Artigo

Em busca da imagem:
a pesquisa em torno de Johan Maurits

O texto que se deixa manchar toca as bordas da escrita ali onde se tentaria estabelecer o limite entre a prosa e o verso

Zuzana Paternostro – ABCA/Rio de Janeiro

No dia sete de março último, participei de um evento chamado Patrons Salon realizado na cidade de Maastricht (nos Países Baixos), exatamente na véspera de se fecharem as fronteiras nacionais interrompendo, assim, as mais diferentes ações artísticas entre os países-membros da União Europeia. Estes encontros periódicos estão vinculados à CODART (Associação Internacional de Curadores de Arte flamenga e holandesa), ocasião em que curadores e profissionais de artes plásticas – sobretudo os de pintura e artes visuais – abordam determinada temática em foco nas palestras e debates anuais.1

Palestrantes no evento CODART em março de 2020. Foto: arquivo CODART, 2020.
Lea van der  Vinde , curadora e palestrante do Salon Patrons  – Foto: arquivo CODART, 2020

Desta vez, a temática proposta envolveu avaliar e destacar os resultados da exposição realizada na Mauritshuis (“Casa de Maurício”), em Haia, intitulada Mudando Perspectivas (Changing Perspectives) que ‒ a nosso ver ‒ mereceria um título mais adequado se, por exemplo, fosse alterado para “Ampliando a Perspectiva”.

Atualmente estão em curso, em diversos museus e instituições que conservam obras de arte no mundo, processos bem mais abrangentes que promovem leituras diferenciadas e análises distintas referentes a estas questões de autenticidade. Iniciou-se, portanto, um novo processo de interpretação das heranças artísticas, agora sob outro olhar e com imersão histórica mais ampla. Na verdade, trata-se de uma releitura que não deixa de lado as informações por longo tempo ‒ e até recentemente – consideradas como objetivas e consolidadas, embora venha a constituir uma visão bem mais ampla e dinâmica daquela praticada em épocas passadas.

Exposições permanentes de objetos históricos em diversos museus e galerias de arte simplesmente não abandonaram as informações já consolidadas2 sendo que, além disso, ainda introduziram um olhar diversificado sobre o significado latente dos objetos ‒ este é que foi considerado como um grande salto diferencial, somente alcançado por envolver a atuação de especialistas formados em ciências diversas e com conhecimentos que pouco têm a ver com a área específica da Arte. Deste modo, pudemos levar em conta interpretações distintas, provenientes da parte não apenas dos técnicos e curadores pertencentes ao quadro daquela Casa, mas contando também com a participação de estudiosos estrangeiros sem vínculo aparente ou mesmo estreito com a instituição e que conseguem outras leituras analíticas, ao agregarem significados nem sempre antes percebidos com referência aos artefatos em exibição.

Podemos constatar que este procedimento, por parte de todas as instituições tradicionais, já se mostra como um processo natural no esforço empreendido pelas entidades para se atualizarem. Trata-se, basicamente, de um processo interdisciplinar que se torna imprescindível para acompanhar tanto a evolução estética quanto o progresso material, ambos devidamente inseridos no contexto da época em que a obra foi produzida. Atualmente, ocorre deste modo a manutenção em andamento de museus e galerias de arte. Todos os países que procuram manter vínculos com a comunidade cultural vivenciam este processo sob diversas formas e intensidades. Buscam responder a estas indagações e questões sempre renovadas e, assim, não param de dialogar com a sociedade mediante um aprimoramento efetivo, já que visando a um entendimento mútuo.

Vista da exposição Changing Perspectives, em Mauritshuis. Foto: Ivo Hoekstra, 2019

Esta casa secular de João Maurício de Nassau, em Haia, foi construída como residência oficial do governador das sete províncias dos Países Baixos ‒ Johan Maurits Nassau-Siegen (1604-1679). Apenas bem mais tarde, em 1822, seria transformada numa instituição pública chamada Real Galeria de Arte. Fechada nos últimos anos, já passou por restauração e reestruturação completas reabrindo – após o tempo gasto em sua renovação ‒ em abril do ano passado, encerrando em seguida sua temporada de atividades públicas no mês de julho do mesmo ano.

