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Diálogos da Privação: A arte como “respiro” em meio a pandemia

Cada época histórica foi marcada por grandes questões que levaram a mudanças na mundivisão, implicando, consequentemente, em práticas artísticas inovadoras ou na revisão de técnicas clássicas utilizadas para representar/significar o mundo.

Lilian Cristina Monteiro França – ABCA/Sergipe

Arte e crise são conceitos tão próximos que extrapolam metáforas e relações simbióticas para imbricarem-se como sinônimos, seja no âmbito macro ou no microcosmo peculiar de cada artista.

Cada época histórica foi marcada por grandes questões – guerras, desastres naturais, pandemias, para citar as mais impactantes – que levaram a mudanças na mundivisão, implicando, consequentemente, em práticas artísticas inovadoras ou na revisão de técnicas clássicas utilizadas para representar/significar o mundo.

Em meio à incerteza da virada para o século 21, Yves Michaud (1997) escreveu sobre como a arte contemporânea vem se desintegrando, não a arte em si, mas as suas utopias, diluídas, violentamente, pela máquina de consumo de massas.

Alicerçada num discurso capaz de conferir a um objeto o status de obra de arte, a produção contemporânea, segundo Michaud (1997), reveste-se de uma estetização que prioriza a beleza, do corpo à moda e ao meio ambiente, mas, pontua o autor, a realidade não é bela.

“Pelos canais da Internet multiplicam-se as possibilidades: museus apresentam exposições virtuais, como o tour pela Casa Azul de Frida Kahlo, a curadoria do MASP em casa…”

Em tempos sombrios, emerge uma forma aguda da arte: contra insurgente, revolucionária, emocionante, solidária e contundente.

Pelos canais da Internet multiplicam-se as possibilidades: museus apresentam exposições virtuais, como o tour pela Casa Azul de Frida Kahlo, a curadoria do “MASP em casa”, os desafios de fotos que reinterpretam obras de arte e as lives que inovam nas estratégias de formação de público, na divulgação de artistas e suas obras, em diálogos entre pesquisadores, criadores e pensadores.

Algumas iniciativas inovadoras surgem nas redes sociais, como é o caso das propostas de: Emma Calvo, Irene Llorca e José Guerrero, publicitários de Barcelona, que criaram um museu específico, o Covid Art Museum – CAM (@CovidArtMuseum); e da brasileira Luiza Lorenzi Adas, responsável pelo Museu do Isolamento Brasileiro (@museudoisolamento), ambos com “sede” no Instagram (a rede social).

O mercado, apesar do que se poderia imaginar, enfrenta o lockdown com resultados surpreendentes, como indica o site especializado Art Price, que menciona a pintura “A Baia de Nápoles” (1878), do russo Ivan Constantinovich Aivazovsky, leiloada pela Sotheby’s por US$ 2,8 milhões, valor muito acima do esperado em leilão exclusivamente virtual.

A tradicional casa também promoveu, entre 22 e 28 de maio de 2020, o evento “I have to stay at home”, título homônimo ao da pintura de Martin Kippenberger, datada de 1986, realizada pelo artista em seu período de convalescência e em homenagem a um tempo passado na cidade do Rio de Janeiro.

Para o leilão, a Sotheby´s preparou um lote de arte contemporânea, que incluiu trabalhos de Anselm Kiefer, Bridget Riley, Damien Hirst e Jeff Koons, entre outros, com a obra “A mulher de cabelo dourado” (1957), de George Condo, atingindo a ordem dos sete dígitos: US$ 1,2 milhão.

Os meses de julho e julho movimentaram o chamado mercado high-end, com a Christie’s realizando o ONE, um leilão online que interconectou  Hong Kong, Londres, Paris e Nova Iorque, contando com o trabalho de Pablo Picasso e Roy Lichtenstein, e a Sotheby’s com peças de Jean-Michel Basquiat e Francis Bacon, para mencionar apenas alguns dos principais artistas. A obra de arte apresenta-se, portanto, como um ativo interessante em face a volatilidade das moedas, títulos, ações e de todo o mercado financeiro.

“O papel dos profissionais de saúde trabalhando na “linha de frente” foi tema de vários artistas…”

No diâmetro oposto ao da lógica do mercado de arte, o artista conhecido por FAKE, que tem como base a cidade de Amsterdã, cuja especialidade é a street art, criou a emblemática figura da Super Nurse, um tributo aos trabalhadores da saúde que atuam na linha de frente da luta contra a COVID-19 e a disponibilizou para download gratuito (Figura 1).

Figura 1 – “Super Nurse”, FAKE, 2020. Foto: Copyright 2020 FAKE Art (Free non commercial use).

A imagem viralizou nas redes sociais e passou a ser utilizada em todo o mundo, em murais, instalações, projeções, camisetas, e ações que tivessem por objetivo homenagear os principais trabalhadores envolvidos no combate à pandemia.

O próprio FAKE a ressignificou acrescentando as bandeiras dos países que se tornavam novos epicentros em seu background (Figura 2).

Figura 2 – “Super Nurse” com bandeiras no background, FAKE, 2020. Foto: Copyright 2020 FAKE Art (Free non commercial use).

