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Exposição

Corina Ishikura: uma arte que flui em cores e infinitas paisagens

Amarelo, azul, vermelho, tons vibrantes que a artista integra no cotidiano da cidade com uma seleção de 40 obras.

Leila Kiyomura – ABCA / São Paulo

Sem Titulo, 2016. Cores vibrantes na fachada da Galeria 22, na avenida Juscelino Kubistchek. Foto: Beth Barone.

Na mostra Caleidoscópio, a paulistana Corina Ishikura imprime a sua arte na cidade. Quem passar pela avenida Juscelino Kubistchek 417, a partir do próximo dia 24 de outubro, verá, na fachada da Galeria 22, um painel de cores e infinitas paisagens que pretende se integrar no movimento de São Paulo. Amarelo, azul, vermelho, tons vibrantes que a artista traz no cotidiano de quem estiver caminhando ou de carro no trânsito da cidade.

Em 40 obras produzidas nos últimos três anos, é possível observar imagens que se transformam com a luz e o tempo do olhar.  A artista oferece ao espectador a sensação de estar contemplando um caleidoscópio. Se observar do alto, da esquerda, direita, tem as paisagens que o seu instante sensorial pode propiciar.

Na aparente tranquilidade do pincel resvalando a tela, Corina revela um caminho que sonhou trilhar há muito tempo. Começou a pintar ainda menina. Mas, optou por se dedicar à família, acompanhar, junto do marido Edson, a infância e adolescência dos filhos, Vitor e Beatriz. Trabalhou até 2009 na área administrativa e quando se aposentou, começou a estudar, pesquisar as formas e técnicas, buscou o pensamento em forma de arte.

As paisagens começaram a emergir como se estivessem mapeando territórios. Suas telas revelam a história dos caminhos que foi resgatando do horizonte entre as aulas de desenho e escultura do mestre e artista Elias Muradi.

“São fragmentos que revelam a memória da artista. As tintas que resvalam a tela, embora aparentemente fluidas, resultam da inquietação de um longo processo de busca…”

No início, a artista pintou espaços inacessíveis de um tempo a ser descoberto. São lugares silenciosos que fogem à apreensão, como reflete o filósofo alemão Walter Benjamin ao analisar, no Movimento Surrealista, a expressão dos sonhos, dos sentidos e da percepção na arte. No entanto, reconhece a importância da imagem do passado como um valor real estético que pode dialogar com o presente do espectador. Ponderou: “A verdadeira imagem do passado perpassa, veloz. O passado só se deixa fixar, como imagem que relampeja irreversivelmente, no momento em que é reconhecido”.

Os fragmentos da memória da artista vão se revelando na superposição de camadas de cores. As tintas que resvalam a tela, embora aparentemente fluidas, resultam da inquietação de um longo processo de busca. Corina Ishikura conta que entrou no mundo das artes visuais com um olhar já maduro. “Na minha arte está todo o repertório de vivências desde a minha infância”, assinala. “São lembranças que vêm pulsando desde 2010, momento em que decidi seguir os passos de meu pai, Ulisses da Conceição, escultor em madeira. Lembro também de minha avó materna, Taki Miyamoto, que me surpreendia com os seus desenhos de mangá”.

Sem título, 2017-2018. Foto: Beth Barone.

“Corina tenta captar, na pintura, a síntese do instante como o breve som de uma rã saltando na lagoa…”

Em 2015 e 2016, Corina buscou a materialidade da superfície pictórica, trabalhando com os pigmentos da cera de abelha. “Meu processo de criação parte da observação e contemplação de lugares, seres, formas, texturas, movimentos, cores, tudo que nos cerca”, explica Corina. “Entendo que a percepção vai além dos cinco sentidos, envolve o interno e o externo. Do que fica salvo nesse espaço de escolhas tento colocar no papel ao meu modo, e essa materialização pode ocorrer ou não, pode seguir seu caminho, ganhar força e se materializar através da encáustica fria, que por vez também pode oferecer mais desdobramentos em infinitas possibilidades”.

Corina viajou para o Japão em 2017 para uma residência cultural programada pela Fundação Mokiti Okada, nas cidades japonesas de Hakone, Atami e Quioto. Uma vivência que trouxe, em 2018, um novo horizonte para a sua pintura. As tramas da encáustica, a vibração das cores fortes se dilui em espaços vazios. Elas existem nas telas, mas foram cobertas por camadas de tinta. Aparecem como sugestão de paisagens para serem descobertas. Ressurgem como se fossem recifes de coral entre as ondas do mar.

Hoje, com a orientação do mestre e pintor Kazuo Wakabayashi, a arte de Corina tem o desafio do gesto silencioso na pintura. Na travessia da arte, aos 54 anos, Corina está descobrindo a síntese da cor e da forma. Em sua ancestralidade oriental, consegue captar, na pintura, a síntese do instante do haikai. Tal como o breve som de uma rã saltando na lagoa como sugere o haikai milenar de Matsuo Bashô.

Sem título, 2017-2018. Foto: Beth Barone.

Velho tanque.
Uma rã mergulha.
Barulho da água

(Tradução Cecília Meireles, 1974)

  

Um invisível que o espectador atento irá perceber…

Caleidoscópio, exposição de Corina Ishikura.  Curadoria de Leila Kiyomura, crítica de arte do Jornal da Universidade de São Paulo e das associações Brasileira e Internacional de Crítica de Arte. Está, até 9 de novembro, na Galeria 22, na Juscelino Kubitschek, 417, no Itaim, de 2ª à 6ª feira das 10h às 17h ou com hora marcada em horários diferenciados. Maiores informações pelo fone (11) 3742-0294.

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