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Artigo

Elogio de um esquecimento

Necrológios de Tom Wolfe deixaram de lado sua atuação como crítico de arte.

Eduardo Veras – ABCA / Rio Grande do Sul

Tom Wolfe: crítico da crítica de arte. Foto Dan Callister.

A morte recente de Tom Wolfe, aos 88 anos, suscitou comovida série de homenagens. O autor que melhor encarnava a vocação refinada, avant-garde e cosmopolita de Manhattan (e ao mesmo tempo o que mais debochava dela) foi celebrado como grande renovador do Jornalismo Literário e como fundador exemplar do New Journalism.[1] Os obituários saudaram sua capacidade de observação, tão acurada quanto ácida, e enalteceram seus modos de construção narrativa e uso da linguagem, tidos como saborosos e inventivos. Jornais brasileiros rememoraram sua silhueta de dândi contemporâneo[2] e recuperaram a alcunha de “Balzac da Park Avenue”.[3] The New York Times destacou-lhe a aptidão para reportar as esquisitices do nosso tempo.[4] O francês Liberátion não deixou de mencionar seu conservadorismo político, mas arriscou comparações com ninguém menos que Stendhal, Flaubert e Zola, sublinhando que Wolfe havia feito os Estados Unidos examinarem as próprias lágrimas e as próprias taras com uma “lucidez cruel”.[5]

Em meio a tantas exéquias, parece curioso que não se tenha evocado (até onde consegui verificar) a performance de Tom Wolfe como crítico de arte – ou, para ser mais exato, como crítico da crítica de arte. Ora, o jornalista assinou um livro que, à época de seu lançamento, em 1975, alcançou rumorosa repercussão no campo artístico. The painted word foi impiedosamente espinafrado por Rosalind Krauss na Partisan review,[6] mas mereceu a qualificação de “obra-prima” nas páginas de The Washington Post. Na resenha, a britânica radicada em Nova Iorque Viven Raynor declarava ter emendado quatro leituras seguidas do livro, experimentando – ela enfatizava – uma “inveja crescente” em relação a Wolfe. A precisão dele, segundo ela, fazia-se “cirúrgica”.[7] Sob o título de A palavra pintada, esse calhou de ser o primeiro texto do autor publicado no Brasil, e, embora tenha aportado com 12 anos de atraso no país, percorreu, também por aqui, uma trajetória admirável.[8] Chegou a figurar entre as referências bibliográficas obrigatórias em cursos acadêmicos de Artes Visuais, História da Arte, Letras e Comunicação.

“No cerne de sua crítica, Wolfe mirava na crítica de arte em ascensão desde a década de 1940…”

No ensaio, de fôlego curto, mas pontaria precisa, Wolfe abordava o período então recente de consolidação da arte moderna na Europa e, sobretudo, nos Estados Unidos. Dedicava a maior parte do pequeno volume a uma revisão de pretensões e estratégias de artistas e críticos de arte no momento de sua associação a marchands, mecenas e colecionadores, desde a virada do século até aquele instante, para alçar a obra de arte moderna à condição de objeto de desejo, algo a uma só vez chique, cultivado e revolucionário, algo de bom gosto. Não era nada tão diferente daquilo que, em outros contextos, Pierre Bourdieu descreveu a partir da análise das práticas de consumo cultural nas sociedades contemporâneas – em suas relações com o capital simbólico, o habitus de classe e a distinção social.[9] Ocorre que Wolfe, se não errava o alvo, forçava demais no curso do projétil. Ignorava as estruturas de poder, seus modos de funcionamento e suas ambiguidades e, de um ponto de vista superior, sempre gaiato e zombeteiro, ridicularizava os personagens que se propunha a examinar: em última instância, artistas, críticos e curadores emergiam do livro como vilões de desenho animado, dando risadinhas e torcendo as mãos, ou, ainda pior, como uns sujeitos tontos, sedentos por glória e reconhecimento, tanto quando por canapés e champanhe. Em resumo, uma gente trapaceira, afetada e eventualmente “fanática”, sem alma e sem contradições.

No cerne de sua crítica, Wolfe mirava na crítica de arte em ascensão desde a década de 1940. Abominava mais do que tudo a perspectiva teórica e as argumentações de Clement Greenberg, Harold Rosenberg e Leo Steinberg, em especial as do primeiro: “Era tudo pura retórica”.[10] O autor de A palavra pintada desprezava a remota filiação marxista do jovem Greenberg, suspeitava de sua sinceridade intelectual e reduzia seu estilo de escrita a tautologias pedantes, convertidas com o correr do tempo a “gritos de desespero e indignação”. [11] O que mais lhe assombrava, porém, era a ambição legitimadora desse discurso de autoridade: a palavra queria valer mais do que a pintura, queria justificar e até mesmo substituir a pintura.