O papel dos profissionais de saúde trabalhando na “linha de frente” foi tema de vários artistas. Nessa linha, o anônimo artista britânico Banksy produz uma de suas obras, intitulada “Painting for Saints”, na parede externa do setor de emergência do University Hospital Southampton NHS Foundation (Figura 3), em Southampton, Reino Unido, mostrando um garoto que troca heróis tradicionais por uma nova heroína, uma enfermeira, de capa, que simula um voo em direção à salvação dos atingidos mais severamente pela Covid-19.

Figura 3 – “Painting for Saints”, Banksy, 2020. Foto: Banksy, 2020 (Fair use).

Num movimento catártico, símbolos hospitalares e EPIs (Equipamentos Individuas de Proteção) foram incorporados à crônica do cotidiano, fazendo com que luvas, óculos, face shields e máscaras falem com eloquência dos momentos de privação e de medo que superam a narrativa ficcional e tingem o dia a dia com matizes pesados de cinzas.

“Nas palavras de Fábio Sampaio: “Optei por transformar esse momento em um grande laboratório artístico…”

O artista paulista, radicado em Aracaju, Sergipe, Fábio Sampaio, escolheu um deles, a máscara, e transcendeu os seus elementos evocativos, reescrevendo a sua história, buscando apreender e eternizar “o agora”, ao mesmo tempo que o comprime e estanca.

Fábio Sampaio preparou uma série de 25 cápsulas de acrílico que “contém” máscaras protetoras, batizada com o título de “Respiro” (Figura 4), jogando com a dialética entre respiração/falta de ar, proteção/limitação, liberdade/contenção, isolamento social/convivência.

Figura 4 – Série “Respiro”, Fábio Sampaio, 2020. Foto: Fábio Sampaio, 2020.

O autor esclarece que o conceito “brotou” em meio a esse contexto, repleto de “grandeza e de complexidade”, devendo funcionar como uma cápsula do tempo, que vai aprisionar o momento e os sentimentos vividos em meio à incerteza e à angústia que nos cercam.

Nas palavras de Fábio Sampaio: “Optei por transformar esse momento em um grande laboratório artístico. Achei por bem utilizar a minha poética visual para que possamos atravessar esse momento imprevisível de uma forma mais leve” (SAMPAIO, 2020).

“Respiro” (Figura 5), segundo o artista, condensa o processo de busca por proteção, que sentimos quando estamos nas ruas, instigados que somos por um acirramento de tensões, atualmente, ainda mais assustadoras, que vinculam nossa própria sobrevivência com cuidados como o toque em uma superfície ou o apertar de um botão.

Figura 5 – Imagens da série “Respiro”, Fábio Sampaio, 2020. Foto: Composição a partir de fotos de Fábio Sampaio, 2020.

Parte da arrecadação obtida com o valor da venda das obras será destinada a associações que lutam para se manter durante essa época de combate a Covid-19.

Motivados pela perplexidade da “gripe espanhola”, um século atrás, os artistas também a retrataram: George Grosz, pintou “The Funeral” (1918) e Edvard Munch o “Self-Portrait after the Spanish Flu” (1919); Marcel Breuer teria se inspirado na devastação causada pela influenza para desenhar seu mobiliário minimalista na Bauhaus (KAMBHAMPATY, 2020, online); T.S. Eliot escreveu o poema “The Waste Land” (1922) após ele e a esposa terem contraído a doença, Virginia Wolf fez de sua personagem central de “Mr. Dalloway” (1925) uma sobrevivente, mostrando que “the flu” deixou seu rastro pelos diferentes campos da cultura.

A gripe matou Gustav Klimt (aos 56 anos teve um AVC decorrente da gripe, provavelmente), Egon Schiele (27 anos), Guillaume Apollinaire (36 anos), e várias outras carreiras foram precocemente encerradas.

Talvez a humanidade nunca tenha vivido um momento de tamanha privação de liberdade, em que o direito de ir e vir sucumbe a necessidade de preservação da vida e encerra os mercados de Wuhan, os canais de Veneza, os parques de Madri, as galerias de Londres, os museus de Paris, as indústrias de Berlim, os bares de Amsterdã, os portos de Guaiaquil, as lojas de Nova Iorque, os escritórios de São Paulo.

Mas a arte não sucumbe à privação, tão pouco ao triunfo da estética (MICHAUD, 1997), não perde o fôlego, não se cala, antes, protesta, dialoga, denuncia, socorre, amplia a sua resiliência, registra e eterniza o desespero e a incerteza, como uma vacina, tão desejada, contra a falta de esperança.

 

Referências

ART PRICE. Upcoming masterpieces: Picasso, Lichtenstein, Bacon… and many more. 23 de junho de 2020. Disponível em: <https://www.artprice.com/artmarketinsight/upcoming-masterpieces-picasso-lichtenstein-bacon-and-many-more>. Acesso em: jun. 2020.

KAMBHAMPATY, Anna Purna. “How Art Movements Tried to Make Sense of the World in the Wake of the 1918 Flu Pandemic”. In: Time, 5 de maio de 2020. Disponível em: <https://time.com/5827561/1918-flu-art/>. Acesso em: jun. 2020.

MICHAUD, Yves. La crise de l’art contemporain: utopie, démocratie et comédie. Paris: Presses Universitaires de France. 1997.

SAMPAIO, Fábio. Entrevista a Lilian França. Junho de 2020.

n° 55 – Ano XVIII – Setembro de 2020 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

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