Artigo

Asa de papel Café &Arte: um coletivo de Arte em Belo Horizonte

A proposta é o incentivo às manifestações artísticas na cidade, considerando a arte enquanto possibilidade de reflexão sobre o momento atual.

Marília Andrés Ribeiro – ABCA/Minas Gerais

Sergio Machado, Fotografia. Belo Horizonte, 2020.

Gostaria de aproveitar a quarentena para fazer uma breve reflexão sobre um coletivo de arte que está atuando na região de Belo Horizonte: a Asa de Papel Café & Arte.

Este coletivo tem como proposta o incentivo às manifestações artísticas na cidade, considerando a arte enquanto possibilidade de reflexão sobre o momento atual, de abertura para as diversas formas de expressão artística e de atuação micropolítica na comunidade local, em prol de um ideal progressista, solidário e inclusivo[1].

Faremos um breve histórico deste coletivo, situando-o no contexto social da cidade de Belo Horizonte e focalizaremos a proposta expositiva do artista Sérgio Machado, que está acontecendo, durante a quarentena, no espaço físico e virtual da Asa de Papel Café &Arte.

A história deste coletivo tem a sua origem num café e livraria, situado no bairro de Santa Efigênia, onde se reuniam pessoas interessadas nas letras e artes. De um Café Book, dirigido pelo editor e livreiro Álvaro Gentil, se transformou na livraria Asa de Papel, nome que remete ao livro homônimo do escritor e artista visual Marcelo Xavier. Com um novo nome, Asa de Papel Café & Arte, o espaço tornou-se um coletivo e passou a congregar vários atores: artistas, escritores, músicos, historiadores, arquitetos, engenheiros, designers, médicos, advogados e gestores culturais.

Este espaço coletivo, inaugurado em 24 de junho de 2016, transformou-se num espaço multimídia aberto para a rua, desdobrando-se em galeria de arte, local de palestras, debates, projeções de vídeos,  lançamento de livros, saraus poéticos, leituras dramáticas e eventos musicais, abrangendo também um grupo de estudos e uma reunião de bordadeiras. Estendendo suas atividades para a Rua Piauí[2] e a Pracinha da Asa foram organizados no local vários eventos importantes: Outono Mais Livros, ocupação literária, aberto aos poetas, escritores e editores;  Ação de Graça, evento multimídia com performances e instalações, onde os artistas disponibilizam a sua obra de graça para o  transeunte; Mercado das Pulgas Aladinas, evento de troca de objetos, roupas, sapatos, etc., onde incentiva-se o desapego das pessoas; e o Cine Asa, cinema na praça, aberto a participação do público, resgatando a memória dos antigos Cine Grátis.   Além desses eventos, acontece, todos os anos, a Festa Junina da Asa e o famoso bloco de carnaval Todo Mundo Cabe no Mundo, que brilha na cidade por sua proposta de inclusão social[3].

Marcelo Xavier, artista multimídia e idealizador do coletivo, esclarece o caráter inclusivo e diversificado deste espaço democrático.

Resolvemos bancar o aluguel do espaço, que é uma garagem, e fizemos um projeto mais ou menos formal, uma espécie de estatuto da Asa de Papel Café&Arte. O nosso foco é o universo da arte, das diversas manifestações artísticas, e acolhemos tudo ali, naquela garagem, sem privilegiar nenhuma manifestação em particular. Acolhemos, espontaneamente, qualquer manifestação proposta, qualquer ideia que se encaixe naquele pequeno formato: uma projeção de vídeo, uma performance, uma exposição, um lançamento de livros, um sarau de poesia, um papo político, acadêmico ou filosófico. Lançamos essa utopia e a coisa foi pegando, bem do tamanho dela, foi crescendo por dentro e teve uma aceitação muito grande por parte da comunidade belo-horizontina, que começou a achar o lugar simpático e a prestigia-lo[4].

Marcelo Xavier esclarece também o conceito de microutopia que está presente no universo da Asa de Papel:

Podemos chamar esta ideia de uma microutopia. Ela é uma ideia utópica porque pretendíamos criar um lugar que não tivesse o peso de uma instituição formal, mas que, no seu dia a dia, fosse leve, sem os requintes de uma instituição profissional. Ali, tudo é nano, temos uma nano galeria, uma nano livraria, um nano café, um nano bar. De repente, podemos ter um nano auditório e um nano cinema: o Cine Asa. Contamos com um espaço fantástico porque estamos situados numa rua de quarteirão fechado e temos uma pracinha que denominamos Pracinha da Asa. Apropriamos literalmente essa praça e lá fazemos alguns eventos durante o ano[5].

Marcelo Xavier acrescenta, ainda, a dimensão espiritual e criativa que prevalece na Asa de Papel.

