Artigo

As mulheres têm presença pontual na história das artes plásticas

É incontestável para qualquer raciocínio desprendido de preconceito concluir que sempre houve mulheres cultural e socialmente importantes, profissionalmente competentes, além de intrépidas e heroicas…

Walter Miranda – ABCA/São Paulo

Seja nas artes, na política, na guerra, nas atividades culturais, religiosas, sociais, familiares etc., as mulheres estiveram presentes o tempo todo, mas são parcos os registros trazendo à luz seus nomes, suas características pessoais e detalhes de suas vidas profissionais.

Ao longo dos meus estudos e pesquisas, sempre ficou evidente a escassa frequência da mulher nos registros literários antigos sobre artes plásticas. Algumas vezes os textos biográficos sobre elas possuem características que podem ser consideradas educativas, mas também é possível encontrar textos que exaltam a qualidade de seus feitos.

A existência desses textos comprovam o respeito e admiração conquistados pela posição de destaque das mulheres mencionadas. Dessa forma, é possível usar um senso crítico contextualizado dentro das características históricas, culturais, regionais e temporais, para analisar os registros que chegaram até os nossos dias e deduzir alguns aspectos que possibilitam construir o “retrato falado” dessas heroínas. Meu interesse em pesquisar sobre a participação da mulher nas artes plásticas ao longo da história nasceu devido a uma das vicissitudes que a vida nos impõe e que nos leva a caminhos jamais planejados. Tem sido um longo e prazeroso caminho que já dura mais de trinta anos, mas que a cada nova artista descoberta me alenta a continuar a jornada com a certeza de que essa pesquisa será interminável, porém sempre apaixonante.

Considerando o evento comemorativo do Dia Internacional da Mulher, no dia 8 de março, aproveito para mencionar alguns dos registros históricos que encontrei e que abordam a participação feminina no exercício das artes plásticas. Reafirmo que devido à questão sexista milenar, a existência e sobrevivência desses textos, por si só, comprova a importância da mulher ao longo da história ao sobrepujar constantemente tantos preconceitos, injustiças e tentativas de torná-las invisíveis socialmente .

História Natural de Plínio – Edição de 1857 Imagem em domínio público.

O primeiro relato que temos sobre mulheres artistas é de Plínio, o velho (Caius Plinius Secundus, 23 ou 24-79)1. Na enciclopédia de 37 volumes intitulada Historia Natural, ele relata brevemente as atividades e a competência profissional de cinco ou seis pintoras. A questão numérica e os nomes das pintoras na Grécia Antiga mencionadas por Plínio foram publicados no Jornal Arte & Crítica da ABCA, nº 53 em março de 20202.

“Embora em algumas situações Clemente tenha o propósito educativo e doutrinário, ele coloca a mulher em condições de igualdade com o homem ao enaltecer algumas personagens vitoriosas consideradas como exemplos…”

Clemente de Alexandria (c. 150 – c. 215), escreveu o texto A Mulher, Assim Como o Homem, é Capaz de Perfeição3, em que cita a existência de duas pintoras gregas4. Embora em algumas situações Clemente tenha o propósito educativo e doutrinário, ele coloca a mulher em condições de igualdade com o homem ao enaltecer algumas personagens vitoriosas consideradas como exemplos.


Bocaccio de Claris Mulieribus – Edição de 1539. Imagem em domínio público.

Em 1361, Giovanni Boccaccio (1313-1375), publicou o livro De Claris Mulieribus – Mulheres Famosas abordando biografias de mulheres de diferentes condições sociais e profissionais desde a antiguidade. Para mencionar as pintoras da Grécia antiga, ele usou Plinio como referência e afirmou que a pintora grega Timarete, ou Thamyris, desprezou os deveres femininos para exercer a profissão do pai5. Entretanto, não encontrei a fonte de onde ele tirou essa informação. Real ou não, é importante notar que Bocaccio estava valorizando a mulher em uma época em que ela tinha muitas limitações para exercer atividades sociais.

Cristina da Pizzano (1363-1430) foi uma filósofa, poeta e educadora italiana que publicou vários livros sob sua orientação profissional. Como editora de livros na França sob o patrocínio da realeza, ela contratava artistas homens e mulheres e fez questão de enfatizar a qualidade excepcional do trabalho da francesa Anastaise (Anastasia) (c. 1380) pintora de iluminuras, especialista em decorar bordas, flores e paisagens6. Além disso, em 1405, Cristina escreveu e publicou o livro Le Livre de la Cité des Dames – A Cidade das Damas que exerceu forte influência cultural e social nas décadas vindouras por ser um libelo à causa das mulheres. Nele ela apresenta mulheres independentes vivendo em uma cidade utópica, livres do jugo masculino e protegidas por três damas: a Razão, a Retidão e a Justiça.

