Artigo

ARTIVISMO PRETO
poética do isolamento de Guto Oca

Robson Xavier da Costa – ABCA/Paraíba

Que ativismo é esse?

Figura 01 – Guto Oca, Armado. Cabelo humano e barro (pigmento) sobre Eucatex – 0,57 x 0,36 – 2020. Foto: Guto Oca, 2020.

A maioria da população do Nordeste brasileiro é “Preta”, a maior concentração de brasileiros autodeclarados negros e/ou pardos, segundo os resultados da última Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi de nordestinos.

A proporção de brasileiros que se declaram pretos – grupo que, com os pardos, forma a população negra, de acordo com os critérios do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) – foi a única que cresceu em todas as regiões do país entre 2015 e 2018, segundo a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios). No Nordeste, que tem a maior proporção de pretos no país, a população deste grupo foi de 9,2% para 11,3% (2,1 pontos percentuais). (IBGE, 2019, s/p).A maioria da população do Nordeste brasileiro é “Preta”, a maior concentração de brasileiros autodeclarados negros e/ou pardos, segundo os resultados da última Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), foi de nordestinos.

No Nordeste brasileiro costumamos falar popularmente a palavra “preta” para designar a cor dos objetos, tintas, etc., usamos a palavra “negra” para designar a cor da pele quando nos referimos à “raça”, essas expressões são profundamente marcadas pelo “racismo estrutural” da sociedade patriarcal, branca e colonialista implantada na cultura brasileira e nordestina, que tem impregnado o comportamento social de gerações e definido atitudes racistas no cotidiano. Kabengele Munanga afirmou que:

Cada indivíduo humano é o único e se distingue de todos os indivíduos passados, presentes e futuros, não apenas no plano morfológico, imunológico e fisiológico, mas também no plano dos comportamentos. É absurdo pensar que os caracteres adaptativos sejam no absoluto “melhores” ou “menos bons”, “superiores” ou “inferiores” que outros. Uma sociedade que deseja maximizar as vantagens da diversidade genética de seus membros deve ser igualitária, isto é, oferecer aos diferentes indivíduos a possibilidade de escolher entre caminhos, meios e modos de vida diversos, de acordo com as disposições naturais de cada um. A igualdade supõe também o respeito do indivíduo naquilo que tem de único, como a diversidade étnica e cultural e o reconhecimento do direito que tem toda pessoa e toda cultura de cultivar sua especificidade, pois fazendo isso, elas contribuem a enriquecer a diversidade cultural geral da humanidade (MUNANGA, 2010).

Os processos colonizadores ocorridos no Brasil a partir da escravização dos povos africanos e posteriormente a “pseudo abolição da escravatura” de 1888, apenas reforçou os processos de aculturação sofridos pelas pessoas negras escravizadas no país, privadas dos direitos básicos e submetidas às maiores atrocidades e ao trabalho servil, que ao longo da história foram invisibilizadas pela sociedade brasileira e que formam a maioria da população que sobrevive à margem.

No Brasil o racismo estrutural se infiltrou em todas as camadas e instituições sociais, assumindo as mais diversas formas e atingindo todos os níveis de violências (física, atitudinal, ambiental, institucional, etc.) entrando nas residências, no cotidiano das famílias e nas instituições.

Nesse contexto de profunda desigualdade social e de luta política permanente para afirmação dos direitos dos diversos grupos étnicos no país, os movimentos sociais e políticos têm ganhado espaço e visibilidade, inúmeras ações institucionais foram efetivadas para tentar minimizar a lacuna histórica de séculos de dominação e de processos de exclusão do trabalho de artistas mulheres, neg@s, indígenas e da população LGBTQIA+, grupos sociais, que na maioria dos casos, representam ao mesmo tempo etnias e “minorias” socialmente marginalizadas[1].

Desde fevereiro de 2020 o planeta começou a ser acometido da pandemia do Covid-19, que chegou ao Brasil com mais intensidade a partir de março, o contexto do isolamento social que ainda estamos vivendo nos levou a refletir e repensar sobre o papel dos seres humanos no planeta, bem como, sobre a força da Arte para a manutenção da saúde mental da população.

Com a proibição das manifestações públicas e das exposições nos museus e instituições culturais o Artivismo político continuou com maior foco na esfera da vida privada e também com ampla circulação nas redes sociais via internet. O Artivismo digital foi ampliado e a internet passou a ser o cartão de visita da maioria dos enfrentamentos sociais por meio da Arte.

Guto Oca e o Artivismo Preto durante a pandemia

Durante o período de isolamento social o jovem artista visual afro-brasileiro Guto Oca[2], um paulista radicado em João Pessoa, Paraíba, desde 2011, continuou trabalhando nas suas composições pictóricas e nas temáticas utilizadas em seus objetos e instalações com temáticas ligadas aos conceitos de “daltonismo social” (ABREU, 2018) e “descolonização”.

Guto Oca utiliza em seu trabalho o daltonismo leve, do qual é portador, como metáfora para o apagamento da cor da pele negra, da exclusão, do preconceito, da invisibilidade, da marginalização do ser artista Negro no Brasil, buscando a ruptura com as inúmeras tentativas de apagamento da cultura afro-brasileira que advém da concepção colonialista e racista.

