Reflexões

Entre os dias.

Jacob Klintowitz – ABCA/São Paulo

 

O homem que envelheceu

Quando quis despir a máscara
descobriu horrorizado que não havia
máscara alguma.

 

 

Relatos

Jacob, o que fizestes?
Eu relatei os meus dias.
Eram teus os dias?
Os relatos eram meus.

 

1.

Autoconfissão precoce

       John Ruskin escreveu: Para centenas de pessoas que conseguem falar, uma consegue pensar. Mas para milhares de pessoas que conseguem pensar, uma consegue ver.

       Será que Ruskin premonitoriamente previu o meu nascimento e a minha existência? Certamente é falta de modéstia minha quando comparado com alguns verdadeiramente gigantes, montanhas imensas. Jorge Luis Borges, sempre ele, o nosso mestre do século XX, no prefácio do seu livro “Ficções” se qualifica como “… mais razoável, mais inepto, mais preguiçoso, preferi a escrita de notas sobre livros imaginários.”.

       Thomas Mann leu para Theodor Adorno, depois do jantar doméstico, o capítulo em que um grande concerto coroa a vida do seu personagem Fausto, um músico. “Doutor Fausto” era o livro que escrevia nos Estados Unidos, doente e exilado da Alemanha nazista. Adorno em silêncio escutou e em silêncio continuou após a leitura. Quando Adorno se foi, Mann comentou com a sua mulher que reescreveria este capítulo-chave do seu o livro. O silêncio de Adorno foi suficiente. Que relação humana de confiança e percepção intuitiva. Este episódio está relatado no diário de Thomas Mann sobre a confecção do livro, “A gênese do Doutor Fausto”. E, naquele momento, Mann era considerado por muitos como o maior escritor vivo do mundo.

       Somerset Maugham, velho mestre hoje quase desconhecido, escreveu na sua autobiografia, “Confissões”, que sabia o seu lugar na literatura inglesa, estava na primeira fila dos autores do segundo escalão.

       Naquele momento Maugham era um sucesso mundial com a sua ficção e como dramaturgo era o mais representado na Inglaterra, depois de Shakespeare.  Truman Capote, o grande renovador americano, no seu livro, “Ensaios”, presta uma comovente homenagem ao Maugham, quando ele estava muito doente: “… hoje, aos 85 anos de idade, ele ameaça constantemente embarcar na última e mais distinta das experiências. Se ele precisa mesmo fazer a jornada, então, tudo o que nos resta fazer é ficar no porto, gratos pelo prazer que nos proporcionou, e desejar-lhe um carinhoso bom Voyage.”.

       Na época, década de 60, em que se declamava poesia nas praças públicas, um pioneiro que comovia as plateias, era um jovem poeta russo Levgueni Yevtchenko que escreveu o célebre “Autobiografia precoce”, um livro que não quis esperar pela consagração mundial.

       Para responder uma pergunta de um amigo eu pensei em me qualificar. E na tarefa descobri que não sou razoável, como Borges, profundo e intuitivo como Mann, sereno e cético como Maugham, exibicionista como Yevtchenko. Mas percebi, pela milionésima vez, então nem é uma descoberta, que sou capaz de admirações eternas. Amar, enfim, é uma referência.

 

2.

O lugar do poeta

       Precisei procurar um conceito, certo tom, determinado ou indeterminado matiz, e tive que reler “Macbeth”. Esse foi o meu dia.

       É irresistível se deter na fala do personagem Macbeth. O monólogo de Macbeth é uma obra-prima, eterna na medida humana, escrita pelo poeta Shakespeare.

       “A vida não passa de uma sombra que caminha.”

       E

       “É uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria e vazia de significado”. (Tradução de Beatriz Viégas-Faria).

       Esse monólogo é o modelo exemplar do alcance e limite dos discursos. Deve fazer parte do lugar mítico das ideias perfeitas. É o discurso essencial do ateísmo. E é um libelo dolorido contra o conceito de um Deus criador de todas as coisas: uma vida humana sem sentido; uma narrativa contada por um idiota capaz de só produzir som e fúria; e nada disso com qualquer importância, lógica ou propósito.

       Esse monólogo não se esgota nisso, ele é mais do que só uma coisa e tem uma multiplicidade de entendimentos. Essa feição inesgotável é o desenho de sua grandeza.

       Não é o discurso de Shakespeare, mas do personagem Macbeth. Shakespeare é conhecido pela isenção com que criou os seus personagens e a coerência das falas. Eles têm direito à fala.

       O monólogo de Macbeth é emocionante por sua perfeição, pelo dilacerante sentimento do ser humano, pela lógica poética de seu desenvolvimento.

