Artigo

Casa das Onze Janelas: um espaço de arte moderna e contemporânea na Amazônia Paraense

Este Espaço Cultural é um centro de resistência da classe artística em Belém, testemunha inquestionável de transformações históricas e que estão na base da constituição de uma das maiores capitais da Amazônia

John Fletcher – ABCA/Pará

O Espaço Cultural Casa das Onze Janelas foi inaugurado em sua perspectiva museal no dia 25 de dezembro 2002. Este é pertencente a um núcleo colonial português[1], assentado em um território originário Tupinambá, com vezes para a fundação da cidade de Belém. Seu prédio, construído no século XVIII, a mando do senhor de engenho Domingos da Costa Bacelar, foi confiscado em 1768 pelo então Governador da Província, Ataíde Teive, antes mesmo de sua conclusão, em virtude das condições deploráveis das improvisadas instalações para abrigar os doentes do Forte do Presépio, localizado ao seu lado. Nomeado, naquelas circunstâncias, de Hospital Real Militar, sofreu adaptações no seu projeto pelo arquiteto bolonhês Antonio Giuseppe Landi, com seu característico estilo neoclássico pombalino. Nesta mesma edificação, décadas depois, funcionou um dos centros de prisão e tortura da ditadura civil-militar brasileira, a 5º Companhia de Guardas, permanecendo sob gestão do Exército Brasileiro até 2000 (CHAVES FERNANDES, 2006; BRITTO, 2006).

Durante o segundo semestre de 2019, efetivaram-se novas ações voltadas para a reestrutura deste espaço de liberdade por reformulação, uma vez que este equipamento se tornou um dos principais polos de extroversão das artes visuais na capital, com uma agenda voltada para mostras coletivas e individuais, sejam elas por meio de editais, parcerias privadas ou públicas. No ano 2018, vale pôr em perspectiva, o supracitado local permaneceu fechado, portanto necessitado de restauros em suas instalações elétricas, atualização de seu espaço físico e de seu sistema de combate a incêndios, mesmo que estudos prévios atestassem a eficácia da conservação de seu acervo (CASTRO & COSTA, 2018). Esta demanda preventiva ganhou força no decurso de diversas tensões entre agentes do campo artístico de Belém e apoiadores com gestores do Governo em exercício, já que um projeto de sucateamento e desativação da Casa para a implementação de um Polo de Gastronomia Regional se encontrava em progresso. Devemos acrescentar, ainda, que este projeto “empreendedor” e gastronômico de culinária paraense seria encabeçado por uma equipe do sudeste do país, ou seja, sem agenciamento dos trabalhadores locais (ver mais em SILVA & PINTO, 2016).

Com os contínuos embates para a manutenção do Espaço Cultural Casa das Onze Janelas como um espaço para as artes visuais, as medidas de rearticulação do mesmo foram implementadas somente a partir da nova gestão da Secretaria de Cultura do Pará (SECULT-PA), a cargo da Secretária Úrsula Vidal, em diálogo com o novo diretor do Sistema Integrado de Museus e Memoriais (SIM/ SECULT-PA), Armando Sobral, juntamente do Coordenador de Documentação e Pesquisa do SIM, Emanoel de Oliveira Junior, do Coordenador de Curadoria e Montagem do SIM, Nando Lima, da Coordenadora de Conservação e Restauro do SIM, Renata Maués, e da atual diretora do próprio espaço cultural em questão, Sanchris Santos.

No dia 09 de outubro de 2019, depois de uma série de medidas com a atual equipe em diálogo com a sociedade civil organizada, quatro exposições amarraram este novo capítulo para o equipamento e deram continuidade à manutenção deste espaço das e para as artes: Percursos na Arte Brasileira, Acervo do Estado, sob curadoria de Armando Sobral, apresentando o novo layout para a Sala Ruy Meira; Indizível, sob curadoria de Nando Lima, no Laboratório das Artes, a partir de um processo de imersão e diálogo do curador com o escritor paraense Vicente Cecim; Encontro das Águas, Luiz Braga e Miguel Chikaoka, sob curadoria de Armando Sobral, em parceria com o escritor João de Jesus Paes Loureiro, ocupação da Sala Gratuliano Bibas; e Dilemas 2019, sob minha curadoria, curadoria adjunta de Camila Freire (PPGArtes/ UFPA), para a Sala Valdir Sarubbi.

