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Artigo

As obras de Dilma Góes são fábulas

Elas não só refletem o significado do símbolo como também, especialmente, tecem esperanças.

Neusa Mendes – ABCA / Espírito Santo

Nuvens, 2017 – Foto: Arquivo de Neusa Mendes.

A produção mais recente da artista têxtil Dilma Goés mune-se da estratégia da sintonização, para comentar a relação da matéria da arte com o mundo. Desta forma, a obra de Dilma – que passou da afirmação individual – abre caminho à serena tranquilidade com a qual a artista busca afirmar um querer civil e a asserção de que o homem é capaz de ter inspiração própria, indispensável para o crescimento humanitário.

Dilma foi professora do Centro de Artes da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) no período de 1968 a 1992. Com vasto currículo e trajetória nos circuitos de arte nacionais e internacionais, ela ocupa uma posição singular na história da arte têxtil, passando do bordado sobre talagarça para o tear primitivo, até o abandono total da tecelagem em tear por meio das técnicas “weaving without a loom”, aprendida durante seus estudos na Filadélfia (EUA). O interesse pelo entrelaçado vem daí! E sua maneira de materializá-la alia-se à prática poética, que a artista define como algo que se torna um prolongamento do corpo – mais especificamente, das mãos. “É só o homem e o material, sem a precisão da máquina”, diz a artista.

Conhecida como artista têxtil, Dilma Góes sempre esteve interessada em explorar e revelar novas estratégias. Ela dá voltas em torno de suas técnicas, suportes e narrativas. Esgarça a fronteira entre tecelagem, objetos e instalação e, ainda, amplifica seu trabalho ao pensar de modo arquitetônico, visando estabelecer diálogos com o espaço expositivo. Historicamente, quando incorpora aos trabalhos acontecimentos ocorridos no lugar geográfico da exposição, ela exemplifica como a artista transcende a categoria “tecelã”, mantendo a linguagem visual pela qual é conhecida, em relação à experimentação e à reflexão existencial, porém insistindo na potência do fazer artístico.

“Por meio de suas mãos, ela entrelaça os materiais – uns translúcidos, outros rarefeitos e ainda alguns que não deixam a claridade atravessar…”

Suas obras inéditas, apresentadas uma no ano de 2017 e a segunda em 2018, são marcadas por títulos que lhes atribuem um caráter narrativo e autobiográfico. Na primeira, “Tecendo”, na Galeria de Arte Espaço Universitário, na Ufes, a artista Dilma Góes apropria-se dos mais variados tipos de plástico, organza, tecidos e fitas. Por meio de suas mãos, ela entrelaça os materiais – uns translúcidos, outros rarefeitos e ainda alguns que não deixam a claridade atravessar. Desse modo, tramados, surgem formas e texturas e cria-se uma nova plataforma pictórica, aproveitando o poder retido pelo material e abordando a questão materialidade versus tempo. Essa temporalidade do trançar/tecer, traduzida em uma multiplicidade de formas moduladas, pouco a pouco busca qualidade e denota a preferência pelos valores da natureza. Seis obras trazem esses materiais, e são denominadas de “Céu, água e terra”, “Borboletas”, “Nuvens”, “Arco-íris”, “Código de barra” e “Cascatas”.

Código de Barra, 2017 – Foto: acervo da artista.
Nuvens, 2017. Galeria de arte Espaço Universitário – Foto: Arquivo de Neusa Mendes.

Outro trabalho que ganha força em contexto arquitetônico é “Cem passos, sem sapatos”, sétima obra da artista, estruturante de outra relação: artista-obra-espectador. São 64 módulos de 45 cm de diâmetro e 56 módulos de 15 cm feitos de tubos isolantes em polipropileno na cor cinza, amarrados por fios de sisal e fitas das mais variadas cores e espessuras: restos da matéria-prima dos trabalhos da artista. São feixes enrolados em dois diferentes diâmetros e deixam-se formatar numa paisagem geométrica que se esparrama por quase toda a área de uma salinha anexa, propondo sentidos múltiplos. Assim, convida o público a caminhar e a ocupar o espaço.

Cem passos, sem sapatos, 2017 – Foto: Arquivo de Neusa Mendes.
Cem passos, sem sapatos (detalhe), 2017 – Foto: Arquivo de Neusa Mendes.

Cabe indicar que o acaso e o inesperado fazem parte da realização da oitava e última obra, localizada na sala 2 do espaço expositivo, que conta com a participação especial do arquiteto José Daher, que idealizou, projetou e executou, de modo singular, essa obra.