Em 1528, Baldassare Castiglione (1478-1529), diplomata, escritor e soldado italiano publicou o livro Il Libro Del Cortegiano – O Livro do Cortesão onde apresenta vários exemplos de como agir cortesmente em público e socialmente7. Para ele, homens e mulheres deveriam saber cantar, tocar instrumentos musicais, pintar e escrever poesia. O livro se tornou muito popular e influente sobre famílias nobres ou abastadas durante décadas e isso facilitou às mulheres o acesso ao estudo da pintura.

Varia Historia de Sanctas… Edição de 1583. Imagem em domínio público.

Em 1583 Juan Pérez de Moya (c. 1512-1596), matemático e escritor espanhol publicou o livro Varia Historia de Sanctas e Illustres Mugeres en Todo Género de Virtudes, uma compilação de vários autores em que menciona mulheres que se destacaram ao longo da história em vários campos das atividades humanas. Entre santas, médicas, inventoras, filósofas, escritoras, músicas etc., ele menciona as pintoras mencionadas por Plínio e outras mais contemporâneas de sua época8.

Percebendo que a obra de Giorgio Vasari (1511-1574) Vite de’ Più Eccellenti Pittori Scultori e Architetti – Vidas dos Maiores Pintores, Escultores e Arquitetos (mais conhecido como Vida dos Artistas), não abordava a produção artística Veneziana, em 1648, o pintor e biógrafo italiano Carlo Ridolfi (1594-1658) publicou em dois volumes a obra Le Maraviglie dell’Arte overo, Le Vite degli Illustri Pittori Venetti e dello Stato  – As Maravilhas da Arte ou a Vida dos Ilustres Pintores Venezianos e do Estado contendo a biografia de vários artistas de Veneza, entre eles algumas pintoras9.

Feltina Pittrice – Edição de 1678. Imagem em domínio público.

Em 1736 e 1740, o padre português João de São Pedro (1692-17?), sob o pseudônimo de Damião de Froes Perim, publicou as duas edições do livro Theatro Heroino, Abcedário Histórico e Catálogo das Mulheres Illustres em Armas e Letras, Acçoens Heroicas e Artes Liberales. Nele Damião menciona a pintora portuguesa Rosa Maria Clara de Lima e a pintora Rita Joanna de Souza, esta brasileira nascida em Olinda, Pernambuco11. Rita é considerada a primeira pintora brasileira de que se tem conhecimento e foi mencionada pela primeira vez por Diogo Manoel Ayres de Azevedo (?) em seu livro publicado em 1734 Portugal Illustrado Pelo Sexo Feminino, Noticia Historica de Muitas Heroinas Portuguesas que Florecerão em Virtudes, Letras e Armas.Em 1678, o pintor, antiquário e colecionador bolonhês Carlo Cesare Malvasia (1616-1683) publicou o livro Felsina Pittrice, Vite de Pittori Bolognesi – Pintura Etrusca, Vida dos Pintores Bolonheses. Seguindo a tradição Vasariana, a publicação composta em dois volumes10 aborda a vida de pintores e pintoras ativos entre os séculos XIII e XVII na Região da Bolonha. Curiosidade: Felsina é o antigo nome Etrusco da região da Bolonha.


Theatro Herorino… Edição de 1740. Imagem em domínio público.

Em 1742, o pintor, historiador e escritor italiano Bernardo de’ Dominici (1683 – c. 1759) publicou em três volumes a coleção biográfica que cita várias pintoras, Vite de’ Pittori, Scultori, ed Architetti Napoletani – Vida de Pintores, Escultores e Arquitetos Napolitanos12.

Estimulado pela tradição Vasariana, o historiador italiano Rafaello Soprani (1612-1672) escreveu a coleção biográfica em dois volumes, Vite de’ Pittori, Scultori ed Architetti Genovesi – Vida dos Pintores, Escultores e Arquitetos Genoveses13, que foi publicada somente dois anos após seu falecimento e republicada em 1768. Rafaello cita várias artistas mulheres.

“Ao estudar a história das mulheres artistas, percebo nitidamente a influência positiva e construtiva que elas causaram nas relações humanas e tenho certeza de que mesmo aquelas que foram excluídas dos registros oficiais tiveram grande importância para o desenvolvimento do conhecimento atual, seja ele empírico, teórico, filosófico, religioso, cultural ou artístico…”

Em 1859, a poeta, historiadora e escritora Elizabeth Fries Lummi Ellet (1818-1877), autora de alguns livros e textos abordando a importância da mulher, publicou o livro Women Artists in All Ages and Countries – Mulheres Artistas em Todas as Épocas e Países14. O livro é resultado de uma pesquisa profunda executada por Ellet especificamente sobre a produção artística feminina.

Finalizando a lista menciono a obra do editor e escritor Walter Shaw Sparrow (1862-1940) Women Painters of the World – Mulheres Pintoras do Mundo, que aborda a pesquisa de vários autores15 sobre o trabalho de pintoras desde o século XV até o início do século XX.

