n° 49 – Ano XVII – Março de 2019  →   VOLTAR

Artigo

As ninfas voam no Museu da Escola Catarinense da UDESC

Cristina Brattig Almeida materializou suas esculturas como NEPHELE, por ser uma ninfa das nuvens. NEPHELE também é o nome de uma espécie de mariposa atraída pela luz.

Sandra Makowiecky – ABCA / Santa Catarina

Cristina Brattig Almeida. NEPHELE ( FRAGILE). 2018. Visão parcial da instalação que ocupa cerca de 19 m2, com um mínimo de 460 cm de pé direito. O conjunto tem peso total aproximado de 80 Kg. Nove esculturas de cerâmica modeladas a mão, usando-se cerâmica escultórica de alta resistência, de origem canadense, cada uma medindo cerca de 16 cm (largura) x 18 cm (altura) x 70 cm (comprimento), e pesando cerca de 3,5 Kg cada. As peças tem todas 2 ou 3 pontos para fixação de cabos de aço: um no peito e um ou dois nos pés. Composição da instalação : uma estrutura desmontável de ferro do tipo “Grid”, medindo 250 x 370 cm, uma cortina branca com 380 cm de largura e 445 cm de altura e duas cortinas brancas com 5 m de largura e 445 cm de altura, 9 lâmpadas incandescentes de LED, cabos de aço e fixadores para cabos de aço, parafusos, ganchos de ferro e fixadores de plástico (para fios elétricos). Fotografia: Thiago Eriksson.

A escultora Cristina Brattig Almeida apresenta suas ninfas na instalação realizada no Museu da Escola Catarinense da UDESC, em Florianópolis, com abertura em dezembro de 2018 e curadoria de Sandra Makowiecky. O que são Ninfas? No que reside sua potência? Etimologicamente, a palavra ninfa deriva do grego nýmphê, que significa “noiva”. Existem várias outras classificações de ninfas que, de acordo com a mitologia grega, representam a personificação de elementos particulares da natureza. Ao contrário dos deuses, as ninfas não são criaturas imortais, mas podiam viver por milênios, mantendo sempre o aspecto jovial e belo. Nos relatos dos poetas e artistas gregos, as ninfas são descritas sempre como mulheres jovens que usam vestidos leves ou transparentes, com cabelos longos, sejam eles soltos ou em tranças. Ninfa é conhecida como a divindade que habita os lagos, florestas, bosques, rios, montanhas e demais ambientes da natureza, de acordo com a mitologia grega. As ninfas são a personificação da fertilidade da natureza e, por este motivo, são representadas sempre por seres do sexo feminino e são classificadas em diferentes classes, de acordo com o ambiente onde habitam e os seus hábitos. Cristina materializou suas ninfas como NEPHELE, por ser uma ninfa das nuvens. NEPHELE também é o nome de uma espécie de mariposa, atraída pela luz. Diz que quando desejou fazer essas imagens, não pensou objetivamente em nada, apenas as via dançando em sua frente. O que vemos é a objetivação de uma subjetividade. Completando seu pensamento, expressou que “as nuvens estão constantemente presentes em nossas vidas, são imperceptíveis na maioria das vezes, mas presentes. Como as figuras de ninfa, balançam lentamente, cada uma no seu ritmo,  em todas as direções. Dançam, como um ballet coreografado pela natureza. Não se deixam abalar. Carregam emoções do mundo, e por vezes são tantas, que precisam num ato de fúria serem esvaziadas, para começarem tudo de novo”. A imagem da ninfa revela-se na sua permanente e obsessiva presença em vários estudos, autores, artistas. A ninfa, imagem-sintoma que sobrevive e retorna, do mundo antigo para o século XXI, mostra sua potência, pois o sintoma pode ser definido como “um evento que reúne símbolos contraditórios, que ‘montam’ uns com os outros as significações opostas, […] que coloca em crise os regimes habituais de representação e de símbolo” (DIDI-HUBERMAN, 2008, p. 10). Vemos nas ninfas, a fascinação da artista pela figura feminina “aérea e ágil”, em seu direito a movimentos sem restrição e na reivindicação do uso de roupas livres, leves, folgadas. Talvez estas imagens tragam  tudo o que a artista não diz,  esse universo mudo que nos acompanha, e que à luz do presente desenha sua marca. Por outro lado, se as ninfas surgiram como imagem – sintoma, sem uma exata premeditação ou ato plenamente consciente, a montagem da instalação foi consciente. Desejava a artista que a figura, que representa uma unidade, parecesse como num filme em slow motion: quadro a quadro evoluído na sua trajetória e na sua forma. Podemos então imaginar cada uma das figuras como um desses quadros, em que, para  dar ideia do movimento, da evolução, a posição dos braços e pernas foram sendo modificadas a cada nova ninfa. Além disso, foram realizadas variações nas cores, nas mãos e sobretudo nas cabeças. Percebam que ela, a ninfa, inicia a sequência nua ou quase nua, e termina com um penteado sofisticado. Podemos entender como uma metáfora, significando mudança e transposição. A figura perde sua “vestimenta colorida”, abandona alguma casca, como a mariposa e ganha volume na cabeça, onde o movimento se torna mais retilíneo e  focado, assim como, cada vez mais no tom natural da argila. A última ninfa encerra em tons mais naturais.  O “ Tom Natural”, nome de uma música do grupo catarinense Expresso Rural, diz bem:

