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Ensaio

Em Florianópolis, “Armazém” reuniu trabalhos de 439 artistas

Criado em 2011, o projeto Armazém apresenta, através de exposições e feiras de arte, obras que sejam múltiplas como publicações de artista, livros de artista, cadernos de artista, cadernos de desenho entre outras.

Néri Pedroso – ABCA / Santa Catarina

Foto: Rodrigo Sambaqui.

Um armazém ou um museu? Na verdade, uma amplitude para quem atua com artes visuais. Espaço físico movente que regula o fluxo de mercadorias, no caso obras artísticas, entre a oferta do fabricante (artista), comerciante (espaço expositivo) e o consumidor (público/espectador/perceptor), as ações do Armazém abarcam muitas montagens, possibilidades e reflexões. A mostra “O Mundo como Armazém” foi apresentada em junho em duas novas salas do Centro Integrado de Cultura (CIC), em Florianópolis (SC). Entre selecionados, convidados e obras do acervo, se propusera a investigar questões e relações entre publicação de artista, o múltiplo, arquivo e coleção. A mostra reúniu 439 artistas e cerca de mil trabalhos. A iniciativa está legitimada pelo Prêmio Edital Elisabete Anderle 2017 e integra o projeto expositivo de extensão do Museu de Arte de Santa Catarina (Masc) nas comemorações dos 70 anos da instituição que incluem as mostras “Desterro Desaterro – Arte Contemporânea em Santa Catarina”, uma coletiva com artistas de diferentes gerações e “O Tempo dos Sonhos: Arte Aborígene Contemporânea da Austrália”, projeto que traz ao Brasil a vigorosa tradição artística daquele país.

Idealizado como um grande encontro entre artistas/coletivos/editoras independentes e público, a mostra/feira tem como meta reunir arte de obras que sejam múltiplas, ou seja, aquelas que são produzidas em número ilimitado, mediante diferentes processos industriais ou não como publicações de artista, livros de artista, cadernos de artista, cadernos de desenho, diários de artista, diários de bordo, postais, panfletos, cartazes, gravuras, fanzines, lambe-lambes, stickers, cartões, carimbos, objetos, etc. As tiragens são diferenciadas entre pequenas e grandes edições.

A exposição apresentou o acervo do Armazém, constituído de nomes nacionais e internacionais, e artistas convidados e selecionados. Juntos, as cerca de 400 representações resultaram num panorama abrangente. Sem hierarquias, a montagem adotou critérios diferenciados a cada edição. Lugar do artista no sistema de arte, importante ou iniciante, sua origem, não importa. Armazém é regido por um plano de igualdade e cabe ao público fazer suas descobertas e curtir as grandes surpresas.

Nesta edição, a mostra convidou ao mergulho e à atenta observação. O público se deparou com obras de Cildo Meirelles, Leonilson (1957-1993), Rosângela Rennó, Guto Lacaz, William Kentridge, John Cage (1912-1992), Yoko Ono, Helio Oiticica (1937-1980), Joseph Beuys (1921-1986), entre outros. No âmbito de Santa Catarina, as representações se alargam a partir da Capital, abarcando nomes como Cyntia Werner, Sérgio Adriano H, Sandra Checruski, Editora Micronotas, da região Norte, Joinville; Daniela Zacarão, Bruna Ribeiro, Matheus Abel e Odete Calderam, da região Sul, de Criciúma; Diana Chiodelli, Janaína Corá, Janaína Schvambach e Audrian Cassanelli, do Extremo-oeste, de Chapecó; Márcia Cardeal, de Brusque; Kim Coimbra e Sarah Uriarte, de Itajaí. De Florianópolis, estão, entre outros, Diego de los Campos, Paulo Gaiad, Ilca Barcellos, Sara Ramos, Luciana Petrelli.

O 16º Armazém apresentou também um seminário em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc).

John Cage, acervo. Foto: Rodrigo Sambaqui.

Sobre o Armazém

Criado em 2011, o projeto Armazém apresenta, através de exposições e feiras de arte, obras que sejam múltiplas como publicações de artista, livros de artista, cadernos de artista, cadernos de desenho, diários de artista, diários de bordo, postais, panfletos, cartazes, gravuras, fanzines, lambe-lambes, stickers, cartões, carimbos, objetos, etc; ou seja, trabalhos que tenham tiragens. Três fatores dão título ao projeto: a primeira edição aconteceu em Florianópolis (SC), no Museu Victor Meirelles, instalado na casa natal de Victor Meirelles na qual funcionou um bar e armazém durante parte da primeira metade do século 20. Além das relações com o espaço físico da instituição, a edição inaugural referencia o grupo Fluxus e o texto de Arthur C. Danto, “O Mundo como Armazém: Fluxus e Filosofia”, no livro “O que é Fluxus? O que Não É! O Porquê”, publicado em 2002 pelo Centro Cultural do Banco do Brasil/The Gilbert an Lila Silverman Collection Foundation.

Outro fator inspirador é a imagem utilizada nos cartazes das edições, uma fotografia de acervo familiar da idealizadora do projeto, Juliana Crispe. Um retrato do seu bisavô, Osvaldo Manoel Valgas, conhecido como seu Vadico, que entre as décadas de 1930 e 1990 foi sócio/funcionário de um armazém, no bairro Prainha, próximo ao centro da cidade de Florianópolis.

Desde 2011, o Armazém contabiliza a participação de mais de 300 artistas/coletivos brasileiros e alguns estrangeiros. Ao longo desses anos, formou um acervo de trabalhos com mais de mil obras em sua coleção.

Armazém é um espaço propositor de relações com a arte. Nas últimas edições, um ou mais curadores são convidados a participar da seleção de artistas e obras. A ideia é compartilhar olhares diferenciados e aproximar artistas locais por onde o projeto transita com os já participantes.

Armazém propõe um jogo relacional, propicia experimentar o contato direto com os trabalhos, tocando, lendo, trocando impressões e sensações. A coleção e as mostras se dão num conjunto heterogêneo e desprendido de hierarquias, valoriza o múltiplo e o coletivo como força pulsante e necessária para as artes.

Joana Amarante (E), Francine Favero, Juliana Crispe, Duda Desrosiers e Francine Goudel: coordenadoras do projeto Armazém. Foto: Rodrigo Sambaqui.

 

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