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Artigo

Casa Roberto Marinho: O Solar do Cosme Velho e sua vocação cultural

A casa possui mais de 1.200 m² de área expositiva. Ela sofreu poucas modificações, apenas as necessárias para a adaptação ao novo programa.

Angela Ancora da Luz – ABCA / Rio de Janeiro

José Pancetti, Boneco, 1939. Óleo s/ tela. 46,5 x 39 cm.

O Instituto Casa Roberto Marinho é o mais novo espaço cultural no Rio de Janeiro. Em funcionamento desde 28 de abril do ano em curso, ele vem dar um novo fôlego a uma cidade que carece de instituições que possam oferecer ao público o contato com a arte. O novo centro cultural está localizado no Cosme Velho, bairro nobre da cidade, funcionando no local em que residiu Roberto Marinho por mais de 60 anos.

Como todos sabem o jornalista e proprietário das Organizações Globo foi um grande colecionador. Durante sua vida adquiriu obras de artistas representativos de nossa arte, bem como de nomes internacionais. São 1.473 obras cadastradas, peças que pertencem ao acervo da família Marinho.

No solar ficavam algumas destas obras, sendo que as demais foram para a reserva técnica, localizada em prédio das Organizações Globo. Como sempre acontece aos colecionadores, em determinado momento, os espaços nas paredes dos cômodos de suas residências atingem a capacidade máxima de exporem as peças colecionadas, porém, para o colecionador, o desejo de possuir as obras extrapola o limite nas superfícies possíveis das paredes. É neste ponto que surge o grande colecionador e suas reservas técnicas. Não há mais limite para possuir obras a não ser o que o valor da obra impõe à obra de valor…

Roberto Marinho foi um de nossos grandes colecionadores que legou a seus filhos não apenas seus empreendimentos, mas também o desejo de que suas coleções se tornassem acessíveis a um público carente de oportunidades culturais.

O arquiteto Lauro Cavalcanti está à frente deste novo centro cultural. Com sua larga experiência e grande sensibilidade ele relatou aos confrades da Academia Brasileira de Arte os percursos da transformação, a qualidade da coleção, os projetos de tornar a instituição um espaço vivo de discussão, um centro de referência do modernismo e da arte brasileira. Isto se deu na visita que fizemos a seu convite, no último dia 6 de junho, quando pudemos obter muitas informações e conhecer o espaço.

“A forma original da construção de 1939, inspirada no Solar Megaípe, uma casa de engenho do século XVII em Jaboatão dos Guararapes…”

Tarsila do Amaral, O touro. 1925. Óleo s/tela. 50 x 65 cm.

A casa possui mais de 1.200 m² de área expositiva. Ela sofreu poucas modificações, apenas as necessárias para a adaptação ao novo programa. O projeto ficou a cargo do arquiteto Glauco Campello, o mesmo que assinou a reforma do Paço Imperial. A forma original da construção de 1939, inspirada no Solar Megaípe, uma casa de engenho do século XVII em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, serviu de referência para o projeto da casa de Roberto Marinho no Cosme Velho.

Os flamingos doados por Fidel Castro a Roberto Marinho, e que faziam o encanto de todos, moradores e visitantes, se multiplicaram. Com o início da obra de adaptação da casa eles foram levados para um sítio devidamente credenciados pelo IBAMA, pois seria impossível mantê-los andando livremente pelo terreno de um centro cultural. O lago recebeu carpas e preservou o equilíbrio entre vida e arte. Isto porque, além dos jardins, originalmente, projetados por Burle Marx, algumas esculturas referenciais de nossa arte moderna trocam olhares, impassivelmente, com os novos freqüentadores, diferentes, por certo, dos que fizeram a alegria de tantos, nas noites de concertos, apresentações de teatro, passeios pela Floresta da Tijuca que se prolonga até aos jardins da casa. São obras de Maria Martins, Bruno Giorgi, Ascânio MMM, Beth Jobim, Carlos Vergara, Raul Mourão e há, até, uma obra do próprio Roberto Marinho, sem qualquer alarde ou referência, aliás como fica bem claro no espírito que rege o Instituto. Não há referências a Roberto Marinho e sua família, apesar de que todos os custos da reforma e da adaptação do novo espaço cultural tenham sido assumidos e honrados pela família, que não se utilizou de leis de incentivo para avançar no projeto.

Sob a orientação de Lauro Cavalcanti foram criadas, duas salas de projetos de arte e educação, uma reserva técnica, uma sala de projeção com 34 lugares e uma cafeteria entre outras benfeitorias. Interessante é que o Instituto preserva o nome de seu mecenas, mas abstrai suas digitais na casa. Não há retratos, nem objetos pessoais, nem lembranças materiais. Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto Marinho, filhos do proprietário do grupo Globo, buscaram encontrar outra presença do pai, a partir de suas coleções e dos conceitos norteadores de suas escolhas, mas, sobretudo, de sua vontade de incentivar a cultura brasileira apoiando os nossos artistas.

“Para a inauguração da Casa Roberto Marinho, Lauro Cavalcanti optou por destacar esta característica da coleção: a modernidade…”

Portinari, Brodowski, 1942. Óleo s/tela. 46 x 56 cm.

A coleção de arte da família de Roberto Marinho foi organizada ao longo de sessenta anos. Entre as décadas de 1920 e 1980. A ênfase ao modernismo brasileiro e à arte contemporânea faz deste acervo uma referência para os pesquisadores e uma grande oportunidade para os apreciadores.

