n° 52 – Ano XVII – Dezembro de 2019 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

Artigo

BAUHAUS e Esther Moreira: duas trajetórias
100 anos de Bauhaus: Uma trajetória coletiva e seus desdobramentos

A oportunidade de lembrar seu centenário nos leva a recuperar o episódio desse movimento inovador e revolucionário, que tirou do historicismo mais de dois mil anos de Arte ocidental…

Zuzana Trepková Paternostro – ABCA/Rio de Janeiro

Bauhaus em Dessau, prédio principal. Foto: 2005. Cethegus. Wikimedia Commons.

A Bauhaus possui uma importância imensurável para definir o design como o conhecemos hoje. Foi uma escola de artes direcionada não apenas para a formação de designers como, também, para o ofício a partir de diversos materiais ligados à indústria moderna tais como o vidro, o metal e o cimento.

Alguns historiadores definem seu ponto de partida como uma simbiose entre o expressionismo alemão, um romantismo social e um misticismo expresso pela abstração cultivada1.  A oportunidade de lembrar seus 100 anos nos leva a recuperar o episódio desse movimento inovador e revolucionário, que tirou do historicismo mais de dois mil anos de Arte ocidental.

Fundada em 1919 pelo diretor Walter Gropius (1883, Berlim, Alemanha-1969, Boston, EUA), possuía um cunho coletivo pois toda a produção ganhava autoria do movimento. Arquiteto de avançadas ideias formais ‒ com experiência em materiais como o aço, cimento e vidro ‒ Gropius e seus colegas fundadores, com os demais colaboradores, possuíam a intenção primordial de sintetizar todas as Artes. Produziriam juntos não apenas arquitetura, mas uma integração estética com conteúdo comum, visando a uma unidade técnica e artística.

Outro aspecto seria pensar a beleza dos objetos segundo sua funcionalidade: tudo que é útil conteria beleza2. A forma imporia seu valor estético de acordo com sua sobriedade – ou melhor, ausência de superficialidade.

Duas figuras se destacam neste contexto. A primeira delas, Wassily Kandinsky (1866, Moscou, Rússia-1944,  Neuilly-sur-Seine, França), eleito pela História da Arte por suas então inovações. Kandinsky lecionou na escola, de modo que trouxe à tona a liberdade de criação e o constante amadurecimento de seu pensamento teórico e seus trabalhos abstratos.

Wassily Kandinsky. Amarelo-Vermelho-Azul, 1925. Fonte: Organização Wassily Kandinsky.

A segunda, Paul Klee (1879, Münchenbuchsee, Suíça-1940, Muralto, idem), um professor com ideias extremamente originais e excepcionais. Suas aulas exigentes partiam de um cunho racional, sintetizando a estética das formas com a excelência da execução. Foi mestre do departamento de vidro, sendo sucedido pela talentosa Marianne Brandt (1893, Chemnitz, Alemanha-1983, Kirchberg, idem), de quem podemos omitir com quem foi casada, para frisar seu pioneirismo na criação de objetos utilitários, cujo design continua repaginado até o presente. Tudo na mais desconhecida autoria da mulher artista…

Dentre os mais polivalentes, teremos que mencionar a personalidade de László Moholy-Nagy (1895, Budapeste, Hungria- 1946, Chicago EUA), defensor da integração entre tecnologia e indústria. Focou seu trabalho na experimentação fotográfica, por meio da técnica de colagem de negativos, criando efeitos artísticos distintos na impressão das fotos. Foi considerado, por alguns, o homem renascentista do século XX. Dotado de larga paleta de aptidões, era, para seu tempo, simplesmente excepcional.

László Moholy-Nagy (segundo em pé, do lado esquerdo)
na SUR, em Bratislava, em1931. Fonte: I. Mojzisova, SUR, p.130.

Partindo destas informações – os desdobramentos –, destaco, como enunciado no título, dois destinos diferentes que foram tomados. Um foi na região Central da Europa, onde registramos instituições de caráter similar. Percebe-se, ali, o uso das mesmas ideias e do modus operandi da Bauhaus original. Em uma curta distância temporal, nota-se a penetração das ideias da escola em outros continentes, como nas Américas. Nestas, fica evidente a presença dos fundadores originais, que, ao fugirem da Primeira Guerra, encontraram acolhimento em países tais como os EUA e o próprio Brasil. E, no caso dos EUA, a expansão visual e material do, então, moderno. Desta maneira, constrói-se uma possível cartografia ideológica, política e estética, ligada a este movimento.