Exposição na “Casa de Maurício” conta com pesquisadores brasileiros

Esta primeira exposição teve, como título, Em busca da imagem ‒ pesquisa em torno de Johan Maurits. A transformação física da edificação foi acompanhada pela renovação de formas e métodos para a exibição do rico material que abriga em seu acervo. Ao contrário do que possa parecer, esta temporada curta constituiu apenas o começo de uma orientação inovadora em prol de um diálogo com o público interessado e, além disso, deu o pontapé inicial numa extensa pesquisa que reuniu 46 colaboradores em torno da personalidade histórica de João Maurício de Nassau.

The Sugar Palace. Instalação da exposição Shifting Image: In Search of Johan Maurits, Mauritshuis. Foto: Ivo Hoekstra, 2019.

Ao participarem desta equipe de composição multinacional, estes colaboradores tentaram reconstituir as condições históricas existentes no mundo na época da personagem citada. Este projeto de pesquisa sobre a “Casa de Mauricio” teve, como propósito principal, o estudo detalhado de objetos pertencentes a esta instituição e que constituem o seu acervo. Para conseguir avanços significativos, envolveu uma equipe responsável extraordinariamente maior que qualquer outra exposição anterior já realizada com este mesmo acervo permanente.

Além dos previsíveis historiadores e críticos de Arte, outras funções foram introduzidas com a participação de restauradores e, ainda, de outras categorias de técnicos advindos das ciências humanas, de suas diferentes vertentes de antropologia e de biologia, totalizando 46 (quarenta e seis) estudiosos3 integrando uma equipe diversificada de conhecimentos científicos contando, também, com ampla representação de nacionalidades diferentes.

Vale a pena ressaltar, aqui, que encontramos mais de meia dúzia de brasileiros em atuação nas diversas especialidades acima apontadas. Dentre eles, conhecemos particularmente Mariana de Campos Françozo, devido a seu artigo enfocando o pintor Cornelius de Man (1621-1706) e seu quadro com a representação da costa brasileira, publicado já há alguns anos.4

Apesar da maioria de holandeses presentes, podemos mencionar ainda outros brasileiros participantes: Dante Martins Teixeira, do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro; Daniel Souza Leão de Vieira e Kalina Vanderlei Paiva da Silva, ambos da Universidade Federal de Pernambuco; Maria Regina Celestino de Almeida, da Universidade Federal Fluminense; e Mark Ponte, estudioso do Arquivo da Cidade de Amsterdã.5

Vista parcial da exposição Changing Perspectives, em Mauritshuis. Foto: Ivo Hoekstra, 2019.

Dos três palestrantes do Salão Mudando Perspectivas, a primeira a falar foi Lea van der Vinde, curadora da mencionada exposição, que apontou os múltiplos propósitos que a mostra pretendia alcançar. Desde a reconstrução do aspecto original do prédio, conhecido desde o século XVII pelo nome de Sugar Palace (Palácio de Açúcar), até o exame minucioso e a atenção dispensada a todos os objetos selecionados para exibição naquele evento. Participaram desta seleção não apenas originais do acervo bem como reproduções de obras-primas pertencentes ao acervo do Rijksmuseum tais como, por exemplo, a pintura Vista da Sé de Olinda na forma de um impressionante painel fotográfico, além de cópias e réplicas de obras vinculadas à rica e complexa trajetória da figura histórica de João Maurício de Nassau em terras brasileiras.

Assim, fica mais do que justificada a participação de diversos estudiosos brasileiros contribuindo para o panorama da maior conquista de Nassau, que foi a sua presença e liderança exercida no Brasil Holandês. Daí é que emergem as diferentes perspectivas por parte de uma equipe numerosa, que nos permitem aquilatar riquezas de toda sorte no campo do conhecimento da própria natureza, bem como de todos os desdobramentos passíveis de serem interpretados.

Representação do Negro na Arte ‒ à procura do equilíbrio

Quanto aos dois palestrantes indicados a seguir, ambos tiveram propósitos bastante similares: Epco Runia exerce a chefia do acervo da Casa de Rembrandt, em Amsterdã, e apresentou os resultados alcançados pela parceria estabelecida com Elmer Kolfin, historiador da Arte e professor da Universidade de Amsterdã.6 Runia, juntamente com Kolfin, divide a coautoria de publicações que abordaram a representação do Negro na Arte holandesa do século XVII.

Hendrick Heerschop, Koning Caspar, 1654 de 1659. Foto: Berlijn, Staatliche Museen Preussischen Kulturbesitz.