O texto a seguir pretende, desse modo, enfatizar a exposição Dilemas 2019, já que esta partiu de uma pesquisa minha no próprio Acervo do SIM, o qual está localizado no Museu do Estado do Pará (MEP). Por conseguinte, busca destacar determinados resumos metodológicos e enredos visuais, já que algumas das obras de seu acervo possuem alta carga discursiva para o contexto de crise do presente. O Espaço Cultural Casa das Onze Janelas é um centro de resistência da classe artística em Belém, testemunha inquestionável de transformações históricas e que estão na base da constituição de uma das maiores capitais da Amazônia.

Dilemas 2019

É preciso, eu ousaria dizer, um estranhamento a mais para se confirmar a paradoxal fecundidade do anacronismo. Para se chegar aos múltiplos tempos estratificados, às sobrevivências, às longas durações do mais-que-passado mnésico, é preciso o mais-que-presente de um ato reminiscente: um choque, um rasgar de véu, uma irrupção ou aparição do tempo, tudo o que Proust ou Walter Benjamin disseram tão bem sobre a “memória involuntária” (DIDI-HUBERMAN, 2019: 26).

A exposição Dilemas 2019 apresentou um número de 47 artistas no total, sendo este número composto por 23 paraenses, 04 cujas produções e carreiras se desenvolveram no Estado, mais 20 nomes de outras origens, não somente brasileiras. Este grupo de projetos visuais foi disposto na Sala Valdir Sarubbi, uma área total de 206,5 m2, a qual, por sua vez, pôde ser dividida em cinco segmentos correlacionados: as Contradições do Presente; a História e a Memória; Florestas em Chamas; Não às Ganâncias; e O Sagrado Feminino (ver Tabela 01 ao final).

Duas perspectivas teóricas foram desenvolvidas para o desenho curatorial, uma filosófica e outra histórico-filosófica, sendo a filosófica baseada em um encontro entre Albert Camus e Walter Benjamin, ao passo que a histórico-filosófica foi baseada em Georges Didi-Huberman e Walter Benjamin. A sala de entrada, nomeada as Contradições do Presente, trouxe logo como subtexto alguns aspectos constituintes do absurdo, elo conceitual base: o absurdo legível na medida em que não é admitido, com a ausência total de esperança (no sentido oposto ao do desespero), a recusa contínua (não equivalente a renúncia) e a insatisfação consciente (não equivalente a inquietude juvenil) (CAMUS, 2019).

A pintura de Éder Oliveira, sem título, localizada ao lado dos múltiplos Zero Dólar e Zero Cruzeiro, de Cildo Meireles (Figura 01), é passível de ser vislumbrada como um possível eco deste rastro proposto.

Figura 01. Cildo Meireles e Éder Oliveira, segmento as Contradições do Presente, Espaço Cultural Casa das Onze Janelas. Fonte: arquivo do autor.

Éder Oliveira já evidenciou um amplo debate pela sua pesquisa-denúncia sobre a faceta racista-estrutural e incriminalizadora de corpos não hegemônicos nas páginas policiais dos jornais de grande circulação em Belém (ver mais em FLETCHER & ALBÁN, 2015). Sua operação para revelar uma materialização da subalternização étnica traz o recurso da apropriação de fotografias destas ditas páginas policiais, com certa recriação pictórica, todavia não totalmente alinhada a uma tradição de retratos da História da Arte, já que a sua recriação nos desloca dos sentidos usuais de lugares e tempos, revelando outros, alegóricos (CHAVES, 2003).