Existem outros textos que tratam da importância da mulher ao longo da história, mas como minha pesquisa se atém às artistas, não há porque enumerá-los. Também encontrei outros textos relativos e mais recentes, mas não os mencionei porque são repetições dos registros apresentados aqui, sem contar algum que possa ter fugido ao meu conhecimento. O artigo escrito por Carla Avelino16 é uma boa fonte para quem se interessar em buscar referências bibliográficas de atividades femininas em outras áreas do conhecimento.

Ao estudar a história das mulheres artistas, percebo nitidamente a influência positiva e construtiva que elas causaram nas relações humanas e tenho certeza de que mesmo aquelas que foram excluídas dos registros oficiais tiveram grande importância para o desenvolvimento do conhecimento atual, seja ele empírico, teórico, filosófico, religioso, cultural ou artístico. Se no passado, elas romperam fortalezas, é importante reconhecer que ainda hoje existem barreiras a serem conquistadas, pois na luta incessante em prol de suas realizações pessoais elas enfrentam jornadas múltiplas para cuidar de si mesmas, do lar e da família. Nesse sentido, mesmo com as conquistas sociais obtidas por elas nas últimas décadas, ainda são poucos os companheiros que dividem de maneira equânime as tarefas da vida em comum. Espero ser um desses.

*Walter Miranda é membro da ABCA, artista plástico, professor de história da arte e técnicas artísticas (www.fwmartes.com.br).

Obs.: Todas as imagens estão em domínio público e foram digitalizadas por Walter Miranda.

 

REFERÊNCIAS:

1 PLINY, the Elder. The Natural History. Trad. John Bostock. Publ. Taylor and Francis, Red Lion Court. 1855, book 35, chap. 40; PLINY the Elder. Pliny’s Natural History. Trad. Harris Hackham. Publ. Harvard University Press 1949-54, book 35, chap. 40; MENDONÇA,  Antonio da Silveira. Seleção e tradução da Naturalis Historia de Plínio o Velho. CHAA – Centro de História da Arte e Arqueologia da Unicamp. Revista de História da Arte e Arqueologia, nº 2 – 1995/96; FABRIS, Annateresa. Plínio o velho: Uma História Material da Pintura. Locus revista de história v.10, nº2 pp 73-91, 2004.

2 MIRANDA, Walter. Mulheres nas Artes Plásticas Através dos Tempos. Jornal Arte & Crítica da ABCA, nº 53, março de 2020, e disponível em http://abca.art.br/httpdocs/mulheres-nas-artes-plasticas-atraves-dos-tempos-antiguidade-walter-miranda/.

3 CLEMENT, of Alexandria. Women as Well as Men Capable of Perfection. Ante-Nicene Christian Library: Translations of the Writings of the Fathers. Edinburgh. Book IV, pp. 193-6. 1859.

4 MIRANDA. 2020, op.cit.

5 BOCCACCIO, Giovanni. On Famous Women. Rutgers, The State University. Traduzido por Guido A. Guarino. p. 122. 1963.

6 PIZAN, Christine de. The Book of the City of Ladies. Penguin Books. pp. 5-240. 1999.

7 CASTIGLIONE, Baldassare,  Il Libro Del Cortegiano. pp. 13-246. 1528.

8 MOYA, Juan Perez. Varia Historia de Sanctas e Illustres Mugeres en Todo Género de Virtudes. pp. 321, 321ª, 322 e 322ª. 1583.

9 RIDOLFI, Carlo. Le Maraviglie dell’Arte overo, Le Vite degli Illustri Pittori Venetti e dello Stato. 1698.

10MALVASIA, Carlo Cesare. Felsina Pittrice, Vite de Pittori Bolognesi. 1678.

11 PERIM, Damião de Froes.  Theatro Heroino, Abcedário Histórico e Catálogo das Mulheres Illustres em Armas e Letras, Acçoens Heroicas e Artes Liberales. Tomo II. Lisboa Occidental. pp. 356-7. 1740.

12 DOMINICI, Bernardo de. Vite de’ Pittori, Scultori, ed Architetti Napoletani. Tomos I ao III. 1742

13SOPRANI, Rafaello. Vite de’ Pittori, Scultori ed Architetti Genovesi. Tomos I e II. 1768.

14ELLET, Elizabeth Fries Lummi. Women Artists in All Ages and Countries. Harper & Brothers Publishers. New York. 1859.

15SPARROW, Walter Shaw. Women Painters of the World. Hodder & Stoughton. London. 1905.

16 AVELINO, Carla. Resumo de: Portugal Ilustrado Pelo Sexo Feminino de Diogo Manuel Aires de Azevedo (Lisboa, 1734), tradição do género. Polissema, nº 10, Revista do Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto, Portugal.  pp. 83-97. 2010. Disponível em https://parc.ipp.pt/index.php/Polissema/issue/view/121

n° 57 – Ano XIX – Março de 2021 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

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