Pensar arte afro-brasileira exige, portanto, uma abertura às complexidades inerentes, desde a modernidade, ao campo da arte e às relações sociais envolvendo a problemática afro-descendente no país (CONDURU, 2007, p. 10).

O trabalho do Guto Oca que marcou o momento de transição e entrada no isolamento social foi “nunca fui santo” (figura 02), exposto na Coletiva Art in Progress realizada na Galeria Janete Costa, no Recife. A exposição foi aberta ao público no dia 13 de março 2020, período no qual o público ainda circulava sem restrições.

Figura 02 – Guto Oca, Nunca Fui Santo. Carvão vegetal, pregos, acrílica e pigmento natural sobre tecido – Dimensões variáveis – 2020. Foto: Guto Oca, 2020.

Nesse trabalho o simbolismo utilizado pelo artista partiu da imagem formada por um “toco”[3] de madeira queimado, encontrado durante a participação do artista no 2º Encontro de “partilha de reflexões sobre as artes, a luta, os saberes e os sabores do Quilombo de Conceição das Crioulas, Pernambuco/Brasil”, em novembro de 2019. Esse objeto guardado cuidadosamente foi uma relíquia dos restos de uma fogueira feita para partilha de histórias em uma das noites do encontro.O trabalho do Guto Oca que marcou o momento de transição e entrada no isolamento social foi “nunca fui santo” (figura 02), exposto na Coletiva Art in Progress realizada na Galeria Janete Costa, no Recife. A exposição foi aberta ao público no dia 13 de março 2020, período no qual o público ainda circulava sem restrições.

Acima do graveto queimado em formato de cruz o artista colocou um retalho de lona pintada com pigmento ocre, tingido com terra retirada do referido quilombo e escreveu a palavra “toco”. A força do trabalho espelha o encontro do artista com a realidade quilombola, com o isolamento voluntário naquele momento passando uma semana convivendo com a comunidade e aprendendo seus saberes partilhados de todas as formas com os visitantes (nas conversas, nas oficinas, nas refeições coletivas e no convívio durante a estadia na casa de moradores da comunidade) e durante o encontro com a força e resiliência das pessoas da comunidade.

Logo após a abertura da exposição coletiva, esse trabalho também entrou em quarentena, já que a Galeria Janete Costa foi fechada ao público e permanece assim até o mês atual (Junho 2020), sem previsão de reabertura. Após esse período Guto Oca passou a vivenciar os meses de isolamento social em família e durante esse período produziu uma série de trabalhos.

As séries produzidas durante o período de isolamento social abordam a identidade do artista confrontada com processos de silenciamentos, subserviências e imposições sociais que a população Negra tem sofrido historicamente.

No trabalho “Armado” (figura 01) Guto Oca fez do Dreadlock uma corda, uma espécie de funda que suporta um torrão de argila pigmentada e fixada sobre uma base de Eucatex. Este trabalho reclama os anos de servidão involuntária, o trabalho braçal e servil, a dominação de classes imposta pelos colonizadores. Seu silêncio é profundamente perturbador, a imagem provoca reflexão e enfrentamento, é um ato político afirmativo da força e resiliência da Arte Preta.

O trabalho intitulado “daltonismo racial” (figura 03) abre uma fenda na ferida, ao confrontar representações de rostos de homens negros seguidos das palavras “tranquilo”, “calmo”, “sereno” e “pacífico” em lonas pintadas com cores chapadas, essas são atitudes que as classes dominantes esperam da população marginalizada, resultando no conformismo e adequação social dos dominados.

Figura 03 – Guto Oca, Daltonismo racial (políptico). Óleo e acrílica sobe tecido – 0,48 x 0,53 (cada) – 2020. Foto: Guto Oca, 2020.

No trabalho “miopia racial” (figura 04) o artista fez uma analogia ao funcionamento irregular da retina, que impede as pessoas de enxergarem nitidamente à distância, remetendo a sua dificuldade ao lidar com as cores como daltônico e a invisibilização da cor da pele dos grupos não hegemônicos.  A frase escrita na altura do nariz do rosto da figura, que apenas destaca a boca no fundo cinza e banco, faz alusão ao apagamento como uma bandeira em homenagem a luta e resistência.

Figura 4 – Guto Oca, Miopia racial. Óleo e acrílica sobre tecido – 0,35 x 0,47 – 2020. Foto: Guto Oca, 2020.

Guto Oca vem utilizando Dreadlocks para confeccionar alguns dos seus trabalhos, a partir da doação de cabelos humanos pelos amigos, que são trançados pelo artista, formando a matéria central de objetos e instalações.

O trabalho “Crioulas” (figura 05) é uma alusão direta ao convívio do artista com as mulheres da Comunidade Quilombola de Conceição das Crioulas, em Salgueiro, Pernambuco. A presença marcante das lideranças femininas no Quilombo foi representada por meio de Dreadlocks que se unem formando um tríptico. A imagem é sacra e pode ser interpretada como uma representação da trindade Òbatálá, Èsu e Òrúnmìlá[4] do Candomblé.