Georges Didi-Huberman (2019) pode conversar com esta nuance discursiva, ao recolocar que uma imagem, por mais’ antiga ou contemporânea que seja, nunca cessa de reconfigurar o presente e o passado, respectivamente. Desse modo, podemos nos atentar ao fato de que as imagens de Éder Oliveira trazem corpos que evidenciam situação de vulnerabilidade, coação e documentação, portanto diferentes de uma pose mediada por distinto enredo psicológico do retrato tradicional.

A carga expressiva da imagem em questão de Éder pode ajudar na compreensão de uma condição peculiar dos bastidores de produções de tantas outras imagens, imagens as quais não sucumbem à etiquetação, pura e simples. Com um elo operacional ligado aos Desastres laranja, de Andy Warhol, a produção deste artista e a consciência sobre seu corpo imputam uma insatisfação consciente e poética quanto às matrizes dominantes deste contexto distópico vivido.

Uma segunda imagem, já do artista goiano Siron Franco, sem título, de 1978, período equivalente à ditadura civil-militar no Brasil, é aqui tomada como outra disparadora quanto ao seu caráter político e atemporal, mesmo com a discriminação do ano de sua produção. Sua ficção mais real que a “realidade” pôde servir de base também para a organização de nuances anacrônicas pretendidas pela curadoria (Figura 02).

Figura 02. Acrílica s/ tela, s/ título, Siron Franco, segmento Florestas em Chamas. Fonte: arquivo do autor.

Siron Franco foi contemplado com o Prêmio Viagem ao Exterior, em 1975, na esteira do Salão Nacional de Artes Plásticas (SNAP). Conforme relatado (Comunicação Pessoal), esta pintura, a qual vem com as inscrições Madrid 1978 na sua área posterior, foi feita também com referências ao sanguinário ditador espanhol Francisco Franco (1892-1975). Sua chegada ao Espaço Cultural Casa das Onze Janelas se deu pela doação da Coleção Funarte, que se encontrava no Banco Central, através de uma ação entre o ex-Secretário de Cultura, Paulo Chaves Fernandes, em parceria com o então presidente da Funarte, Márcio Souza. As obras da Coleção Funarte se encontravam em estágio de deterioração, já que não havia reserva técnica, nem espaço adequado para elas na Fundação, medida esta interrompida pelo trabalho de restauro e conservação da equipe primeira do SIM (CHAVES FERNANDES, 2006; BRITTO & MOKARZEL, 2006).

Destaco, para além desses dados memoriais, que a faixa presidencial na figura intertextual baconiana pareceu não somente tensionar distâncias temporais. Alguns dias após a abertura da exposição no dia 09 de outubro, já na manhã do dia 30 de outubro de 2019, sua presença incômoda se reatualizou, dia este em que muitos foram surpreendidos por novas denúncias e farsas envolvendo o Governo federal. Traria a imagem de Siron um indicativo, em pleno 2019, de uma sobrevivência, das longas durações do mais-que-passado mnésico? Ou traria ela uma suspensão do caráter temporal, um sintoma para a emergência de uma nova imagem, um novo pesadelo?

O Acervo do SIM/ SECULT-PA, com seu significativo volume de obras advindas de doação particulares e públicas, está dividido em distintas coleções e linhas temporais. Desse modo, para termos de apresentar um último fragmento de seu corpo narrativo, tomo por apropriado destacar a presença de mais duas obras, ambas de artistas paraenses, legíveis à luz dos incêndios e genocídios que tem consumido a Amazônia (Figura 03 A e B; Figura 04).

Figura 03 A e B. Frames do vídeo Vermelho, 1’40”, de Melissa Barbery, segmento História e Memória. Fonte: arquivo da artista.