O coletivo da Asa é tudo isso, a gente não tem papas na língua, é um ambiente cordial, agradável, onde prevalece a liberdade de opinião. Procuramos entender a contemporaneidade, oque se passa nesse mundo, como é que rola o mundo hoje. A proposta não é manter a eterna juventude até a morte, todos nós já passamos dos 50, somos maiores de idade e estamos criando uma alternativa para envelhecermos com o desenvolvimento espiritual. O físico a gente entra com o que tem, mas o espírito é cada vez maior. Acreditamos muito mais no desenvolvimento espiritual do que no físico. Este é o espírito da Asa e vejo isto com muita nitidez. Temos um espírito jovem e muita energia. Na Asa uma pessoa alimenta a outra e é assim que funciona esse acelerador de partículas. Vários “alados” [6] reaqueceram o seu processo de criação e vão surgindo coisas muito instigantes[7].

Finalmente, ele nos fala da criação do bloco de carnaval, Todo Mundo Cabe no Mundo, que acontece em Belo Horizonte, desde 2016, quando vários blocos carnavalescos ocuparam o espaço da cidade.

Temos também um bloco de carnaval: Todo Mundo Cabe no Mundo. O bloco tem a bandeira de inclusão absoluta. Acolhemos todas as limitações porque isso sempre foi uma carência na sociedade. A exclusão foi ficando uma coisa natural, mas agora a sociedade está mais empática, sentindo mais oque é o outro, entrando mais na dor do outro, na situação do outro. São esses os princípios básicos que a Asa procura cultivar e preservar: a inclusão, a diversidade, a democracia e o direito do outro, princípios que estamos vendo falhar muito no Brasil[8].

“A mostra foi inaugurada no dia 18 de junho, através de uma Live, apresentada no instagram, com a participação do artista Sérgio Machado, da curadora Marília Andrés, da designer gráfico Pat Kamei e da designer de produto Raquel Martins…”

Sergio Machado, Fotografia. Interferência na pedreira do Bairro Céu Azul, Belo Horizonte, 2020.

Durante essa quarentena da Covid 19, o espaço está sendo reativado,  através de propostas virtuais, como as Lives, realizadas todas as quarta- feiras com os integrantes do coletivo, e a exposição do artista Sérgio Machado[9], organizada por uma equipe de “alados” e “aladas”.

Montagem da exposição de Sergio Machado, Asa de Papel Café&Arte, Belo Horizonte, 07/06/2020.

Como curadora do evento fiz a seguinte apresentação da exposição Um metro e meio.

A exposição de Sérgio Machado na Asa de Papel Café & Arte, realizada durante a quarentena da Covid-19, nos leva a refletir sobre o momento atual da pandemia. Estamos todos isolados, em casa, no nosso quadrado, preservados do contágio. Quando saímos, temos que usar máscaras e distanciar um metro e meio das outras pessoas, respeitando as marcas de X desenhadas no chão.

Sérgio Machado apropria-se do X, marca da Covid-19, e faz interferências dentro e fora do espaço da Asa de Papel. O artista usa outro elemento, a pedra, para contrapor ao X, mostrando a permanência desta no planeta Terra. A pedra aparece viva e leve nos delicados desenhos, nas nano esculturas, nas fotografias e nas interferências urbanas realizadas pelo artista.  A pedra, que está presente na poética de Sérgio Machado como afirmação da energia vital, nos convida a preservar a natureza, o entorno, o ambiente e a vida na Terra.

A exposição tem uma proposta inovadora, apropriada ao momento em que vivemos: será realizada dentro e fora, no espaço físico e também no espaço virtual. O público será convidado a ficar em casa e a participar da mostra através da internet. A inauguração será o momento em que os participantes do coletivo e os convidados terão a oportunidade de conversar, através das plataformas online, e de compartilhar outra maneira de experimentar e celebrar a arte[10].

A mostra foi inaugurada no dia 18 de junho, através de uma Live, apresentada no instagram, com a participação do artista Sérgio Machado, da curadora Marília Andrés, da designer gráfico Pat Kamei e da designer de produto Raquel Martins.

Live da inauguração da exposição de Sergio Machado, Asa de Papel Café&Arte, Belo Horizonte, 08/06/2020.

Durante o evento, Sérgio Machado nos presenteou com um depoimento, onde ele fala de sua proposta, do poder transformador da arte e dos materiais que utiliza no seu trabalho.

A exposição é um questionamento sobre o distanciamento social da Covid 19: será que este distanciamento veio agora ou já vem de algum tempo? Estamos passando por um momento muito grande de problemas sociais e políticos, o povo brasileiro ficou dividido, os amigos ficaram divididos, as famílias ficaram divididas, os irmãos brigaram. Teve alguma coisa que me chamou a atenção. Quando apareceu a Covid 19 achei que foi uma oportunidade de falar sobre este assunto. E a exposição surgiu, espontaneamente, durante a quarentena, com a ajuda da Raquel, da Marília e da Pat.

