n° 45 – Ano XVI – Março de 2018  →   VOLTAR

Artigo

Cristina Almeida e a escultura como ato primordial através de vínculos

Cristina Almeida e a escultura como ato primordial através de vínculos.

Sandra Makowiecky – ABCA / Santa Catarina

Cristina Almeida, As três graças, cerâmica esmaltada, ferro e cimento, 27 x 25 cm, 2017. Fonte: Acervo da artista.

O Museu da Escola Catarinense (MESC), da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC) em Florianópolis, apresentou a exposição “Fazendo poesia, esculpindo corpos”, da escultora Cristina Almeida, entre 2 de fevereiro e 19 de março de 2018. A mostra teve a curadoria de Sandra Makowiecky e de Francine Goudel.

Em suas esculturas, em atos tridimensionais, expressa manifestações de nossa existência. Podemos dizer que vemos em suas obras, certa ansiedade comum por uma consciência maior sobre nossa condição humana e pela consequente necessidade de registrá-la. Nas obras de arte, independente de suas naturezas específicas, por meio de conceitos fundadores dessas expressões e de seus processos de construção, o que persiste é um compromisso com o ser humano. Em alguns momentos as encontramos tomadas pela busca de uma permanência supra-humana e, em outros, pelo intento de proporcionar aos indivíduos, experiências que instaurem momentos de singularidade memoriais; imprimir, no outro, oportunidades de vivenciarem uma sublimidade contemplativa, permitindo que se reconheçam na beleza dos mistérios dessas manifestações.

Cristina iniciou na escultura quando muitos começam a parar. Iniciou seus estudos em cerâmica há uns três anos, com a ceramista e artista plástica Tânia Correa. Prosseguiu com a ceramista Ariadne van der Linde e com o escultor Israel Kislansky. Enquanto preparava sua saída da atividade de médica anestesista, professora doutora na academia, profissão que exerceu por trinta e oito anos (38), que jocosamente diz representar setenta e seis (76), já que a maioria valeu por dois, festejava sua entrada nos estudos da arte, de forma a poder exercer na prática algo que sempre a cativou.  Como sempre, com muito dedicação, empenho e profundidade. Reforça o fato de que é impossível marcar o “tempo” em que seu interesse por esculturas começou, entendendo que este sempre a acompanhou, sempre esteve presente, como um pensamento que vai e vem. A idealização de alguma coisa a partir de alguma ideia a acompanha desde a infância. Por falar em infância, a arte fez parte de sua formação. Das manifestações artísticas, o ballet a acompanha desde cedo. O mundo das artes foi sobretudo, um livro de casa, uma lição aprendida sem espanto, ensinada naturalmente. Havia em sua casa, livros de arte, muitos de filosofia e teatro, e algumas peças, esculturas que Cristina amava. Uma delas, relata, era uma figura em mármore, representação das três graças. Em uma ocasião, ainda pequena, perguntou à sua mãe, o porque delas estarem nuas. “ Ela respondeu sem tomar fôlego: porque representam a verdade, e esta é nua. Não esqueci”, conta a artista.  Esta passagem me faz lembrar Ernst Gombrich, historiador da arte que dizia que “ era de um tempo em que a arte fazia parte da mobília mental das pessoas civilizadas”. De vez em quando encontramos alguns espécimes desta tribo. Nossa artista é um destes espécimes.

Cristina Almeida, Não era do lar, era do ler. Assim poderia escolher onde desejasse estar, porcelana esmaltada e ferro, 36 x 36 x 42 cm, 2017. Fonte: Acervo da artista.