 

Bauhaus e a Europa Central

Para o público brasileiro, acostumado naturalmente aos grandes centros da Arte europeia ocidental – seja por questões afeitas à distância geográfica ou pelo apagamento historiográfico –, apresento aqui outras escolas surgidas quase simultaneamente, vinculadas às mesmas ideias vigentes no raiar do século XX. Não poderíamos deixar de mencionar a existência de uma Oficina fundada pelo ex-aluno da Bauhaus Alexandre Bortnyik, em Budapeste, em 19283.

Ao contrário desta Oficina, centrada apenas nas Artes gráficas, no mesmo ano é fundada uma instituição pedagógica voltada às Artes e diversos ofícios. Possuía uma filosofia de ensino idêntica à bauhausiana. Localizada em Bratislava, capital da Eslováquia, e denominada SUR (Skola Umeleckých Remesiel), onde, posteriormente, Moholy-Nagy chegou a expor suas obras e proferir diversas palestras4.

A. Balán e Z. Rossmann. Prédio da SUR, Bratislava. 1928-1932. Foto: Jaromír Funke, Arquivo particular.

Além dele, a potência desta nova escola despertou o interesse de outros professores tais como o de Josef Albers (1888, Boltroop, Alemanha- 1976, New Haven, EUA), que se interessava em lecionar nesta citada instituição5.

Sobre a SUR, o próprio Gropius mostrou-se entusiasmado com o surgimento dela. Observou, com satisfação, o teor contemporâneo das ideias e a amplitude das múltiplas oficinas, voltadas a diversos meios para além da indústria gráfica, apoiando sua existência. Valorizou e incentivou, como muito positiva, a sua ligação com a produção industrial em série.

Partindo da SUR, onde foram jovens mestres, destacam-se dois artistas nacionais da maior importância para a pintura da Eslováquia do século XX: Mikulas Galanda (1895, Turčianske Teplice, Eslováquia-1938, Bratislava, idem), prematuramente falecido, e Ludovít Fulla (1902, Ružomberok, Eslováquia-1980, Bratislava, idem)6, com longa trajetória artística posterior. Da mesma forma que a Bauhaus, a SUR (Skola Umeleckých Remesiel) fechou suas portas por motivos políticos que já presenciavam a declaração da Segunda Guerra Mundial, em 19397.

Vladimír Bahna. Výrocná zpráva SUR v Bratislave, 1930-1931.

O caso americano

Diversos artistas da Bauhaus transferiram-se para os EUA, muitos deles por meio de convites. Em 1937, por exemplo, Moholy-Nagy mudou-se para Chicago e, por indicação de Gropius, na época professor da Universidade de Harvard, foi convidado pela Associação de Artes e Indústrias para se tornar diretor da New Bauhaus, a primeira escola de Design Industrial dos Estados Unidos.

Capa de catálogo da exposição de Moholy Nagy. 1935. Bratislava.

Além do já mencionado Josef Albers, outros também vieram: Marcel Lajos Breuer (1902, Pécs, Hungria-1981, Nova York, EUA) ‒ conhecido por seus traçados de mobiliário e pela icônica poltrona Wassilly (1925)8 ‒foi responsável, já nos EUA, pelo projeto e construção das primeiras edificações totalmente em cimento armado. Foi também nomeado diretor da faculdade de Arquitetura de Harvard.

Já Herbert Bayer (1900, Haag am Hausruck, Áustria-1985, Montecito, EUA) acabou sendo responsável por suas esculturas urbanas, desde Double Ascension (de 1969, em Los Angeles) até Articulated Wall (de 1985, em Denver).

No caso brasileiro, tivemos o mérito de receber Alexander Altberg (1908, Berlim, Alemanha-2008, Marília, Brasil), formado pela Bauhaus. Chegou ao Brasil em 1930, radicando-se no Rio de Janeiro. Com pouca receptividade profissional, teve a oportunidade de atuar junto de Lucio Costa, tomando um rumo diferente em sua carreira de arquiteto9. Nesse contexto, é importante também mencionar Grigori Warchavchik (1896, Odessa, Ucrânia-1972, São Paulo, Brasil), da primeira geração de arquitetos modernistas do Brasil10.

Apesar do desejo aqui exposto de realçar o centenário da Bauhaus, é correto lembrar que esta iniciativa não é inédita. Aqui, encontra-se a ampliação do eco da efeméride na denominada Bauhaus Imaginista: aprendizados recíprocos ‒ projeto internacional que abrange diferentes exposições, simpósios e debates, percorreu países influenciados pela pedagogia original da escola tais como Japão, China e Rússia. No Brasil, o evento fez parte da programação por intermédio das realizações no SESC Pompeia11, no final do ano passado (2018) e início deste (2019).

