Reflexões

Arte é momento e sentimento fluindo, antes de ser captada pela técnica

No tempo e nos espaços geográficos ela tem sido discutida em inúmeras interpretações. A arte teria que desvendar o que a arte faz?

César Romero – ABCA/Bahia

Existem questionamentos em arte que envolvem uma complexidade enorme de vetores. Como surgiu a arte? Em que consiste e seu objetivo real? Quais as missões de um artista criador? Os conceitos ao longo das décadas são variados e, algumas vezes, distintos. No tempo e nos espaços geográficos ela tem sido discutida em inúmeras interpretações. A arte teria que desvendar o que a arte faz? Qual sua tarefa básica e em que circunstância interfere na consciência humana? Possivelmente estaria determinada ao conhecimento da existência concreta da humanidade, distanciando-a de realidades triviais, e ser um meio de comunicação entre pessoas, com uma linguagem singular. A comunicabilidade entre estas pessoas é um guia para o que virá se estabelecer. Uma arte de essência natural não tem vícios de um mundo objetivo ou verdades absolutas. Assim seu produto conclusivo pode superar a ideia inicial. As metodologias de cada artista, as técnicas e saberes estão sempre em constante evolução. O que era para ser, não foi, desembestou pelo inusitado e toda argumentação sofreu uma metamorfose tornando o todo, diferente do protótipo. A arte surpreende e é capaz na arquitetura do momento, ser tradução posterior ao esperado. O elemento surpresa é endógeno à arte, é a rebeldia do quase, cenas anexas à formação do olhar.

“Arthur Bispo do Rosário (1909-1989), viveu por mais de 50 anos na Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro. Tinha o diagnóstico de esquizofrenia paranoide. Entre estados de lucidez, delírios e alucinações, criou uma obra originalíssima.”

A arte é momento e sentimento fluindo, antes de ser captada pela técnica. O fazer é posterior a ideia movente. Ele fixa, mas a obra continua reprocessando singularidades. As ideias podem trazer uma imagem e esta imagem outros significados. A carga simbólica é imaterial, meditativa e no que nela se reflete. A contemplação e conclusões de um indivíduo podem ser de frontal incompreensão para outros. Dependem de seus sistemas de pensamentos, crenças, ilusões e enganos. Mas isto não nega o impulso criativo das diferenças. Em certos instantes confluem num paralelismo ilusório, que se transformam em elementos que formatam uma imagem artística, independente da realidade, motivando uma contradição. A contradição é feitio básico de tudo que é real. A arte tem um caráter fictício, transcendendo a realidade objetiva. Nossos sistemas de crenças podem ter desvios no pensamento científico, e abrir brechas para estranhamentos e ativações comprometidas dos órgãos dos sentidos.

Arthur Bispo do Rosário (1909-1989), viveu por mais de 50 anos na Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro. Tinha o diagnóstico de esquizofrenia paranoide. Entre estados de lucidez, delírios e alucinações, criou uma obra originalíssima. Produzia com materiais simples, vindos do lixo, da sucata. Quando descoberto foi elevado pela crítica como um dos ícones vanguardistas do Brasil, comparado a Marcel Duchamp, que ele nunca conheceu. Seu programa teórico: “estou me preparando para o dia do Juízo Final”. Criou o Manto da Apresentação, sua obra prima. Quais os limites entre a insanidade e a arte? Neste caso a insanidade era destino e força matriz.

A ciência busca trabalhar com verdades absolutas, e a crítica de arte não é uma ciência. Têm seus sinais e sintomas, que dá legitimação ao exercício do trabalho. A dialética abre espaço para a análise dos opostos assim, sujeito e objeto, crítico e arte, confluem para possibilidades de investigações.

É necessário que os artistas se unam, se juntem e se entendam. Seria possível um centro de criação, estudo e pesquisas que ultrapasse as barreiras das vaidades? E que a competição se transformasse em cooperação?

Como está se dando a ocupação dos poucos espaços expositivos na Bahia? A cultura necessita de apoio imediato aos espaços já existentes e ainda a criação de escolas não protocolares de arte, colaborando para o sistema de ensino-aprendizagem. Estimular o ato criador, valorizá-lo como um ganho social é o que se busca com uma educação através da arte. A marca existencial contemporânea busca um sentido para que a arte exerça sua função no mundo, modificando e aperfeiçoando a consciência. O conceito de capital social na arte estabelece laços de credibilidade interpessoal, trocas de saberes, ajuntamentos de forças produzindo um bem coletivo.

n° 55 – Ano XVIII – Setembro de 2020 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

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