Obviamente, esses críticos, os formalistas em particular, Greenberg a frente deles, não estavam imunes a críticas – tanto não estavam que foram duramente alvejados, de diferentes pontos e por distintos meios, tendo perdido quase todos os debates. A própria Rosalind Kraus, reconhecendo-se como discípula de Greenberg, apontou as limitações e o autoritarismo das teses do mestre. Artistas que o crítico admirava, Barnett Newman, mais do que todos, rejeitaram seus elogios.[12] Historiadores da arte reservaram um lugar pouco nobre para o autor de Rumo a um mais novo Laocoonte: Jonathan Harris, Francis Frascina, Paul Wood e Charles Harrison advertiram para o caráter altamente seletivo, moralista e apologético de seus julgamentos;[13] Serge Guilbaut desvendou como Greenberg, com apoio financeiro da CIA, logrou transferir o título de capital da cultura de Paris para Nova Iorque.[14] Com o avanço dos anos, formalista virou uma espécie de xingamento. O equívoco de Wolfe – suponho – esteve antes nas tintas que escolheu do que no retrato em si. Parecia magoado por não lhe terem chamado a tomar parte da dança boêmia.

Ao pintar o Dorian Gray da crítica formalista, Wolfe, de quebra, ainda respingou nos artistas: acusou Jackson Pollock e boa parte dos expressionistas abstratos de submissão a Greenberg, reservando a si próprios o papel de meros ilustradores das assertivas do crítico. Da mesma forma, o jornalista escarneceu dos interesses “teóricos” de artistas tão diversos como os cubistas, os dadaístas, os pops, os minimalistas, os adeptos da Land Art ou os conceituais. Braque, o poeta Tristan Tzara, Roy Lichtenstein, Morris, Smithson e Lawrence Weiner foram, um a um, zoados por Wolfe. Não é de estranhar que, em 2009, em visita a Porto Alegre, como palestrante do Fronteiras do Pensamento, ele tenha declarado que Picasso e Matisse fizeram o que fizeram, em termos de arte, porque “estudaram pouco”: Picasso, segundo ele, não sabia “criar profundidade nos quadros”, enquanto seu colega francês pintava mãos como quem pinta “aspargos tirados do mercado”.[15]

Enfim, revisitada a querela, talvez não fosse mesmo o caso de rememorar o Tom Wolfe crítico de arte. Melhor legar ao esquecimento essa vertente algo disparatada de sua larga e original produção bibliográfica.

REFERÊNCIAS:

BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.

CARMODY, Deirdre; GRIMES, William. “Tom Wolfe, 88, ‘new journalist’ with electric style and acid pen, dies”. In: The New Tork Times, Nova Iorque, 15/5/2018.

COTRIM, Cecilia; FERREIRA, Gloria (orgs). Clement Greenberg e o debate crítico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

DOMINGUES, Juan. “Wolfe virou o principal ícone de uma geração de jornalistas que revolucionou o jeito de escrever reportagens”. In: Zero Hora, Porto Alegre, 19/5/2018.

GUILBAUT, Serge. De como Nueva York robô la idea de arte moderno. Valencia: Tirant lo Blanche, 2007.

JOFFRIN, Laurent. “L’étoffe d’un héraut”. In: Libération, Paris, 15/5/2018.

KRAUSS, Rosalind. “Café criticism”. In: Partisan review, n. 42, Nova Iorque, 1975.

MEIRELES, Maurício. “Tom Wolfe, jornalista literário e autor de ‘A fogueira das vaidades’, morre aos 88”. In: Folha de S. Paulo, São Paulo, 15/5/2018.

PENA, Felipe. “O jornalismo literário como gênero e conceito”. In: Contracampo. Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense, n. 17, 2007.

PEREIRA LIMA, Edvaldo. “Jornalismo e literatura: aproximações, recuos e fusões”. In: Anuário Unesco / Metodista de Comunicação Regional. Universidade Metodista de São Paulo, v. 13, 2009.

WOLFE, Tom. A palavra pintada. Porto Alegre: L&PM Editores, 1975.