A palestra apresentada procedeu a um balanço que discursava sobre as pesquisas cujo resultado constituiu a recente exposição montada por ambos7: Here – Black in Rembrandt’s Time (“Aqui – Preto no tempo de Rembrandt”). Juntos, descortinaram um panorama infinitamente mais rico das representações de negros na pintura holandesa do passado, reveladas como visivelmente distintas das imagens estereotipadas que ficaram conhecidas posteriormente.

Desde a época de sua consolidação, há quatro séculos, nossa memória atual continua acostumada ao gênero da retratística europeia com a figura de um negro adulto ou criança complementando o cenário apenas numa função decorativa, presente na composição somente para destacar a importância do principal retratado. O negro sempre se encontrava numa posição secundária, marcada pela ausência de expressão, tanto de um rosto peculiar quanto de vida própria. Suas características pessoais eram ocultadas, careciam de qualquer propósito ou pretensão de deter a atenção ou mesmo para inspirar a empatia por parte do observador.

Em nada diferente, era até mesmo notável a existência de negros nas pinturas de Frans Post (1612-1680): a bem da verdade, ele era um paisagista e as figuras, tanto de negros como de indígenas ou mesmo as de raros europeus, constituíam somente meros figurantes inseridos na disposição de seus panoramas, com presenças insinuadas em manchas despretensiosas e sem sequer contar com quaisquer detalhes. Sua atenção era voltada para o horizonte, e para os seus desdobramentos figurativos quanto à flora e à fauna. Além da fauna em geral, dispensou atenção principalmente aos pequenos e exóticos animais, sempre situados em primeiro plano nas suas pinturas.

Frans Post Paisagem de Pernambuco (detalhe), Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro / IBRAM. Foto: Arquivo MNBA.

Com acesso ao acervo e à respectiva pesquisa, no entanto, Epco Runia não pôde deixar de registrar as obras de Rembrandt que captam, em inúmeros desenhos e esboços, os rostos dos seus concidadãos. Essas representações foram expostas na própria exposição e ilustravam a fala do palestrante. Dentre elas, há que destacar os trabalhos admiráveis de Rembrandt van Rijn (1606-1669), particularmente no trabalho de um desenho rico de nuances das passagens de carvão e igualmente com atenção às duas fisionomias (Cabeças de Negros). Ali, não se trata apenas de esboços, pois já apresentam a genialidade de sua observação, que supera os melhores exemplos de retratística ao oferecer estudos de rostos negros de admirável expressividade e personalidade ímpar.

Rembrandt van Rijn, Cabeças de negros, 1656,. Foto: Arquivo do Het Rembrandthuis, Amsterdam.

Ainda outros não deixaram de representar negros em papéis de destaque, como na obra de Hendrick Heerschop (1626-1690) retratando um majestoso e paramentado negro desempenhando um dos três Reis Magos. .8  Porém, há que lembrar também que Runia e seu colega mencionam que, ao lado da experiência dos holandeses nas chamadas Índias Ocidentais povoadas pelos escravos trabalhando nos engenhos de açúcar, havia na própria Amsterdã uma pequena comunidade de negros livres no Jodenbreestraat. Os resultados alcançados pelas pesquisas de ambos proporcionaram material para diversos estudos publicados bem como, ainda, para a mostra citada acima que Epco Runia apresentou em abordagem pioneira, já que este assunto havia sido por muito tempo negligenciado.

O último a falar no Salon foi Richard Kofi, artista e curador independente que não teve participação direta na exposição recente em Mauritshuis. Na sua trajetória curricular, constam trabalhos no Museu Nacional de Culturas Mundiais e, principalmente, colaboração no dicionário Words Matter contribuindo, assim, para o enriquecimento do vocabulário de expressões oriundas de línguas e dialetos africanos que, embora desprovidas de legitimidade, foram utilizadas na Europa e particularmente na Holanda.

Foi a partir deste ordenamento que se justificou a praxe da aplicação de uma terminologia mais ousada, por direito mais exata e rica a ser utilizada em museus e institutos de arte. Richard Kofi participou da exposição The Afterlives of Slavery, realizada no Tropenmuseum em Amsterdã (2017), onde se discutia – juntamente com um elenco maior ‒ as relações sociais do passado e da atualidade. Programador do teatro Bijlmerpark e de um podcast intitulado Projeto Wiaspora, mostrou-se interessado em apresentar no Salon, além de seus pontos de vista, também o fato de abrir espaço para o debate de soluções, a fim de dar a devida visibilidade à questão racial. Movido pela procura do resgate cultural na representação do negro e do afrodescendente, teve como intenção maior o equilíbrio na representação, buscando como meta em sua palestra atrair a discussão sem necessárias soluções imediatas a serem alcançadas.

