. Voltando ao baralho de cartas da infância, até hoje não vi um tangará-príncipe ou um galo da serra, com seu leque de penas em perfeito semicírculo alaranjado na cabeça. Demorei muito a ver um papagaio que não estivesse em uma gaiola ou no zoológico.

“E onde estão os papagaios? Pergunta-se Glaucis de Morais, artista gaúcha, em um de seus mais recentes trabalhos…”

Os papagaios frequentam o imaginário infantil como “louros que lançam a sorte em cartinhas ou possuem a incrível capacidade de contar histórias de piratas. Ao ouvir pela primeira vez um bando de papagaios charão, que voavam entre pinheiros e palmeiras do jardim, tive a impressão que eles imitavam muito mais o latido de cães do bairro do que possuíssem qualquer semelhança com a voz humana. Ao mesmo tempo que eram barulhentos, se movimentavam entre os galhos de forma tranquila. Bem maiores e robustos que os bem-te-vis, os papagaios medem em média 35 cm, podendo chegar a 45 cm em determinadas espécies que vivem na Amazônia.

E onde estão os papagaios? Pergunta-se Glaucis de Morais, artista gaúcha, em um de seus mais recentes trabalhos. Trata-se de uma série de cuidadosas aquarelas pintadas sobre papel em pequenos formatos e que apresentam aves do gênero Amazona, que possui mais de trinta espécies com grande variedade de matizes em suas plumagens. Os papagaios habitam, nativamente, a América Latina e, em especial, o Brasil.

Assim como os papagaios, que se escondem entre as folhas e galhos das árvores, camuflados entre  tons de verdes das florestas tropicalientes, a série de aquarelas de Morais também se disfarça pela cidade. Ao contrário de tantos outros artistas e ilustradores da fauna e flora que vieram ao País registrar a variedade de espécies e organizavam seus desenhos e pinturas em publicações de livros ou por meio de reproduções de gravuras, a artista expõe diretamente seus originais espalhados nas cercas de parques públicos utilizando apenas um prendedor de metal para cada pintura.

“Por outro lado, a artista desconhece o destino que seus papagaios terão, pois ela não os pega de volta…”

Curiosamente, essas aquarelas não estão assinadas, muito menos possuem identificações de autoria. Por outro lado, a artista desconhece o destino que seus papagaios terão, pois ela não os pega de volta. Alguém perceberá a pintura presa à cerca e levará consigo? Ou a aquarela ficará à mercê das intempéries climáticas, desbotando com o tempo e perdendo o frescor dos pigmentos? Além dessas perguntas, também podemos fazer analogias com a própria situação dos papagaios vivos: alguém cuidará deles ou eles permanecerão à mercê das contingências da falta de preservação ambiental?

É possível perceber ainda, nessa série de Morais, um nível de invisibilidade proposital. Quem se apossa da pintura e a leva para casa, não sabe quem a fez. A artista também não sabe quem levou a pintura embora. Situação recorrente em produções artísticas que estão inseridas dentro do mercado de galerias, leilões e feiras de arte, em que muitas vezes o artista não sabe quem adquiriu seus trabalhos.

Além deste nível de invisibilidade, há também a intenção de escapar do circuito comercial utilizado em grande parte pelo sistema da arte. No momento em que Glaucis de Morais busca estabelecer um contato sutil com alguém que percebe a situação inusitada e que possui um olhar curioso para os acontecimentos no espaço ao redor, ocorre um compartilhamento estético entre as pessoas envolvidas, ou citando Jacques Rancière, há entre ambas, a partilha do sensível.

O caminhante distraído pode se sentir sensibilizado tanto pela imagem da pintura quanto pela questão maior da preservação da espécie, mas, de qualquer modo, estabeleceu-se um contato entre artista e público, mesmo que tenha sido um contato restrito a pouquíssimas pessoas que passaram naquele momento no parque, repararam na existência da pintura do papagaio, refletiram a respeito e chegaram ao ápice de levar consigo o trabalho.

Por fim, deve-se comentar que essa troca entre artista e público não envolveu efetivos valores monetários na aquisição da pintura. A artista sugere quase um ato de transgressão às regras sociais em termos de pegar algo que não pertence àquela pessoa. Ela insinua, por alguns minutos, um suspense no ar: o passante se sente na dúvida se possui ou não o direito de tomar posse daquele pedaço de papel, que, visivelmente, está ali com um propósito. Retirá-lo irá privar outros de ver o papagaio, deixá-lo, talvez a pintura se estrague com a chuva, ou ainda há a hipótese de que outra pessoa poderá pegá-lo. Assim, “o que fazer?”.

Nesse sentido, a discreta intervenção pública de Glaucis de Morais ativa vários conceitos que estão presentes na arte contemporânea. Discussões sobre os níveis de (in)visibilidade do artista, que na série de papagaios beira quase a um anonimato de autoria, traz ainda reflexões sobre como nos comportamos socialmente, de que modo somos atingidos por questões estéticas e como enfrentamos os problemas de preservação ambiental.

A artista nos convida a olhar melhor através das cercas e por entre as folhas das árvores, a escutar melhor os sons sibilantes que estão nos parques, e para que tenhamos contato com esta variedade de pássaros. E além disso, que nos seja possível perceber nossos próprios níveis de invisibilidade.

REFERÊNCIA:

RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. 2 ed. São Paulo: Editora 34 / EXO experimental org., 2009.

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