A primeira imagem se trata da reapresentação do videoarte Vermelho, da artista visual Melissa Barbery, pequeno réquiem polissêmico para se refletir, analogamente, sobre as chacinas sistemáticas e contínuas de lideranças indígenas, quilombolas e de trabalhadores do campo. Os insetos no plano sequência, protagonistas desta expressividade abstrata digital, puderam evocar uma posição de quase-pixel, máculas pictorializantes, movimentos de agonia seguidos pelo som hospitalar que tratou de preencher a sala de exposição.

Figura 04. Cerco a Memória, de Alexandre Sequeira, segmento Florestas em Chamas. Fonte: arquivo do artista.

A segunda imagem, retrato-reminiscência[2] sobre a barbárie, é do artista Alexandre Sequeira, intitulada Cerco à Memória. Também possível de ser lida por uma perplexidade fotográfica e desencantada, com seus indícios de um futuro possível, esta imagem se mostrou como ouvinte da narração quase insuportável do outro anônimo, ou seja, dos próprios grupos vítimas de crimes territoriais. Diante destes anônimos enxergamos a clara materialização de um período em que os direitos se tornaram, muitas vezes, conveniências ficcionais, principalmente para aqueles que desejam exercer seus poderes sobre comunidades e pessoas não hegemônicas (GAGNEBIN, 2001; CHAVES, 2003; BENJAMIN, 2011a).

Poderiam as imagens de Barbery e de Sequeira serem lidas como uma faceta que apresenta um tempo saturado de agoras, já que o tempo das imagens não é domesticável? Ou seriam seus relatos, cada um dentro de sua peculiaridade, o exercício do direito de exigir mudanças, mudanças essas permitidas pelo fascismo somente na expressividade, conservando, contudo, a não alteração dessas relações (BENJAMIN, 2011b)?

Seja como for, o desafio lançado pelas proposições dos artistas em questão é diálogo direto com Walter Benjamin e seus interlocutores, diálogo este com a possibilidade de certo retorno de um quase tangível, adaptado aos formatos dos novos tempos e meios de expressão: o rastro, presença de uma ausência e ausência de uma presença, variável histórica que evidencia estruturas de contradição do tecido social (ver também SEDLMAYER & GINZBURG, 2012).

Algumas Considerações

O Absurdo é o pecado sem Deus (Albert Camus)

O Espaço Cultural Casa das Onze Janelas é um equipamento cuja história reflete as contradições e barbáries constituintes da narrativa identitária do Brasil. Antigo centro de tortura durante a ditadura civil-militar brasileira, tornou-se espaço de experimentação, liberdade e luta de uma classe artística, intelectual e civil, não somente belenense.

A primeira gestão para sua implementação, composta pelo Secretário de Cultura, Paulo Chaves Fernandes, pela diretora do Sistema Integrado de Museus e Memoriais (SIM), Rosangela Britto, e pela Diretora do próprio Espaço Cultural, Marisa Mokarzel, desempenhou uma articulação de caráter fundante para Belém, narrativa esta retomada pela atual gestão da cultura, a qual buscou novas premissas para atualizar a dimensão artística e histórica deste espaço público, com vistas a educação não-formal.

As quatro exposições desenvolvidas no processo de reabertura da Casa no segundo semestre de 2019 vieram na continuidade de uma demanda para que este equipamento cultural mantivesse sua proposta, lançada na sua criação em 2002, em oposição a implementação de um Polo de Gastronomia Regional, que se encontrava em progresso. Esta luta pela manutenção da Casa a entendeu e a entende como um dos elos artísticos na cidade de Belém para o desenvolvimento de uma sociedade mais crítica.

Tomamos a existência deste espaço cultural como mais um dos epicentros a ilustrar uma postura de revolta coerente, a partir do mote dos pressupostos do absurdo filosófico. A revolta, o confronto que tem como princípio a exigência de uma transparência impossível na prática, admite sim a certeza de um destino esmagador que nos acompanha, todavia, sem a suposta resignação que vem em seu lastro. Em seu lugar, retira a resignação pela liberdade e pelo direito de exercer um papel interatuante em uma sociedade amazônica (CAMUS, 2019).