A riqueza econômica da Holanda que repousava, acima de tudo, na administração de seu lucro incalculável advindo da exploração da cana-de-açúcar e em seu sucesso comercial pelo consumo crescente na Europa produziu uma sociedade na qual foi possível encontrar uma vasta gama de realizações. Uma delas seria a produção artística em inúmeras guildas para satisfazer a burguesia abastada e exigente. Esta mesma classe elencava um repertório rico de temas e assuntos, nem sempre equilibrados, que hoje se tornam passíveis de apreciações e avaliações sob diferentes perspectivas no retrovisor do nosso tempo e conforme nosso saber histórico com necessário distanciamento. Foi o que se propuseram a debater numa escala restrita, porem admirável, todos os palestrantes do Codart neste evento Patrons Salon no TEFAF realizado em Maastricht, no mês de março de 2020.

 

Notas e referências:

1) Para a autora deste texto, uma das palestras mais interessantes foi realizada no ano passado, quando esta missivista se encontrava na exposição de uma coleção de pinturas holandesas no Museu do Louvre, em Abu Dhabi, com temática girando em torno de obra original e cópia: “Estamos no TEFAF Maastricht para o nosso salão anual de Curadores. O tema deste ano é: ‘Real ou falso? Questões de autenticidade’. Os nossos oradores discutem o exame técnico dos materiais em relação a aspectos da autenticidade.” Acesso em 16 mar. 2019 e disponível em https://www.facebook.com/CODART/.

2) Dentre as iniciativas pioneiras que encontramos, incluem-se aquelas executadas por museus e galerias de arte londrinas.

3) A relação completa de colaboradores encontra-se na publicação Bewogen Beeld – Op Zoek naar Johan Maurits (com versão em inglês) de autoria da curadora Lea van der Vinde.

4) FRANÇOZO, Mariana. Um toque de além-mar. Ver ainda: PATERNOSTRO, Zuzana Obras repatriadas. Revista Nossa História, 2009. Disponível em: <historianovest.blogspot.com/2009/03/um-toque-de-alem-mar.html>. Acesso em 15 abr. 2019. Publicação cuja imagem ilustrativa se deve à colaboração e gentileza do Dr. Walter Liedtke (in memoriam), curador do MET (Metropolitan Museum), em Nova York.

5) Com o propósito de ilustrar a variedade de colaboradores, há que mencionar Erik Odegard: desde então ativo na própria Mauritshuis trabalhando na Pesquisa sobre Johan Maurits, conhecida já com esta idêntica denominação. Ao lado dele, e sempre presentes como componentes da mesma instituição, não podemos deixar de mencionar outros colegas generosos de longa data: o conservador de obras, e atual presidente da CODART, Quentin Buvelot, como também a diretora atual Maartje Beekman, e a colaboradora  da exposição Mireia Alcântara Rodriguez, formada em etnobotânica e arqueologia pela Universidade de Leiden.

6) Dedicado a esta temática, Elmer Kolfin aparece dentre os pioneiros nos estudos como numa exposição realizada em 2007 na galeria Nieuwe Kerk, em Amsterdã. Ver: https://books.google.com.br/books?id=ZMOzDwAAQBAJ&pg=PA202&lpg=PA202&dq=Elmer+Kolfin++e+os+negros+na+arte&source=bl&ots=Tp1M4thiX7&sig=ACfU3U0xJK3Nl39Y7t

7) Maiores detalhes a respeito do projeto, pesquisas relativas a este assunto já publicadas bem como a apresentação da exposição, ver em: https://www.google.com.br/search?safe=active&sxsrf=ALeKk01LzcBVYapjuZnTYEZL07YzkZ8Xdw%3A1589641739964&source=hp&ei=CwLAXpSrOMfC5OUPirqTgA8&q=Here+%E2%80%93+Blac

8) Disponível em: https://www.dutchnews.nl/features/2020/03/black-in-rembrandts-time-a-myth-shattering-exhibition-on-identity-and-truth

n° 54 – Ano XVIII – Junho de 2020 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

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