n° 53 – Ano XVIII – Março de 2020 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

Artigo

A COVID-19, o negro e a mão

O vírus pode não reconhecer condição social, mas a falta de políticas públicas, de saneamento básico e a necropolítica – prática que há muito está em voga no país – nos dão o cenário de genocídio.

Alecsandra Matias de Oliveira – ABCA/São Paulo

Observou-se mal a vida se não tiver visto a mão que, de maneira especialmente cuidadosa – mata (Friedrich Nietzsche).

Moises Patrício, série Aceita?

Por três séculos, São Paulo não é mais do que um entreposto de mercadorias. Em meados do século XIX, a economia cafeeira motiva o êxodo para a área urbana. A cidade sente a presença de portugueses, espanhóis, judeus, negros, germânicos, belgas, franceses, árabes e japoneses. Já em 1954, a cidade cresce impulsionada pelo setor industrial e pelas correntes migratórias vinda de diversas regiões do país. São cearenses, baianos, mineiros, goianos, pernambucanos, entre outros, que compõem a mão-de-obra operária.

Hoje, aos nativos, imigrantes e migrantes mesclam-se os refugiados.  Nessa cidade transitiva e orientada pelo poder econômico que influi na ocupação do território, à população pobre restam os bairros periféricos e as zonas metropolitanas. Quando o novo coronavírus (SARS-Cov-2) aporta oficialmente, em 26 de fevereiro de 2020, em terras brasileiras, a doença chega por intermédio da classe média paulistana – um homem teria viajado para o norte da Itália e entrado em contato com o vírus. Não demora muito para que a COVID-19 se espalhe pelos bairros periféricos e pelas comunidades – a cidade se transforma no epicentro da pandemia. São mais de 5.600 mortes!

O vírus pode não reconhecer condição social, mas a falta de políticas públicas, de saneamento básico e a necropolítica – prática que há muito está em voga no país – nos dão o cenário de genocídio. A propagação da pandemia coloca em evidência as dificuldades vividas pelos “invisíveis” que a tradição branca e patriarcal adotada pelo Estado sempre ignorou: a população de rua, as mães solos, os desempregados, os trabalhadores informais, os indígenas, os idosos e a população negra historicamente são as principais vítimas das desigualdades sociais e, simultaneamente, os potenciais mortos pela pandemia – “a mão que, de maneira especialmente cuidadosa – mata” surge com mais peso nesse contexto, desumanizando as pessoas e as transformando em números.

Porém, para todo o processo de destruição e de coisificação de pessoas, tem-se a resistência. Os resistentes partem das mais diversas áreas: profissionais de saúde, professores, jornalistas, artistas e intelectuais preocupados com equidade e da própria população periférica. A arte e a cultura têm sido alicerces importantes para esses tempos de isolamento social. Merecem destaques as ações de conscientização, promovidas por artistas, assim como os leilões de obras de arte para o socorro imediato das emergências ocasionadas pela pandemia.

“Entre esses artistas visuais atentos à “desumanização do outro”, está Moises Patrício (São Paulo, 1984). Seu exercício artístico está voltado à fotografia, ao vídeo, às performances, rituais e instalações que evocam a cultura afro-brasileira…”

Sobre o movimento de conscientização da arte, aqui se enfatiza o modus operanti de uma geração de artistas afrodescendentes que se torna “cronistas de nosso tempo”. Eles, em geral, têm educação superior (são mestres, doutores, pesquisadores, curadores e educadores). Pensam as condições da população negra a partir de sua ancestralidade, questionando a meritocracia, os privilégios dos brancos e o racismo nosso de cada dia. São donos de uma produção visual contemporânea vigorosa – fruto de pesquisa, extenso repertório e temas perturbadores.

Moises Patrício, série Aceita?

Entre esses artistas visuais atentos à “desumanização do outro”, está Moises Patrício (São Paulo, 1984). Seu exercício artístico está voltado à fotografia, ao vídeo, às performances, rituais e instalações que evocam a cultura afro-brasileira. Em algumas entrevistas, o artista nos fala sobre o uso do seu corpo como “corpo político” e sobre as incursões deste corpo pela cidade – sabemos da insegurança de um corpo negro em alguns territórios de São Paulo; conhecemos as barreiras invisíveis postas desde o período colonial. Os escritos de Abdias do Nascimento há décadas nos alertam para o genocídio da população masculina jovem negra – infelizmente, os meninos mortos, como João Pedro, nos lembram de que este fato é a realidade nacional.

A série Aceita? é um diário fotográfico, realizado desde 2014, via Instagram. São mais de 1000 imagens da palma da mão esquerda de Patrício. Ela se estende e oferece os mais diversos objetos encontrados nas ruas de São Paulo – o seu território de conflito; em algumas fotoperformances surgem palavras escritas – a cada dia uma imagem-enigma aos espectadores/seguidores. Em todas, está o gesto de oferenda (essencial no candomblé).

Nas fotoperformances, a mão que surge já não é a invisível que mata; ao contrário, ela oferece. Mas, é aquela do homem negro que, por reminiscência do passado escravocrata, é vista como mão-de-obra servil. Aqui, o paradoxo: pode-se pensar na aceitação do corpo negro pela parte ou ainda inquietar-se, justamente, pela ausência do todo – coloquemos que esse todo ainda é marginalizado. Essa mão, continuamente, expõe a intolerância étnica e religiosa. E cotidianamente questiona: “Aceita?”.

Sem respostas definitivas, o artista nos faz revisar posições individuais e coletivas: detêm-nos em pautas político-sociais; traz-nos imagens reflexivas; nos inquieta com seus fundos, objetos simbólicos e suas palavras-sínteses. Nunca é uma leitura fácil, às vezes, a primeira leitura escapa e segue além. A questão “Aceita?” nunca é um pacto fechado e irrestrito entre artista e público. E sempre sugere ativismo – ação que hoje é “questão de vida e morte” à população negra e periférica de São Paulo.

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