Tabela de Artistas/ obras Dilemas 2019
Artista Obras Ano UF
Acácio Sobral Matuto I, II, III e IV 1994 PA
Adriana Varejão O Universo ou o Uno em Diverso 1985 RJ
Alberto Bitar Bank Blocks 2012-2013 PA
Alexandre Sequeira Cerco à Memória 2008 PA
Andréa Feijó De cabeça virada I, II e Sem pé nem cabeça 2001 PA
Anna Bella Geiger Orbis Discripto n.º 8 1995 RJ
Antonio Dias s/ título s.d. PB
Antonio Saggese s/ título, Série Hiléia (06 imagens) 2016 SP
Armando Queiroz Jesus/ leite 1999 PA
Arthur Leandro Não Negativo 2002 PA
Beatriz Milhazes Teu sangue se transformará em flores 1984 RJ
Berna Reale O escuro das coisas IV, V e VI 2001 PA
Cildo Meireles Zero Cruzeiro e Zero Dólar 1977-1978  e 1978-1984 RJ
Claudia Andujar Desabamento do Céu/ O fim do Mundo 1976 Suíça
Claudia Leão O Rosto e os Outros 1995 PA
Daniel F Chacina IA e IB 1987
Dina Oliveira Juncos 2002 PA
Éder Oliveira s/ título 2017 PA
Eliane Prolik As cinco graças s.d. PR
Emanuel Franco Olho Gordo, Berro d’água e Cobra d’água 2001 PA
Georgette Melhem de Mello OS 05 II e Fato 1979 e 1978 BA
Geraldo Teixeira s/ título 1996 PA
Jorge Eiró Idade Mídia 1994 PA
José Bechara s/ título 1993 RJ
Lina Kim Lugar de descanso s.d. SP
Lise Lobato s/ título 2003 PA
Lucia Gomes Experiência Polidimensionais n.º 02 (Curamos LGBTFobia Self) 2017 PA
Luciana Magno Raízes Aéreas 2012 PA
Manoel Pastana Santarém – Brasil Central (urna) 1945 PA
Manoel Pastana Fragmentos de Cerâmica Marajó de minha propriedade (em tons de verde) 1938 PA
Manoel Pastana Santarém – Brasil Central (vaso c/ detalhe) 1945 PA
Manoel Pastana Santarém – Brasil Central (detalhe de cerâmica em vermelho) 1945 PA
Manoel Pastana Cerâmica de Marajó 1938 PA
Manoel Pastana Marajó 1952 PA
Marco Santiago s/ título 1979 RJ
Marcone Moreira Ausente Presença 2013 MA
Melissa Barbery Vermelho 2005-2007 PA
Miguel Chikaoka s/ título (02 imagens) 1987 SP
Miguel Rio Branco s/ título 1984 Espanha
Nazareth Pacheco s/ título 1989 SP
Orlando Maneschy Série Instrumentos Ritualísticos (Jade) 2017 PA
Osmar Pinheiro Junior Esquecimento e Memória II 1979 PA
P.P. Condurú O cio das Antas 1988 PA
Patrick Pardini Fazenda Sococo, Moju (Série Arborescência) 2002 RJ
Paula Sampaio O Lago do Esquecimento (05 imagens) 2012 MG
Ronaldo Moraes Rêgo Semente I 1986 PA
Ruy Meira s/ título 1978 PA
Siron Franco s/ título 1978 GO
Tomie Ohtake s/ título 1991 Japão
Walter Guerra s/ título 1993 RJ

Tabela 01. Artistas e obras selecionadas para a Sala Valdir Sarubbi, Dilemas 2019.

 

Notas:

[1] Este núcleo foi denominado, na sua fundação, de Feliz Luzitânia, articulação discursiva portuguesa para selar “um repetido pacto entre a cruz e a espada, em nome de sua Majestade, para escravizar corpos, domesticar almas e, quando necessário, massacrar os renitentes” (CHAVES FERNANDES, 2006: 05).