“Cristina sempre estudou muito, sua dedicação aos estudos sempre se fez destaque e como não poderia deixar de ser, para alguém com seu perfil, considera importante uma formação acadêmica no mundo das artes…”

Ao tratar de uma possível ligação entre sua atividade anterior de médica anestesista com a escultura, esclarece que “na verdade, me faz poesia esculpir corpos. Assim, de alguma forma, sigo na mesma direção”. E são os corpos que ressaltam, os corpos que ardem em nossas pupilas, são os corpos que nos fazem querer mais. Na arte, o corpo é tema já há muito tempo. Das marcas de mãos em cavernas às tumbas de faraós, o corpo está presente em toda a história da arte e no entanto, sempre se renova. Há muitos artistas que usam o corpo para se expressar – seja como suporte para seu trabalho, como o fazem os pintores e escultores de corpos, seja como temática.

Cristina sempre estudou muito, sua dedicação aos estudos sempre se fez destaque e como não poderia deixar de ser, para alguém com seu perfil, considera importante uma formação acadêmica no mundo das artes. O contato com a academia abre universos de muitas formas de arte e refina o olhar do artista, bem como o constante contato com livros e informações, complementa. Outra questão que considera importante é ter contato com profissionais da área das artes. Em termos gerais, defende que a arte deva fazer parte do currículo das escolas, não como um “momento de relaxamento”, mas com a verdadeira interpretação de seu significado e menciona a importância da valorização do nosso patrimônio cultural, como parte da alma da cidade.

“ Essas cores que se podem vestir e que estão ao nosso alcance, devem ser divulgadas”, finaliza, com refinamento.

Escolheu a cerâmica, porque para além de gostar de ver as obras no espaço tridimensional, entende que o manuseio da argila é a base para quase todas as formas de escultura, seja ela finalizada em cerâmica, bronze ou mármore. “ É mais ou menos como o balllet clássico, que está para quase todas as formas de dança. É um alfabeto, uma apresentação de letras e de suas combinações”, diz a artista.

Esclarece sua predileção pela cerâmica, dizendo que o contato com materiais naturais faz parte desta forma de arte, significando quase como manuseio de raízes, de chão e que a plasticidade da argila faz com que seja possível criar formas com diferentes texturas, cores, tamanhos, resistências, que serão empregados na dependência da intenção do artista na elaboração da peça. Sobre o material, acrescenta que é igualmente rica a diversidade na dependência da origem dele na natureza e dos processos, agora já com certa industrialização, que transformam o barro em argila e que junto com esta “terra nas mãos”, ainda se adiciona o manuseio do fogo, igualmente um processo que remete às origens. O fogo é necessário para a fase de transformação da argila em cerâmica, e ainda posteriormente, no processo de esmaltação, opção do artista e do artesão para a finalização da peça. Por sua enorme diversidade, salienta-se também o fato de que a cerâmica permite um manuseio “doméstico”, sem necessidade de grandes estruturas, investimentos ou equipamentos sofisticados. Permite um trabalho individual, configurando um universo próprio para o artista: um mini cosmo, no qual só estão presentes o artista e seus sentimentos e intenções.

“Seu processo inicia na maioria das vezes a partir de uma experiência ou sentimento vivido. Mas por vezes o desejo de criação nasce de uma observação, de um rosto, de um gesto, de uma música, de um lugar…”

Cristina Almeida, Equilíbrio distante (A ponte), cerâmica esmaltada e ferro, 45 x 17 x 23 cm, 2017. Fonte: Acervo da artista.

A artista usa basicamente diferentes tipos de argilas e esmaltes. Em algumas peças associa o ferro, que resultam em formas quase brutas ou mais elaboradas. Como a cerâmica é um material frágil, sempre pensa no lado prático, de alguém que tem uma peça destas na sua casa, ou no seu ambiente de trabalho. Assim, procura associar alguma forma de proteção à peça, seja com um suporte firme ou mesmo fixando a peça ao ferro, por exemplo. Este senso prático demonstra igualmente uma preocupação com a ordem, mais que caos. Muitos materiais a fascinam, todos são potencialmente capazes de compor alguma peça, diz a artista, que exercita essa combinação em várias obras – argila, ferro, aço, madeira.