“Tom natural é viver como se nunca
Tão natural é viver como se já
Tom natural é te ter naturalmente
E de repente a gente sente que se amar é natural”.

Figura 1 da instalação. Cristina Brattig Almeida. NEPHELE ( FRAGILE). 2018. Escultura de cerâmica. Dimensões: cerca de 16 cm (largura) x 18 cm (altura) x 70 cm (comprimento). Peso cerca de 3,5 Kg. Fotografia: Thiago Eriksson.

Figura 9 da instalação. Cristina Brattig Almeida. NEPHELE ( FRAGILE). 2018. Escultura de cerâmica. Dimensões: cerca de 16 cm (largura) x 18 cm (altura) x 70 cm (comprimento). Peso cerca de 3,5 Kg. Fotografia: Thiago Eriksson.

“As ninfas também estão no espaço em forma de uma espiral, um redemoinho, rememorando a espiral da origem, da evolução…”

Ao conceber a instalação, a artista pensou na ideia de uma “redoma”, que se configura na cortina de pano branco. Esta redoma foi concebida como se fosse para protegê-las _ NEPHELE ( FRAGILE) _ ou de, por um momento, o espectador poder se distanciar do entorno para poder  entrar no seu próprio mundo, aquele da sua própria Nephele, pois cada um de nós tem a sua ou as suas próprias ninfas. As ninfas também estão no espaço em forma de uma espiral, um redemoinho, rememorando a espiral da origem, da evolução, voando em sentido horário, e no final da instalação voam da esquerda para a direita, recordando que para os antigos etruscos, quando os pássaros voavam da direita para a esquerda era um sinal de mau presságio! Assim, nesta instalação, o olhar deve se dirigir da esquerda para a direita indo em busca dos bons presságios. Vemos nesta instalação, um dos atributos mais fundamentais para uma autêntica irrupção da ninfa: o movimento.  A imagem das ninfas remete à metáfora da “imagem mariposa” desenvolvida por Didi-Huberman, na qual o autor defende um tratamento das imagens que respeite seu permanente movimento de abrir e fechar de sentidos, “a tentação e a aporia de um saber exaustivo sobre essas coisas frágeis e proliferantes que são as imagens e as mariposas” (2007, p. 10-11). Reconhecemos a força disseminativa da ninfa que permite que seja encontrada em toda parte num “jogo de transformações e metamorfoses” e que resiste a qualquer procedimento que intente atribuir-lhe um significado determinado. “O caminhar da ninfa convida, então, a não deixar estancar a imagem, mas sempre mantê-la em movimento” ( WEDEKIN, 2018). Ler os clássicos é também excelente complemento. Como diz Agamben ( 2012, p.29), “Nenhuma das imagens é original, nenhuma é simplesmente uma cópia. Nesse sentido, a ninfa não é uma matéria passional à qual o artista deve dar nova forma, nem um molde ao qual deve submeter seus materiais emotivos. A ninfa é um composto indiscernível de originalidade e repetição, forma e matéria. Porém um ser cuja forma coincide pontualmente com a matéria e cuja origem é indiscernível do seu vir a ser é o que chamamos tempo […]”.

REFERÊNCIAS:

AGAMBEN, Giorgio. Ninfas. São Paulo: Hedra, 2012.

DIDI-HUBERMAN, G. La imagen mariposa. Barcelona: Mudito & Co, 2007.

________La condition des images: Entretien avec Frederic Lambert et François Niney. Mediamorphoses, n.22, p. 6-17, 2008. Disponível em: http://documents.irevues.inist.fr/handle/2042/28239 Acesso em: 23/11/2018.

WEDEKIN, Luana. No caminhar da ninfa: Processos de potencialização e domesticação da imagem em Warburg e Panofsky. No prelo: Artigo apresentado na Anpap, 2018.

n° 49 – Ano XVII – Março de 2019  →   VOLTAR

Leave a Reply

ÚLTIMAS EDIÇÕES

Translate

English EN Português PT Español ES