[2] Em 2008, Alexandre Sequeira realizou viagens a comunidades quilombolas e assentamentos de pequenos agricultores. Em uma de suas visitas, os conflitos por terra se faziam claros, com um grotesco testemunho de incêndios em cemitérios destas comunidades na ilusão de se exterminar laços de parentesco, a fim de desarticular esses povos com seus laços políticos e cosmológicos. Como bem pontuado por Marisa Mokarzel (2014, p. 83), “o cerco à memória deixa as marcas do túmulo violado, mas não consegue retirar a trágica cicatriz que permanece no corpo vivo que narra a sua história”.

 

Referências:

BENJAMIN, Walter. Sobre o Conceito da História. In. BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 2011a, pp. 222-232.

_________________. A Obra de Arte na era de sua Reprodutibilidade Técnica. In. BENJAMIN, Walter. Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, 2011b, pp. 165-196.

BRITTO, Rosângela. Três anos de Espaço Cultural Casa das Onze Janelas. In: SECULT/PA. Traços e Transições da Arte Contemporânea Brasileira. Belém: SECULT/PA, 2006, pp. 16-17.

BRITTO, Rosângela; MOKARZEL, Marisa. Traços e Transições da Arte Contemporânea Brasileira. In: SECULT/PA. Traços e Transições da Arte Contemporânea Brasileira. Belém: SECULT/PA, 2006, pp. 18-32.

CAMUS, Albert. O Mito de Sísifo. São Paulo: Record, 2019.

CASTRO, Tayná Monteiro; COSTA, Sue. Conservação preventiva de Acervos Orgânicos na Amazônia: estudo de caso no Museu Casa das Onze Janelas e Museu de Arte de Belém do Pará. Museologia e Patrimônio, v. 11, 2018, pp. 248-264.

CHAVES, Ernani. Retrato, Imagem, Fisiognomia: Walter Benjamin e a Fotografia. In. CHAVES, Ernani. No Limiar do Moderno: Estudos sobre Friedrich Nietzsche e Walter Benjamin. Belém: Paka-Tatu, 2003, pp. 179-189.

CHAVES FERNANDES, Paulo. Janelas Abertas. In: SECULT/PA. Traços e Transições da Arte Contemporânea Brasileira. Belém: SECULT/PA, 2006, pp. 05-08.

DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante do Tempo: História da Arte e Anacronismo das Imagens. Belo Horizonte: UFMG, 2019.

FLETCHER, John; ÁLBAN, Adolfo. Interpretações Visuais nos Territórios da Ecologia Política: Aproximações e Distanciamentos entre a Amazônia Oriental e a Ocidental. Cadernos de Campo (USP), n. 24, 2015, pp. 71-89.

GAGNEBIN, Jeanne Marie. Memória, História, Testemunho. In: BRESCIANI, Stella; NAXARA, Márcia (Org.). Memória e (Res)sentimento: Indagações sobre uma Questão Sensível. Campinas: Unicamp, 2001, pp. 85-94.

MOKARZEL, Marisa. Cerco à Memória. In: MAIORANA, R.; SEQUEIRA, D.; HERKENHOFF, P.; MACHADO, V. L. Arte Pará 2013 ano 32. Belém: Fundação Rômulo Maiorana, 2014, pp. 82-83.

SEDLMAYER, Sabrina; GINZBURG, Jaime (Org.). Walter Benjamin: Rastro, Aura e História. Belo Horizonte: UFMG, 2012.

SILVA, Marly; PINTO, Lúcio Flávio. O Estupro Museológico, 2016. Disponível em <https://lucioflaviopinto.wordpress.com/2016/06/22/o-estupro-museologico/> Acesso em 21/02/2020.

n° 54 – Ano XVIII – Junho de 2020 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

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