Seu processo inicia na maioria das vezes a partir de uma experiência ou sentimento vivido. Mas por vezes o desejo de criação nasce de uma observação, de um rosto, de um gesto, de uma música, de um lugar. Em suas próprias palavras, diz que “a ideia da criação é uma companheira constante, que gosta de silêncio e se transborda de sentimentos”. Ainda a falar de processos e especificamente sobre os nomes das obras, diz que no seu caso, o nome antecede a obra. Ele vem junto com a ideia. E como toda ideia, está presente em toda parte, em toda ocasião, em toda hora. Normalmente ele está ligado à alguma experiência vivida, alguma situação lembrada ou algum sentimento adormecido.

“ Mas ele só se completa quando a peça está terminada; mais ou menos assim…a peça tem essa cara mesmo…”, acrescenta. Outro fator importante são as cores, em que elege o azul, como a cor preferida em suas incursões escultóricas, frisando ser mais monocromática. Considera a navegação no universo da esmaltação, um assunto muito vasto e talvez por isso também não tenha se aventurado muito em outras cores. Por fim, falemos sobre o tamanho das peças, pois a artista diz que tem mostrado uma tendência a aumentar o tamanho das mesmas e sonhado com algumas grandes, em outros materiais. Todavia, ressalta, estes são projetos futuros, pois sempre há algumas barreiras de ordem prática. Cita, por exemplo, o tamanho do forno para queima de cerâmica que possui e mesmo daqueles de Florianópolis. “ Assim que, no momento, o céu não é o limite. É preciso ter os pés no chão”, complementa, não sem razão.

A maioria dos artistas, de uma forma ou outra, aprendem com outros artistas. Ao responder uma pergunta sobre artistas que a auxiliam a pensar sem seu próprio trabalho, disse que são muitos. Nominou como primeiro de sua lista, o italiano Michelangelo Buonarroti. Lembrou-se de uma frase de Giorgio Vasari, que é considerado o primeiro historiador da arte: “ Como escreveu Vasari, … ‘ todo artista tem uma dívida eterna com Michelangelo’. A análise de suas peças é uma constante aula de escultura. Eu diria que é a perfeição da expressão de uma ideia.  Também tenho grande admiração pela arte etrusca”. Em sua lista, cita também Auguste Rodin, em quem encontra o mesmo fascínio pelo movimento dos corpos. E ainda, Henry Moore, Victor Brecheret, Maria Martins, Alberto Giacometti, entre outros. Outra questão que considera importante é ter contato com profissionais da área das artes. Ao acompanhar seu processo de trabalho, me veio à mente uma frase dita por Elyseu Visconti:

O que falta às gerações de hoje é a angústia da humildade, da impotência diante dos problemas da pintura que parecem simples e são incrivelmente complexos. Satisfazem-se rapidamente com o que fazem e julgam-se mestres, na juventude, quando deviam convencer-se de que até a velhice, até a morte, serão humildes aprendizes (Visconti apud Pedrosa, 1950)[1].

Finalizo este texto com uma frase que tenta uma síntese inicial para falar de seu processo. Cristina transforma a percepção das formas do mundo, como as concebe, em uma peça palpável. Relata que cada um dos interlocutores que interage com a peça, a transporta para o seu imaginário, e nela imprime seus próprios sentimentos, criando vínculos.  Em arte, sabemos, vincular é o ato primordial de cada ser, e a cada ação, a magia, as artes, a memória e a ciência não são senão o poder de fazer vínculos. O que se destaca nesse processo é que em tão pouco tempo atuando nas artes, Cristina já compreendeu isso.

Cristina Almeida. The winding Road I, cerâmica esmaltada e ferro, 28 x 13 x 12 cm, 2017. Fonte: Acervo da artista.

[1] PEDROSA, Mário (1950) Visconti diante das modernas gerações. Jornal Correio da manhã, Rio de Janeiro, 1 jan. 1950.

 

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