Inexoravelmente, ela toma corpo por meio de uma casa pequena, de 1,20m de comprimento, 0,66cm de altura por 0,45cm de profundidade, construída em estilo vitoriano, e que vem sendo montada há 40 anos. A obra “Casa de boneca” tem a espessura de vida de Dilma Góes. A artista destaca que esse singelo objeto foi a única coisa que levou em um momento de mudança radical em sua vida. Trata-se de uma espécie de “casa dos sonhos”, onde a artista semeia com invejável precisão uma síntese do que viria a realizar-se na sua travessia. A obra nos transporta para um lugar fantástico povoado por peculiaridades que se delineiam presentes, como na história da Alice através do espelho. Ali tudo persiste: gavetinhas que se abrem fogão que tem trempe e caixinha de música que funciona dão indícios de como o espaço interno é marcado por vida – tem alma. Assim, a artista se une às condições experienciais e se coloca a conversar com o Tempo.

Casa de boneca, 2017. Instalação – Foto: Jorge Sagrillo.

“Uma das maiores lições de vida que podemos ter é a atitude de aprendiz, ou seja, estarmos predispostos a ouvir com uma mente aberta…”

Em outra exposição, mais recente, apresentada no final de 2018, na Galeria Ana Terra, Dilma Góes insere dentro de pequenas caixas– medindo cerca de 20 cm por 20 cm, escavadas em um círculo na centralidade do objeto– pequeníssimas mandalas tecidas e entrelaçadas. Em outras obras, são só tramas, surgem formas, texturas e volumes, aproveitando o poder retido na materialidade dos tecidos em ceda, em organza e em gorgorão nas cores rosa, azul, verde, branco e várias tonalidades de preto até chegar ao cinza. O interesse que move a artista a uni-los na parede e organizá-los em módulos, além da sutileza na escolha das matérias e a possibilidade de agrupá-los segundo uma ordem pessoal, é o desenvolvimento da linguagem estética capaz de responder ao signo. Nas diferentes sequências da mesma forma, Dilma incorpora o movimento e o círculo, em estado primordial, que podem ser associados como sinais supremos de perfeição, união e plenitude, mas também são representação do movimento – simulacro do universo.

Noutro conjunto, três trabalhos medindo também 20 por 20 cm trazem a imagem impressa do mapa do Brasil, em folha de papel, recortada em minúsculas tiras entrelaçadas, padronizando cada qual uma figuração. Estão colocadas entre dois vidros, de tal maneira que, frente e verso, se tem a fragmentação do mapa, mas, ao comporem-se as fitas de papel, revelam-se as suas dessemelhanças. No conjunto, a obra intimada de modo instigante a noção de territorialidade, nação e identidade, estendendo ao trabalho aspectos políticos.

Foto: Aklabin José da Silva Braga.

Para alguns, o termo “sintonização” aduz uma explicação espiritual. Uma das maiores lições de vida que podemos ter é a atitude de aprendiz, ou seja, estarmos predispostos a ouvir com uma mente aberta. Não é por outra razão que, Eugen Herrigel, no livro A arte cavalheiresca do arqueiro zen, emerge o guardião na ação de esticar o arco e disparar a flecha. O arquejante ajoelha-se, concentra-se e coloca-se em estado de vigília: “Ao se levantar dirige-se a passo solene em direção ao alvo e, depois de uma profunda reverência e de apresentar o arco e flecha como oferenda sagrada, coloca uma flecha, levanta o arco, estira-o e, num estado de intensa vigília, permanece esperando”. Portanto, o real objetivo do arqueiro é unir o consciente com o inconsciente.

Ao se apropriar, deslocar, recortar e resignificar a imagem do mapa do Brasil numa representação cartográfica dos aspectos geográficos, naturais, culturais, delimitados por elementos físicos da nossa história, as obras da artista, delicadamente, nos colocam em vigília. A fim de que, exortando cordialmente a seguir mais longe, em horizontes próprios e novas narrativas históricas, mas pensados a partir da singular configuração geopolítica, sejamos colocados no interior da mandala, em estado de travessia. Tal como o samurai, a artista Dilma aprendeu, graças à limpidez, a penetrar, como que deslizando suavemente, na essência da esfera: sua obra fala com muita força para quem nela se encontrar. Como um todo, conta algo por meio da junção ou da sobreposição de tramas produzidas pela própria matéria, tanto do tecido quanto do papel ou de qualquer outro material que lhe cai às mãos. Juntando uma coisa à outra, ou entre elas, é um círculo que se apresenta: o Cosmo. A obra da artista têxtil Dilma Góes não só reflete o significado do símbolo, mas também, especialmente, tece esperanças.

Mapa – Foto: Arquivo de Neusa Mendes.

A utopia, em certo sentido, é algo subjetivo, pessoal e que não é possível transferência.

Então, para que serve a utopia? A resposta é simples: a fantasia, o devaneio, a ilusão e o sonho estão centralizados e urdidos ao caminhar de Dilma Góes. Ela decide criar a sua própria paisagem, tramada e impregnada de histórias que escorregam pelas linhas do imaginário. Comentam e reclamam vida e desejos. Na verdade, as obras são fábulas, constroem metonímias de desejo.

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