___________. Radical Chique e o Novo Jornalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

WOOD, Paul et alli. Modernismo em disputa – A arte desde os anos 40. São Paulo: Cosac Naify, 1998.

NOTAS:

[1] O conceito de Jornalismo Literário tende a ser mais largo do que o de New Journalism, designando o gênero de reportagens jornalísticas que busca romper com as técnicas mais tradicionais de escrita, em especial com as noções de objetividade informativa e apagamento do autor. Nomes tão diversos como Joseph Mitchell, Lilian Ross, Ernst Hemingway, Gabriel García Márquez ou o brasileiro Joel Silveira costumam ser mencionados como notáveis representantes da vertente. A nomenclatura New Journalism, mais restrita, corresponde a uma corrente do Jornalismo Literário que se projetou nos Estados Unidos a partir dos anos 1960 e 70, com a deliberada ambição de deixar evidentes as marcas estilísticas de seus agentes – Tom Wolfe, Gay Talese e Truman Capote, entre eles. Para saber mais, cf. PENA, Felipe. “O jornalismo literário como gênero e conceito”. In: Contracampo. Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense, n. 17, 2007; PEREIRA LIMA, Edvaldo. “Jornalismo e literatura: aproximações, recuos e fusões”. In: Anuário Unesco / Metodista de Comunicação Regional. Universidade Metodista de São Paulo, v. 13, 2009; e o próprio WOLFE, Tom. Radical Chique e o Novo Jornalismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

[2] MEIRELES, Maurício. “Tom Wolfe, jornalista literário e autor de ‘A fogueira das vaidades’, morre aos 88”. In: Folha de S. Paulo, São Paulo, 15/5/2018.

[3] DOMINGUES, Juan. “Wolfe virou o principal ícone de uma geração de jornalistas que revolucionou o jeito de escrever reportagens”. In: Zero Hora, Porto Alegre, 19/5/2018.

[4] CARMODY, Deirdre; GRIMES, William. “Tom Wolfe, 88, ‘new journalist’ with electric style and acid pen, dies”. In: The New Tork Times, Nova Iorque, 15/5/2018.

[5] JOFFRIN, Laurent. “L’étoffe d’un héraut”. In: Libération, Paris, 15/5/2018.

[6] Krauss comparou o livro de Wolfe a uma então recém-diagnosticada síndrome de enxaquecas provocadas pelo uso excessivo de realçadores artificiais de sabor em restaurantes chineses nos Estados Unidos. Cf. KRAUSS, Rosalind. “Café criticism”. In: Partisan review, n. 42, Nova Iorque, 1975.

[7] RAYNOR, Viven. The Washington Post. Apud http://www.tomwolfe.com/PaintedWord.html. Não consegui localizar a resenha original de Raynor no Post, mas, em outro artigo, 15 anos adiante, ela ainda mantinha o entusiasmo em relação ao livro de Wolfe: na crítica a uma exposição de artistas turcos e iranianos na galeria da Biblioteca Pública da cidade de White Plains, ela mencionava de passagem The painted word, classificando-o como “trabalho maravilhoso”. Cf. RAYNOR, Viven. “From Turkey and Iran, ‘A singular vision’ in White Plains”. In: The New York Times, Nova Iorque, 11/2/1990.

[8] O livro foi traduzido para o português por Lia Alverga-Wyler. A edição, com 120 páginas, mantinha reproduções de seis ilustrações originais de Tom Wolfe em preto e branco. Cf. WOLFE, Tom. A palavra pintada. Porto Alegre: L&PM Editores, 1975.

[9] Essas teses aparecem em diferentes textos do sociólogo francês, mas estão em certa medida sintetizadas no último capítulo de BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.

[10] WOLFE, Tom. Opus cit., p. 55.

[11] WOLFE, Tom. Opus cit., p. 56.

[12] Esses debates, tanto aquele com Rosalind Krauss quanto o com Barnett Newman, estão disponíveis na antologia COTRIM, Cecilia; FERREIRA, Gloria (orgs). Clement Greenberg e o debate crítico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.

[13] Cf. WOOD, Paul et alli. Modernismo em disputa – A arte desde os anos 40. São Paulo: Cosac Naify, 1998.

[14] Cf. GUILBAUT, Serge. De como Nueva York robô la idea de arte moderno. Valencia: Tirant lo Blanche, 2007.

[15] Cf. conferência realizada em 16/9/2009 no Salão de Atos da Reitoria da UFRGS, em Porto Alegre.

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