A pedra é um elemento que povoa o meu trabalho já há algum tempo. Eu adoro trabalhar com a pedra e acho um material fantástico. Meu trabalho tem o questionamento sobre este material que está no planeta a bilhões de anos, aliás, o planeta Terra é formado por ele. O que o homem está fazendo com a Terra? Como explicar a interferência que estamos fazendo com tanta voracidade sobre o planeta?

Eu acho que a arte é essa grande poesia que nos permite atravessar este portal e extrair poesia de um material tão duro. E a nossa vida é essa, a vida dura do artista é fazer poesia da pedra. Esta é a intenção da exposição no que diz respeito ao material. Normalmente eu trabalho com madeira, eu gosto muito de trabalhar com a madeira, mas a pedra está sempre por perto. Quando você coloca um elemento diferente na pedra, uma escada, por exemplo, ela deixa de ser só pedra e passa a ser outra coisa. Uma escultura de boi já não é mais um boi, ele se transforma num boi pedra. Estas modificações são questionamentos que nos levam a pensar no poder transformador da arte[11].

Sérgio Machado. Boi pedra, objeto em metal e pedra, 2020.

A exposição de Sérgio Machado nos mostra duas facetas de sua arte: a do artesão que domina a matéria bruta – a madeira, a pedra, o ferro – transformando-a em arte, e a do artista conceitual que propõe uma ação micropolítica ao seu redor, potencializando a discussão sobre questões contemporâneas. Neste caso, a proposta é discutir a pandemia e a situação política polarizada que estamos vivendo no Brasil.

Desta forma, a exposição de Sérgio Machado torna-se um marco importante na história do coletivo, abrindo novas possibilidades virtuais de atuação dos artistas e de outros profissionais que frequentam a Asa de Papel.  E mais, a exposição está contribuindo para a discussão da arte e da atuação dos coletivos artísticos no momento atual da contemporaneidade.

 

Notas:

[1] Na linhagem do pensamento de Michael Foucault, Féliz Guattari e Suely Rolnik, compreendemos a micropolítica como uma atitude crítica diante da padronização propiciada pela sociedade capitalista contemporânea, pautada pela globalização, o consumo, a padronização dos comportamentos e a serialização da subjetividade. Essa atitude crítica se dá tanto no nível subjetivo quanto no social e se concretiza nas relações políticas institucionais, comportamentais, pessoais e artísticas, enfatizando a prevalência do desejo, da singularidade e da criatividade, através de “revoluções moleculares” que acontecem no cotidiano, na comunidade e na cidade.

[2] A Asa de Papel Café&Arte está localizada na  Rua Piauí 631, no bairro Santa Efigênia, em Belo Horizonte.

[3] Essa breve história da Asa de Papel Café&Arte foi contada por Raquel Martins e Marcelo Xavier, através de depoimentos à autora, coletados, respectivamente, em 29/05/2020 e 04/06/2020.

[4] Depoimento de Marcelo Xavier à autora, Belo Horizonte, 04/06/2020.

[5] Idem

[6] “Alados” é a denominação dada aos participantes do coletivo e Asa é o apelido de Asa de Papel Café&Arte.

[7] Depoimento de Marcelo Xavier à autora, Belo Horizonte, 04/06/2020.

[8] Idem. Sobre a quarentena ver o poema, “Sinfonia de contratempos”, publicado no “Diário de uma quarentena” em:  marceloxavierartista, no instagram.

[9] Sérgio Machado (1957) é artista visual e atua no cenário artístico brasileiro desde os anos de 1980. Realizou exposições individuais na Galeria Quadrum (BH), Galeria Lemos de Sá (BH),  Galeria Circo Bonfin (BH), Espaço Cultural CEMIG (BH), Centro Cultural Yves Alves e IPHAN (Tiradentes) e Galeria de Arte da Patachou (São Paulo).

[10] Texto de apresentação publicado no catálogo virtual da exposição – Um metro e meio, Belo Horizonte, 18/06/2020

[11] Depoimento de Sergio Machado, publicado no catálogo virtual da exposição  Um metro e meio, Belo Horizonte, 18/06/2020.

 

Referências:

AZEVEDO, Dunya. “Finning”. In: Sérgio Machado. Galeria Quadrum, Belo Horizonte, 2013. (Catálogo da exposição)

CASA NOVA, Vera. “Cadeiras Quase”. In: Sérgio Machado o espelho de Sherazade. CEMIG, Espaço Cultural e Galeria de Arte, Belo Horizonte, 2009. (Catálogo da exposição)

GUATTARI, Félix e ROLNIK, Suely. Micropolítica. Cartografias do desejo. Petrópolis, Editora Vozes, 2005.

RIBEIRO, Marília Andrés. “Um metro e meio”. In: Sérgio Machado. Um metro e meio. Asa de Papel Café&Arte, Belo Horizonte, 2020. (Catálogo virtual da exposição).

ROLNIK, Suely. Esferas da Insurreição. Notas para uma vida não cafetinada. São Paulo. N-1 edições, 2018.

n° 55 – Ano XVIII – Setembro de 2020 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

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