Figura 05 – Guto Oca, Crioulas (tríptico). Cabelo humano e acrílica sobre Eucatex – 0,57 x 0,36 (painéis) – 2020. Foto: Guto Oca, 2020.

 
Figura 06 (esq.) – Guto Oca, Pintura Sarará. Mista sobre tecido de algodão – 0,65x 0,50 – 2020. Foto: Guto Oca, 2020. Figura 07 (dir.) – Guto Oca, Pintura Sarará. Mista sobre tecido de algodão – 0,65x 0,50 – 2020. Foto: Guto Oca, 2020.

Em outros trabalhos os Dreadlocks pintados viram plantas, vagens e/ou raízes, as cores que dividem o tecido torna-se linhas do horizonte, na Série “Pintura Sarará” (figuras 06 e 07) o artista faz paisagens carregadas de símbolos, o pé, figura recorrente no trabalho do artista, aparece na terra, servindo de base (raiz) para os Dreadlocks que lembram cactos e também vagens, ambos são alimentos, frutos do suor e do trabalho manual, o título “sarará” faz referência ao cabelo crespo, à presença negra no trabalho, a discriminação e as raízes ancestrais.

Figura 08 – Guto Oca, Alvo. Cabelo humano sobre tecido – 0,80 x 0,47 – 2020. Foto: Guto Oca, 2020.

Os Dreadlocks utilizados pelo artista como símbolos de identidade, de marca étnica, de identificação, de resistência, em “Alvo” (figura 08), aparecem como referências diretas às marcas temporais e históricas de sofrimento e resiliência, de dores, extermínio físico e simbólico sofrido por séculos e ainda presentes no racismo transversal e estrutural que permeiam a sociedade brasileira, tornando-se um grito de resistência, uma marca de luta, um Artivismo Preto.

 

Referências

ABREU, Márcio de. O efeito negro encantado: representações étnico-raciais na era Obama. São Paulo: Martins Fontes, 2018.

BRASIL. IBGE. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/18282-populacao-chega-a-205-5-milhoes-com-menos-brancos-e-mais-pardos-e-pretos. Acesso em: 27/06/2020.

CONDURU, Roberto. Arte Afro-Brasileira. Belo Horizonte: C/Arte, 2007.

MUNANGA, Kabengele. Uma abordagem conceitual das noções de raça, racismo, etnia e etnicidade. In: Inclusão Social: um debate necessário. Disponível em: https://www.ufmg.br/inclusaosocial/?p=59. Acesso em: 27.06.2020.

OLAIGBO, Odé. A trindade de Obàtálá, Èsù e Òrúnmìlá. Disponível em: https://ocandomble.com/2014/04/11/a-trindade-de-obatala-esu-e-orunmila/. Acesso em: 29.06.2020.

[1] Entre as quais destaco: A criação em 2004 do Museu Afro Brasil, no Parque do Ibirapuera em São Paulo, a partir da doação do acervo do Curador Emanuel Araújo, composto por obras de artistas afro-brasileiros e africanos do século XVIII até a contemporaneidade e vinculado desde 2009 a Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo, contando com um acervo com mais de 6.000 obras e uma biblioteca com mais de 12.000 títulos, foi uma das maiores e mais significativas iniciativas públicas para o reconhecimento da arte afro-brasileira. Site: http://www.museuafrobrasil.org.br/ e a Exposição Histórias Afro-Atlânticas, organizada pelo Museu de Arte de São Paulo (MASP) e pelo Instituto Tomie Othake, com uma seleção de 450 trabalhos de 214 artistas, do século 16 até o século 21, apresentando os fluxos e refluxos entre África, Américas, Caribe e Europa. Considerando que o Brasil recebeu em torno de 11 milhões de african@s escravizados ao longo de mais de 300 anos e foi o último país a abolir a escravização com a Lei Áurea de 1888. Site: https://masp.org.br/exposicoes/historias-afro-atlanticas.

[2] Guto Oca é um jovem artista visual natural de São Paulo – SP (1981), residente em João Pessoa desde 2011, onde desenvolve sua produção artística. É graduado em pedagogia pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e mestrando em Artes Visuais pela mesma instituição.

[3] Toco – expressão popular para descrever um graveto ou galho vegetal.

[4] A trindade constituída de Obàtálá, Èsù e Òrúnmìlá exemplifica, no plano filosófico, o provérbio Yorùbá em que a tríplice garante a estabilidade. No esforço para esta estabilidade filosófica o homem foi ensinado pelo oráculo de Ifá a observar a retidão ética de Obàtálá, alegar o elemento imprevisível da vida representado por Èsù e confrontar os problemas com a sabedoria de Òrúnmìlá. Fonte: OLAIGBO, Odé. A trindade de Obàtálá, Èsù e Òrúnmìlá.Disponível em: https://ocandomble.com/2014/04/11/a-trindade-de-obatala-esu-e-orunmila/. Acesso em: 29.06.2020.

n° 55 – Ano XVIII – Setembro de 2020 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

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