Esther Moreira – uma trajetória individual e seu desfecho

Esther Martins Moreira, Sem título, 1990. Foto: Coleção particular.

As tendências libertárias se intensificaram até chegarmos à contemporaneidade, banhada pela subjetividade, pelo repertório arquivístico de cada artista e pela fluidez entre o formal e a abstração máxima. Destaco. aqui, a produção de Esther Martins Moreira (1958, Rio de Janeiro, Brasil-2015, idem). Seus trabalhos tiveram a oportunidade única de serem exibidos no Centro Cultural dos Correios, no Rio de Janeiro, entre maio e julho do ano em curso, quando foram acompanhados de uma apreciação crítica nossa, a ser transcrita a seguir.

Para mim, é um privilégio escrever sobre uma artista cujo intrigante trabalho apresenta produção que nos atrai, e leva à apreciação do público às mais íntimas percepções que brotam de sua alma e se refletem em uma expressão muito particular.

Assim como as densas vegetações da Serra da Capivara, no Piauí, foram capazes de resguardar, nas paredes, as pinturas rupestres que registram rituais do mundo místico dos primórdios da Humanidade, a criação de Esther Martins Moreira resgata da alma humana pulsões primárias, de desafiador acesso e paisagens internas advindas do inconsciente.

Sua produção foi, muito provavelmente, instigada pelo trabalho de Nise da Silveira (1905, Maceió, Brasil-1999, Rio de Janeiro, idem), médica brasileira. Sua formação em psicologia e escritos sobre A estética kantiana e sua influência na psicologia analítica de Carl Jung (2013), resultante dos seus estudos de doutorado, refletiram em uma criação artística bidimensional de desenhos e pinturas de expressões que variam entre o figurativo e o expressionismo, sempre com atribuições advindas da psicanálise.

Esther focava na investigação da identidade humana, associada à sua realidade interna, explorando suas inúmeras facetas e aspectos escondidos, segundo afirma: “Temos contato, via de regra, apenas pelos sonhos, compulsões, obsessões e fantasias.”

Vê-se, em suas obras, profícua inspiração estilística, com a mesma iniciativa de Kandinsky, Klee e Jean-Michel Basquiat (1960, Nova York, EUA-1988, idem), observadas as diferenças relacionadas à liberdade proposta na expressão de apego sensorial, muito mais do que racional, e menos rigidez das formas.

Da mesma forma que o artista americano, de ascendência porto- riquenha, Basquiat preferia registrar os vínculos sociais e captar a psique individual.

Sua permanência em Londres, marcada pela graduação em Artes pelo Central Saint-Martin College of Art and Design, seguida pelo mestrado em Artes Plásticas/Pintura no Royal College of Art, lhe oportunizou um ambiente de exploração de linguagem com densidade profunda e meditativa. Este ambiente, ao qual ela tinha acesso na época, era repleto de amplitude, competição, confronto e crescimento instigante possibilitando-lhe, assim, desenvolver amplamente sua produção artística, talento e criatividade, tanto no convívio quanto na crítica. Tudo leva a crer – pelo legado de suas obras – que Esther seria bem-sucedida.

Esther Martins Moreira, Sem título, 1990. Foto: Coleção particular.

Suas obras apresentam cores vibrantes e contrastantes que irradiam em composições com sombras e elementos de caráter ameaçador. Estes podem ser advindos deste mundo interior, muitas vezes desconhecido, ou talvez de medos relativos à sua realidade e à finitude de experiências. Pesarosamente, não houve tempo suficiente para que o conhecimento de sua obra recebesse o merecido prestígio.

Nesta oportunidade, o amplo panorama presta a devida atenção às obras para as quais a artista dispensou títulos e que foram realizadas durante os anos de 1990, mostrando como foi capaz de produzir visualizações palpáveis e palpitantes, mesmo em seu tempo exíguo de vida. Esther nos permite adentrar, com sensibilidade, o nosso interior para alcançar a mensagem universal que é nosso denominador comum em todas as experiências particulares.

Para concluir, um talento individual como Esther – imerso em subjetividade e em liberdade – representa um minúsculo, porém importante ponto na urdidura do nosso moderno e industrial tecido artístico, onde encontramos emendas, acréscimos e avanços individuais e coletivos, a exemplo dos citados da Bauhaus e em outras criações de talentos nacionais e internacionais.

Ainda assim, o denominador comum e inovador só é possível por caminhos – às vezes traiçoeiros – de plena liberdade, sendo estes genuínos e duradouros até o presente. Assim se apresentam, e são representados nesta matéria, ambas as trajetórias diante de nós, para as quais ouso solicitar a compreensão do leitor.