       Não penso com uma visão patriarcal em um Deus criador, mas tenho convicção na existência de um universo multidimensional e espiritual. Eu deveria, portanto, não concordar com esse monólogo cético de um homem diante da morte tão próxima e violenta, mas eu não suportaria uma espiritualidade onde não coubesse Shakespeare.

 

3.

Assim na terra, como no céu.

       Há dias assim, em que estamos com a mesma percepção dos anjos.

       Acho que a Clarice Lispector só escrevia a sua ficção nesses dias. Inclusive a sua análise de Brasília, um texto ficcional da mesma altura de Ray Bradbury. A diferença é que ele escreveu o “As crônicas marcianas”. Na verdade, os dois estavam escrevendo sobre a mesma coisa.

       Jorge Luis Borges também escrevia em dias em que estava com a mesma percepção dos anjos. Mas para ele a percepção dos anjos era só um ponto de partida. Havia uma longa trilha a percorrer depois dessa dádiva.

       Thomas Mann também recebia essa dádiva, mas levava meses e meses escrevendo até conseguir disfarçar o presente do universo. Às vezes não conseguia, como na “Morte em Veneza”.

       Já Shakespeare não tinha qualquer pudor. Ele gostava de sentir-se divino só porque ele próprio era a dádiva angelical aos homens de boa ou de má vontade. Ao criar Iago ele antecipou o futuro homem inumano de conhecimento, experimentalista, que o século XX ofereceu à nossa perplexidade. E, no seu testamento, a última obra, “A tempestade”, nos presenteou com Próspero, o sábio esotérico capaz de dominar a natureza, mas que conserva vivo o amor paternal. Shakespeare conhecia todos os dilemas.

       Jack Kerouac, o turbulento autor de “On the road”, um tema caro à cultura americana, o da estrada como via de conquista da liberdade existencial, pioneiro da geração beat, cujo final da vida foi de sucessivas quedas, no livro “Satori em Paris”, percebeu o destino: “Em algum momento ao longo dos meus dez dias em Paris (e na Bretanha) recebi uma iluminação de algum tipo que parece ter me modificado outra vez…”. Estas palavras abrem o texto do Satori que, aliás, significa iluminação súbita.

       Guimarães Rosa experimentava o satori a cada palavra, a cada neologismo, a cada invenção. Escreveu “Sagarana”, marco da literatura brasileira, em sete meses. Deixou na gaveta durante sete anos, revisou, eliminou três contos, restaram nove, e publicou. Ele próprio conta esse caso em carta ao João Condé tornada pública. Mineiro recebe a iluminação, mas é desconfiado.

       Já o argentino Adolfo Bioy Casares ao publicar o seu “Histórias fantásticas”, ficou problematizado. Como seria entendido “fantásticas”? No prefácio do livro conta esse drama. Argentino gosta de escrever prefácio e posfácio. De repente percebeu que a própria literatura é fantástica. Naquele momento se iluminou sobre as suas várias iluminações pregressas.

       Luigi Pitigrilli, autor italiano do pós-guerra, escreveu que prefácio se escrevia depois do livro pronto, se colocava antes e ninguém lia nem antes e nem depois.

       Ele não me conhecia.

 

4.

Kardec

       Alexandre morreu no dia 28.6. Eu nasci no dia 28.6. Não devo ser a reencarnação de Alexandre, pois não venci grandes batalhas e, mais ainda, nunca desejei construir nenhum império, ainda que, antes de adormecer, às vezes, sonho com algumas facilidades.

 

5.

Igreja do Senhor do Bonfim, Bahia.

       São de uma incrível beleza essas fitas votivas ao vento. Nunca imaginei que a crença no diálogo com a divindade fosse tão maravilhosamente ondulante.

 

6.

O bom sono de Kafka

       Tudo de Matisse é superlativo, não importa o assunto. E tudo tem um olhar que parece tão cotidiano…

       Em Cézanne o cotidiano ganha individualidade. Novos seres.

       Em Matisse todos os seres sonham.

 

7.

Numa hora perdida.

       Às vezes, nem sempre, às vezes, contemplo o horizonte e nada vejo.

 

8.

Na claridade dessa manhã

O dia amanheceu tão claro e seco,

O azul será intenso,

Azul e azul até o horizonte.

Translúcido.

O meu olhar percorre a distância,

E o espaço,

E eu digo para mim mesmo,

Nessa manhã o ar tem uma forte transparência.

Estou no céu

Azul e translúcido,

E a claridade da manhã,

O sol radiante e forte e quente,

Encandeia os meus olhos,

E gloriosamente cego de luz,

Penso em você.

n° 54 – Ano XVIII – Junho de 2020 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

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