n° 49 – Ano XVII – Março de 2019  →   VOLTAR

Reflexões

Em um dia ensolarado.

Jacob Klintowitz – ABCA / São Paulo

          Esse sou eu.

          Nada do que eu fiz até hoje é tão semelhante a mim quanto esses textos. Parecia uma brincadeira, eram respostas que eu digitava neste teclado mínimo do celular. Não permitia correções, consultas, verificações. Como se fossem esboços num pequeno bloco enquanto o trem corre rápido e já nos afasta da cena contemplada. E nada me deu tanto prazer. Eles são o que eu realmente sou. É dessa maneira que no meu cotidiano, nas minhas distrações, nos felizes momentos em que sou vago, tudo se passa. As imagens, as palavras, a pontuação, os suspiros, a sensação de plenitude, num momento único, me ocupam e sou eu. No meu percurso, nesta trilha em busca de mim mesmo, escrevi tanto e em tantos tipos de veículos e, agora, este encontro com a espontaneidade é revelador e alegre. Acho justo que pela primeira vez eu apresente uma amostra deste labor quase secreto no jornal da ABCA. O nosso jornal é um voto permanente a favor do pensamento e da poesia libertadora que a palavra contém.

 

 

 

 

 

 

          1.

          O som e a fúria.

          Falam tanto na morte da canção, mas ela é imortal. É a gesta, a narração do nômade que percorrem o planeta em busca da sua própria alma que, a cada episódio, mostra um pouco da sua luz e do seu silêncio e que, às vezes, brota como uma trova, uma canção que nos diz de nossa solidão e de nossa ânsia pelo encontro.

 

 

 

 

 

 

          2.

          O círculo humano.

          Ouroboros é um símbolo sagrado, um símbolo místico, uma serpente ou dragão que morde o próprio rabo. É uma representação do conceito de Universo. Também é entendido como símbolo de autorreflexão. É inesgotável a extraordinária riqueza deste símbolo e a versatilidade de entendimentos possível. Na maturidade humana, ao pensarmos em nosso percurso pessoal, ao vislumbrarmos o contorno de sombra e prata do nosso destino, certamente teremos dele um conhecimento, ainda incompleto, de alternâncias luminosas que se aproximam, como um selo, do Ouroboros. Penso que somos Ouroboros.

 

 

 

 

 

 

          3.

          O Talmud impresso e em púrpura.

          O texto sagrado se torna metáfora.

          É gota, é pétala e é cor.

          A forma nasce da palavra que também é forma.

 

 

 

 

 

 

          4.

          A morte de Eros.

          Com o autoritarismo militar, a partir de 1964, e a ideologia da paranoia e da censura, extinguiu-se a crença e o otimismo de que seria possível construir um país glorioso. Morreu Eros, o deus da união das partes. Desde então, o país não se recuperou e vive até hoje, 2019, no universo persecutório das perdas, das ameaças externas e internas, da dissolução dos costumes em razão do comportamento sexual. Um mundo de trevas. Alguns poucos artistas maravilhosos mantém uma janela aberta por onde circula ainda alguma coisa da lua, alguma coisa do sol. Como devemos a estes poucos.

 

 

 

 

 

 

          5.

          O dia número um.

          As notícias do primeiro dia do novo governo: o que esperar? A Net tem cinco destaques neste dia inaugural: Mourão faz o juramento com voz mais alta do que o juramento do presidente; Guedes prepara Medidas Provisórias; imprensa internacional fala em Bolsonaro; os vestidos de Michele Bolsonaro; Paolla Oliveira exibe barriga negativa ao posar de biquíni na Bahia.

          Certamente o mais eletrizante é a pose de Paolla com a sua barriga negativa.

          Por reafirmação humanística, esses cinco destaques dariam uma memorável crônica para o Carlos Drummond de Andrade, daquelas que ele fazia no Jornal do Brasil, maravilhosamente bem escritas e com certo humor leve e educado. Ao contemplar Paolla, o nosso Carlos, o nosso poeta encanecido, poderia suspirar, “… é só um retrato na parede, mas como dói.”.

          Já Rubem Braga, sempre sutil, nos diria da moça bela e da carícia do vento baiano, do mar e das jangadas, e deixaria subentendido que, por um momento, sentiu desgosto por não ser ele próprio um vento brejeiro, desses que vem do mar e que refrescam as belas moças de biquíni ao sol…

          Vinicius de Moraes não perderia a oportunidade para uma ode, chamaria a moça de Paolinha, e diria que é a coisa mais linda que já viu passar. E, é provável, acrescentaria, em tom mais baixo, “eterno enquanto dure”.

          Já Millôr Fernandes, que nunca se impediu da pura provocação, mesmo para preservar as suas amigas, não resistiria à tentação: “Paolla confirma a minha tese, o melhor movimento feminino ainda é o das ancas.”.

          Isso diriam, acredito eu, os nossos poetas que escreviam a crônica dos nossos dias, todos agora habitantes do Paraíso. E o pobre cronista de hoje? Ele se limitaria a invocar os nomes e os pensamentos líricos dos antigos mestres, lamentaria o mundo autoritário das Medidas Provisórias e pensaria que enquanto existir as belas moças de biquíni e de barriga negativa, refrescadas pela brisa marítima de Itapuã, há esperança de um Brasil alegre e fagueiro.

 

 

 

 

 

 

          6.

          Arco-íris.

          Nada é inútil, nenhuma palavra desaparece. Todas as coisas são conectadas. Alguém me segredou que no mundo existem 36 justos que nos escutam e velam por nós.

 

 

 

 

 

 

          7.

          Pés de barro.

          Depois das denúncias de estupros de João de Deus, incluindo ai a sua filha, na ocasião com dez anos, é impressionante vê-lo acariciado, abraçado, protegido por tantos devotos. A crença de que este homem é o acesso ao divino. Pura idolatria.

 

 

 

 

 

 

          8.

          Em meu nome

          Eu falei das palavras e das figuras, mas era principalmente pensar em voz alta. Eu é que estava em questão… Tenho este apego às palavras por pura afinidade. Eu me sinto feliz entre elas. Eu sempre disse que a iluminação mística está fora da linguagem e é por isso que o Santo que viu a divindade não pode nos comunicar. Ele diz “eu vi a luz”, mas se nós não tivermos também visto a luz, a sua fala nos diz pouco. Aliás, para os que tiveram essa vivência direta com a divindade, o relato de outro iluminado é simplesmente uma vaga referência. Eu vi a luz e ela era ofuscante… Ora, ou nada nos diz, ou é um relato pobre de uma memória rica. Eu tenho certa intuição de que se eu visse a luz ela seria belamente constituída de poéticas palavras coruscantes, translúcidas, esculpidas em sua própria substância sutil, e cada uma delas se inscreveria em mim como um ser único, uma espécie de voo fora do espaço, um voo no tempo, pois vê-las e tê-las em mim seria a mesma coisa e eu perceberia que sempre estiveram em mim e que eu, cego de mim, não notava que tudo sempre fora esta coluna totêmica na qual todas as palavras existem e nos acordam para a verificação de que Eu Sou.

 

 

 

 

 

 

          9.

          Ambição

          Uma foto da Terra tirada por uma sonda americana que orbita em Saturno. Ao longe, no infinito negror do Cosmo, um pequeno ponto azul é a Terra.

          Uma amiga me diz: veja como nós somos insignificantes.

          E eu respondo: tudo o que eu posso desejar na vida, tudo que eu sou capaz de imaginar como desejo supremo, é ser um ponto azul no negror da imensidão cósmica.

 

 

 

 

 

 

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