Artigo

Bienal do Mercosul Online questiona a mulher no contexto da sociedade atual

Não há o percurso físico, no espaço, mas há reflexão e diálogo. A Bienal 12 teve, neste sentido, um papel positivo porque distribuiu informações e conhecimento, abriu e contribuiu em importantes debates de temas sociais.

Lisbeth Rebollo Gonçalves – ABCA/São Paulo

Rahima Gambo, série Tatsuniya, Playing Slowly. Foto: Divulgação.

Feminino(s) é o tema da 12ª. Bienal do MERCOSUL. A exposição trouxe ao debate o lugar social da mulher e das minorias no contexto da sociedade atual; questionou a forma de pensar o mundo de um modo patriarcal (Live, no dia 16 de abril), pôs em debate as construções, as lógicas binárias excludentes. Com a amostra Feminino(s), Visualidades, Ações e Afetos, a curadora Andrea Giunta quis estabelecer “uma zona de intercâmbios de visualidades, ações e afetos que permitisse confirmar a riqueza da vida democrática, sem eludir sua complexidade”.

Giunta, que contou com o apoio dos curadores assistentes Igor Simões, Fabiana Lopes e Dorota Biczel, teve seu projeto impactado pela pandemia do coronavirus. A exposição deveria abrir ao público presencialmente, em 16 de abril passado, mas foi inaugurada por via virtual. Depois de uma fala oficial do presidente Gilberto Schwartsmann teve lugar uma Live onde se deu uma conversa entre ele e a curadora.  Elucidaram-se aspectos e desafios do projeto curatorial, ao mesmo tempo, em que se apresentaram pontos de tensão surgidos com a realização do evento por via digital.

Andrea Giunta falou sobre os fundamentos do projeto e, com clareza, posicionou as dificuldades para a recepção estética da mostra, quando não há condições de acesso físico à exposição, quando não há deslocamento no espaço e ativação das obras umas em dialogo com as outras, estratégias que eram cruciais no seu projeto curatorial.

O projeto, conforme informações dos comunicados de imprensa, teve, como um dos apoios teóricos fundamentais, a reflexão de Nelly Richards, em seu livro Masculino/Feminino (1993).

Giunta considerou que as interrogações da autora chilena, no decênio dos anos 1990, remetem ao lugar social do feminino, às suas construções, contribuindo para discutir problemas que persistem no cenário atual.

O feminismo retoma, hoje, as agendas não realizadas desde os anos 1960 ou 1990 e amplia sua urgência, em decorrência da violência contra as mulheres e contra o movimento LGBTQIA+, do recrudescimento da pobreza e dos sistemas de exclusão e discriminação.

O trabalho voltado para a construção da Bienal do MERCOSUL de 2020 começou, já no início de novembro de 2018, com um Seminário que  debateu Arte, Feminismos e  Emancipação, abordando temas como os discursos da lei, as poéticas do corpo, arte, ativismo, performance.

Outras informações importantes foram trazidas ao público, de 2018 em diante, reiterando o enfoque divulgado pelo site da bienal:

Feminino(s) centra-se nas propostas de artistas mulheres e de todas as  sensibilidades não binárias, fluidas, não normativas. Sobretudo aquelas que se expressam  sua oposição às mais diversas formas da violência. Trata-se de envolver-se com as aspirações das maiorias a que muitas obras nos direcionam, e que compreendem artistas afrodescendentes e indígenas, cuja presença segue evocando reflexões críticas no mundo da arte, que, no entanto, é excludente. Trata-se de escutar em detalhe e abordar a sério tudo aquilo que os estereótipos marginalizam”.

Fátima Pecci Carou, Algún día saldré de aquí. Foto: Divulgação

Depois de ter realizado, junto com Cecilia Fajardo-Hill, a curadoria da mostra Mulheres Radicais: arte latino-americana, 1960-1985 (em Los Angeles (Hammer Museum), em Nova York (Brooklyn Museum) e na Pinacoteca do Estado de São Paulo, o foco, na Bienal 12, recaiu sobre a atualidade contemporânea. A mostra reuniu 60 artistas, não só mulheres, mas atores no mundo da arte que refletem, no momento atual, sobre a proposta em foco.

O feminismo é, desde 2009, tema da pesquisa de Andrea Giunta como acadêmica universitária, que trabalha na Argentina e nos Estados Unidos. Ela entende o feminismo como uma filosofia, como teoria, como forma de pensar o mundo “de outra maneira”.