NOTAS

1 – São estes os historiadores: Radislav Matustik, na publicação Bauhaus. Bratislava: Vydavatelstvo Slovenského Fondu Výtvarných Umení, 1965; e Iva Mojzisová na publicação Skola moderneho umenia-bratislavská SUR 1928-1930.  Bratislava: Artforum, 2013.

2 – Na opinião unânime dos dirigentes da Bauhaus Walter Gropius, Hannes Meyer e Mies Van der Rohe. Dentre eles, além de Gropius, Meyer visitou a escola citada em Bratislava (além de Praga, Karlovy Vary e Brno, dentre outras, em 1935) escrevendo cartas de admiração ao historiador da Arte Josef Vydra, diretor da SUR.

3 – Inicialmente, surgida em Budapeste, em 1928, a partir do aluno da Bauhaus, Alexandre Bortnyik (1893, Targu Mures, Romênia-1976, Budapeste, Hungria), a escola especializada em Artes gráficas modernas, chamada Mühely (Oficina).

4 – Arquivo fotográfico (n. 17) da visita de Moholy-Nagy, recolhido para defesa de mestrado Skola umeleckych remesiel 1928 – 1939.  (1967) por Zuzana Trepková (Paternostro).  Acessível no arquivo da Faculdade de Filosofia da Universidade J. A. Komensky, Brastilava.

5 – Sua admissão na SUR não se realizou em virtude do convite recebido dos EUA, a fim de que fundasse a Liberal Arts College, na Carolina do Norte, Escola de Artes Liberais em que se formaram Robert Rauschenberg (1925-2008) e Kenneth Noland (1924-2010), dentre outros.

6 – Ambos chegaram a visitar a Bauhaus, em Berlim, em 1930-1931.

7 – Esta escola retomou sua existência após a guerra (1947) e continuou a funcionar com siglas diferentes (VSUP, SUP e/ou SSUP), a maior parte do tempo já sob a direção do excepcional Jozef  Brimich (1922-1996) também historiador da Arte, que manteve os princípios idênticos que a escola cultiva até o presente. Responsável pela formação de diversos artistas (alguns teóricos, como no meu caso) no campo das Artes visuais e Cinematografia contemporânea (Juraj Jakubisko) na Eslováquia.

8 – O nome da poltrona foi dado em homenagem a seu amigo Wassily Kandinsky.

9 – A ocasião de atuar junto a Lucio Costa se deu durante a organização do Salão de Arquitetura de 1931.

10 – Apesar de não ter vínculo com a Bauhaus, gostaria de mencionar a obra de Warchavchik ‒ responsável pela construção da emblemática Casa Modernista, de 1928, em São Paulo, é considerado um dos principais nomes da primeira geração de arquitetos modernistas do Brasil.

11 – A exposição teve a curadoria de Marion von Osten (Berlim) e de Grant Watson (Londres), com o apoio da pesquisadora paulista Luiza Proença.

REFERÊNCIAS

BENEVOLO, Leonardo. História da arquitetura moderna. São Paulo: Editora Perspectiva, 1976.

HLADÍK, Ján.  Bratislavská Supka-Hommage à Brimich. Bratislava: ARSEOS, 2017.

MATUSTIK, Radislav. Bauhaus. Bratislava: Vydavatelstvo Slovenského Fondu Výtvarných Umení, 1965.

MOJZISOVA, Iva. Skola umeleckych remesielv. Bratislava: Slovensko. Artforum, 2013.

PATERNOSTRO (Trepková), Zuzana. Pociatky výtvarného skolstva na Slovensku a Skola umeleckych remesiel v Bratislave. Bratislava: FFUK, Univerzita J. A. Komenského v Bratislave, Cesko-Slovensko. 1975.

SUSANNE, Anna. Das Bauhaus im Osten. Zum Diskurs über seinen Einfluss in Bratislava. In. Das Bauhaus im Osten.Ed. Verlag. Stutgart: Gerd Hatje, 1977.

TREPKOVÁ, Zuzana. Skola umeleckych remesiel 1928-1939. Bratislava: FFUK, Univerzita J. A. Komenského v Bratislave, Cesko-Slovensko. 1967.

WINGLER, Hans Maria. Das Bauhaus 1919-1933. Weimar, Dessau, Berlin un die Nachtfolge in Chicago seit 1937. Köln: Bramsche, 1962.

https://awarewomenartists.com/en/artiste/mariannebrandt

https://www.sescsp.org.br/online/artigo/12604_CONHECA+OS+ARTISTAS+DA+EXPOSICAO+BAUHAUS+IMAGINISTA+APRENDIZADOS+RECIPROCOS

https://tammytourguide.wordpress.com/2014/08/01/dream-homes-walter-gropius-house/

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