Roberto Marinho as adquiriu diretamente dos artistas. Não foi movido pelo investimento financeiro, mas prioritariamente pela sua sensibilidade ou pelo desejo de apoiar os que ele considerava promissores. Freqüentava os ateliês dos artistas, comprava pigmentos para Guignard, acompanhava o processo criativo de Portinari e divulgava Ismael e Pancetti.

Para a inauguração da Casa Roberto Marinho, Lauro Cavalcanti optou por destacar esta característica da coleção: a modernidade. Como acontece com os acervos de colecionadores particulares, as obras ficam adormecidas no seio das famílias e são apreciadas por um círculo restrito de familiares e amigos. O grande público as desconhece. No momento em que este espaço é revitalizado para se tornar público, as obras atravessam a fronteira do desconhecido e se oferecem a nós com toda a sua força. Lauro Cavalcanti selecionou 10 modernos, e assim intitulou a primeira exposição: “Dez modernos: destaques da coleção”.

Tarsila do Amaral, Pancetti, Di Cavalcanti, Guignard, Djanira, Milton Dacosta, Burle Marx, Portinari, Djanira e Lasar Segall. São 134 obras no total. Aponto “entre os destaques” as obras de Ismael Nery. Há desenhos preciosos, não só pela sensibilidade que já conhecemos, mas pela assepsia da obra com economia de linhas, mas riqueza de mensagens. Além disso, as aquarelas, os nanquins e os guaches conjugam a leveza da técnica com a força da alma humana, do erotismo em que o carnal se reveste de espiritualidade e nos atinge sensivelmente.

Ismael Nery, Pecado Original, 1932. Crayon, aquarela/papel. 26,5 x 17,5 cm.

Em Tarsila encontramos, entre outras obras, “O touro”. Observa-se que nesta pintura está a essência da pintora na sua fase mais significativa, mas há muito mais. O “Boneco” de Pancetti, presente recebido na ocasião de seu noivado com a primeira esposa e que, segundo soubemos era uma de suas obras prediletas Ela lhe propiciava uma viagem em seu interior até a infância. Tocava em seus afetos e lembranças. Mas há também várias marinhas, gênero que notabilizou Pancetti.

De Portinari há retratos, cenas de Brodowski, um espantalho e vários óleos característicos, mas gostaria de ressaltar a “Floresta” com uma técnica preciosa na pintura dos pelos do ‘coelhinho’.  Guignard está representado com alguns desenhos e várias pinturas: dos casarios aos cenários de São João com balões e igrejas levitando no céu. O autorretrato com a medalha da Inconfidência revela a expressão daquele que se alinha com os ideais mais elevados da liberdade. Em Djanira está a origem, a força natural dos simples, a verdade dos trabalhadores.

Alberto da Veiga Guignard, Sem título, 1955. Óleo s/madeira. 38,5 x 32 cm.

“Burle Marx está representado com obras que nos indicam sua capacidade de concisão da forma e sua visão da natureza…”

A coleção nos oferece um panorama da arte moderna brasileira com ênfase entre 1930 e 1950. Há peças de Di Cavalcanti, para quem a arte deveria revelar nossa cultura, falar de quem nós somos e há também os óleos sobre tela de Milton Dacosta com a síntese da figura humana e a preocupação compositiva em que a redução possibilita a multiplicação das soluções que projetamos na pintura.

Burle Marx está representado com obras que nos indicam sua capacidade de concisão da forma e sua visão da natureza, mesmo a partir de um vaso com plantas. Mas é em Segall que nos impactamos com Kaddish, obra de 1917-1918, uma das derradeiras aquisições de Roberto Marinho, mas que reforça o valor artístico da coleção e o acervo do colecionador.

Roberto Burle Marx, Os músicos, 1943. Óleo s/tela. 60×75 cm.

Estas obras estão expostas no segundo andar, numa seqüência de cômodos que se interligam em continuidade. Na parede da escada que nos leva ao térreo, há uma escultura de Krajsberg, fazendo a ligação entre o moderno e o contemporâneo.

No térreo estão as obras contemporâneas. Uma exposição com dez artistas que foram convidados para que se estabelecesse o diálogo do moderno com o contemporâneo a partir de suas criações. Estão na mostra: Anna Bella Geiger, Carlos Vergara, Daniel Senise, José Bechara, Lena Bergstein, Luiz Áquila, Luiz Zerbini, Malu Fatorelli, Roberto Magalhães e Wanda Pimentel.

A idéia do diretor da Casa Roberto Marinho é montar exposições com o acervo, a cada meio ano, aproximadamente, de modo a oferecer ao público a possibilidade de admirar a coleção fazendo circular as obras da reserva técnica. Além disso, projeta abrigar exposições temporárias bem como oferecer cursos e oficinas, atingindo desta forma o ideal do proprietário e seus herdeiros: legar à cidade um novo centro cultural com as obras que marcaram a vida do colecionador quer pelos afetos, gostos, incentivos aos artistas ou, simplesmente, pela sua própria história, numa cronologia de vida pontuada pelas aquisições das obras.

O Instituto Casa Roberto Marinho já está incluído no roteiro cultural da Cidade do Rio de Janeiro, tornaando-se visita obrigatória a todos os que por aqui passarem. 

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