Analisando o perfil da Bienal do MERCOSUL, Giunta considera que esta exposição tem uma importância regional, e aponta como algo positivo o elo fundamental deste evento com a cidade. Considera-a “enraizada” em Porto Alegre e, portanto, que o seu trabalho de curadoria seria um espaço de contato com os cidadãos.  Desta forma, o projeto que preparou para a Bienal 12 pretendia ser uma experiência “de muitos afetos”,  contribuindo para  reificar a cidadania, e pensar o lugar da mulher na cultura e na sociedade. Este é, segundo ela disse, um ponto de interesse que a leva ao exercício de curadoria.

A Bienal 12 na realidade da pandemia

Pensando-se a experiência de visitação de uma mostra de arte do porte de uma Bienal, a pandemia foi uma fatalidade. Visitar uma exposição é uma experiência total. Na visitação, tem lugar uma relação com o espaço que envolve a totalidade do corpo físico do visitante.  A visita é um percurso, em que se processa a ativação estética, é um contato vivo com um conjunto de trabalhos artísticos em diálogo. O espaço, arquitetônico ou urbano, torna-se parte integrante nesse processo de ativação estética.   Favorece vivenciar o percurso, estabelecer diálogo com as obras. A ativação, como observou a curadora na Live mencionada, é o que há de mais relevante nas exposições de arte.  Isto não pôde acontecer!.

A Bienal 12, ao se tornar uma mostra digital, abriu, entretanto, outro tipo de contribuição que é perfeitamente válida. Lives dos artistas foram oferecidas ao público e continuam acessíveis no Youtube, Instagram e Facebook. Elas permitem interagir com os/as artistas que compareceram à mostra, muito embora o acesso às obras e aos artistas se dá por computadores, Ipads e celulares que permitem ver e ouvir,  reunir informações, conhecer. Não há o percurso físico, no espaço, mas há reflexão e diálogo. A Bienal 12 teve, neste sentido, um papel positivo porque distribuiu informações e conhecimento, abriu e contribuiu em importantes debates de temas sociais. Integrou artistas com o público de todo o país e dos países participantes do evento.

Além das Lives, a instituição ofereceu o acesso a um Jornal online com textos dos/as artistas que integram a exposição. Disponibilizado para o público, este jornal constituiu-se em recurso muito útil para estabelecer relações entre os projetos dos participantes do evento e o tema da exposição.

O público interessado pode conhecer, de perto, as preocupações dos expositores, encontrou informações diretamente ligadas, tanto aos trabalhos presentes na mostra, como aos projetos que norteiam suas práticas artísticas em geral.

Um aspecto importante da Bienal 12 foi a contribuição que ela trouxe para o debate sobre o racismo, no momento em que emergiu o movimento Black Lives Matter, decorrente da violência policial que levou à morte de George Floyd, nos Estados Unidos.

Gladys Kalichini, Burial: Erasing Erasure. Foto: Divulgação

Vale, pois, destacar esta questão presente em muitos trabalhos da mostra. Um modo positivo de fazê-lo é pondo em foco o trabalho de Rosana Paulino.

Artista homenageada nesta Bienal do MERCOSUL, Rosana tem forte presença nas discussões sobre e manifestações contra o racismo. É central em seu trabalho a questão da presença negra na cultura “do outro lado do Atlântico” e na realidade internacional da diáspora imposta pela escravidão. E é importante sua presença no feminismo interseccional, que põe no centro do debate “o que é ser mulher negra”.

O trabalho de Rosana Paulino introduz, desde o inicio da sua trajetória, densa reflexão sobre raça, racismo, sobre condição social da mulher negra no Brasil e no mundo.

Em 1994, ela se destacava com a instalação Parede da Memória, hoje no acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo.  A instalação é constituída de patuás, amuletos de proteção utilizados na cultura africana e afro-brasileira. Estes patuás da instalação são também um registro pessoal de memória afetiva, porque reproduzem em xerox, sobre o tecido com que são confeccionados, imagens de pessoas da família da artista — um registro de memória pessoal, tal  como um álbum de fotografias de família. Parede da Memória é um gesto de subjetivação e, ao mesmo tempo, de crítica à realidade experimentada pela população negra, no contexto da cultura e da sociedade.

Rosana Paulino, Parede da Memória. Foto: Rosana Paulino.

Outro trabalho que nos leva à problemática central da obra de Rosana é Bastidores, onde a imagem feminina é impressa no tecido preso em bastidores de madeira. As imagens tem a interferência da mão da artista, com bordados, costuras que vedam a boca, os olhos, sufocam, imprimindo crítica à violência contra a mulher negra.

Rosana Paulino, Bastidores. Imagem transferida sobre tecido, bastidores de madeira e linha de costura. 30 cm de diâmetro, 1997. Foto: Rosana Paulino.

Em 2003, a instalação Tecelãs, apresentada na Bienal do MERCOSUL daquele ano,  trouxe figuras em barro modeladas pela mão da artista, amarradas com linhas que, igualmente, cerceiam bocas e gestos. Imagens em barro, tradição milenar —“vênus” oprimida.

Como observa a pesquisadora Pollyana Quintella, em ensaio para a Revista Continente n. 234, paralelamente aos arquivos pessoais, Rosana Paulino demonstrou constante interesse pelo registro científico. Analisando a obra Assentamento, a pesquisadora observa:

Em Assentamento (2013), [Rosana Paulino] manipula a fotografia de uma mulher nua registrada para fins científicos. A autoria do arquivo original é de Auguste Stahl, fotógrafo franco-suíço que realizava registros de negros e negras, para cientistas europeus no século XIX”.

A artista afirma que a ciência, ao longo da história, não está isenta ao racismo. Em Assentamento, ela “sutura” partes do corpo feminino dilacerado. Raízes brotam dos pés da figura, expressando a resistência da mulher negra.

Rosana Paulino, Assentamento. Impressão digital sobre tecido, desenho, linóleo, costura, bordado, madeira, paper clay e vídeo. Dimensão variável, 2013. Foto: Rosana Paulino.

Em Atlântico Vermelho, de 2017, partes de tecidos são igualmente, “suturados”, não há registro de identidade nos rostos femininos. Uma referencia à colonização, que trouxe consigo a escravidão, é expressa através de um fragmento de azulejo português.

Rosana Paulino, Atlântico Vermelho. Impressão digital sobre tecido, recorte, acrílica e costura. 127 x 110 cm, 2017. Foto: Julia Thompson.

Em Live promovida pela Bienal, a artista conversou com Igor Simões. Rosana Paulino falou de sua preocupação com a questão racial no Brasil e no mundo e criticou o pouco espaço, nas exposições de arte, para a apresentação de trabalhos que criticam o racismo.  A questão é reiterada no seu texto publicado no Jornal Online da Bienal 12, onde diz:

“Num país com uma história de mais de 300 anos de escravidão… há uma tendência [nas grandes exposições] a ignorar a existência de artistas negros tralhando com os temas complexos da mestiçagem”.

Sua retrospectiva de 2018, realizada em São Paulo, na Pinacoteca do Estado, e no Museu de Arte do Rio de Janeiro, reuniu todos estes importantes marcos de sua produção. Nesta Bienal, o público, mais uma vez, tem a oportunidade de aproximar-se de  sua obra.

Lembrando o trabalho de Rosana Paulino, homenageada na Bienal 12, aplaudimos todas/os artistas negras/os expositores nesta edição da Bienal do MERCOSUL.

Mas vale lembrar que a mostra trouxe ao público muito mais, colocando o foco sobre as dimensões dos  Feminino(s) na realidade contemporânea da América Latina .

 

Referências:

BIENAL DO MERCOSUL, 12. 2020, Porto Alegre. Feminino(s): visualidades, ações e afetos. Porto Alegre: Fundação Bienal de Artes Visuais do Mercosul, 2020. Disponível em: http://www.fundacaobienal.art.br/bienal-12-jornal. Acesso em: 23 jun. 2020.

GONÇALVES, Lisbeth Rebollo. Entre cenografias: o museu e a exposição de arte no século XX, São Paulo: Edusp, 2004.

QUINTELLA, Pollyana. Rosana Paulino: quando a imagem vira corpo. Revista Continente, Recife, n. 234, jun. 2020. Disponível em: http://revistacontinente.com.br/edicoes/234/rosana-paulino. Acesso em: 23 jun. 2020.

Lives:

LIVE #01 com Rosana Paulino e Igor Simões. Porto Alegre: Fundação Bienal de Artes Visuais do MERCOSUL, 2020. 1 vídeo (71 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=yTeC7YYmOok. Acesso em: 23 jun. 2020.

LIVE com Andrea Giunta e Gilberto Schwartsmann. Porto Alegre: Fundação Bienal de Artes Visuais do MERCOSUL, 2020. 1 vídeo (70 min). Disponível em: http://www.fundacaobienal.art.br/post/live-com-andrea-giunta-e-gilberto-schwartsmann. Acesso em: 23 jun. 2020.

Vídeos:

ANTONACCI, Célia. O processo criativo de Rosana Paulino. [S. l.: s. n.], 2014. 1 vídeo (19 min). Disponível em: https://www.rosanapaulino.com.br/blog/rosana-paulino-video-sobre-a-obra/. Acesso em: 23 jun. 2020.

PAULINO, Rosana. Rosana Paulino: costura da memória. [S. l.: s. n.], 2019. 1 vídeo (32 min). Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=uNEIJArBdKw. Acesso em: 23 jun. 2020.

n° 54 – Ano XVIII – Junho de 2020 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

Leave a Reply

ÚLTIMAS EDIÇÕES

Translate

English EN Português PT Español ES