n° 50 – Ano XVII – Junho de 2019 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

Artigo

Arte Contemporânea e a diversidade das interpretações

Estamos ligados pelas incertezas com o desmoronamento da metafísica e das críticas ao euro centrismo, longe daquelas preocupações metafísicas do fato econômico, político…

Neide Marcondes – ABCA / São Paulo

Neste mundo de liquidez e incertezas, mundo líquido de Bauman (2012) mas também de ambições de Retrotopia (2017), nesta Sociedade do Cansaço (Hans, 2019) estamos em meio de um giro transdisciplinar, de intermédias e globalização. Estamos ligados pelas incertezas com o desmoronamento da metafísica e das críticas ao euro centrismo, longe daquelas preocupações metafísicas do fato econômico, político.

Passa-se então dos estudos de culturas locais e nacionais a processos de interculturalidade e transnacionalidades, sem esquecer a inventividade glocal (Martins, 2011).

Neste texto, um chamamento, um alerta sobre um episódio e acontecimento que sucedeu quando na apresentação em Congresso de Artes no exterior´, sobre artistas e trabalhos expostos no Museu de Escultura e Ecologia  MubE em 2018. Manifestações xenofóbicas eclodiram quando o artigo foi apresentado sobre Novos Viajantes: Amazônia. A apresentação da exposição sobre assuntos relacionados ao norte do Brasil levantou situações autoritárias.

Um alerta aos críticos, estudiosos de arte contemporânea sobre a negação e não aceitação de novas narrativas e, portanto, novas interpretações da pluraridade de trabalhos estrangeiros e mesmo o repúdio às manifestações artísticas extra regionais.

A obra de Nestor Canclini (2012) em El mundo Entero como Lugar Extrano ressalta o deslocamento do artista do homem sem a dominação dos chamados legítimos sem a contestação de saturação de plágios e cópias destruidoras e sim da arte expandida. Artistas que situam suas obras em eventos quando abrem novas interpretações (Marcondes; Martins 2018).

“A mostra no Museu de Escultura e Ecologia- MUBE em São Paulo, Brasil, teve curadoria de Cauê Alves e da bióloga Lúcia Lohmann, esteve aberta para visitação de maio a julho de 2018…”

Nesta arte atual muitos artistas escolheram como assunto – objeto o barco. Em significativas instalações entre os vários artistas Guillermo Galindo que na última Documenta Kassel instalou em espaço desta Documenta uma instalação com restos de barcos. O artista mexicano Galindo, nascido em 1960, fez um rapto da história. Coletou restos de madeira, fibras, fios, correntes, tubos de barcos de refugiados de Lesbos, Grécia. Elaborou no edifício Documenta Halle, instalação altiva que possibilitou visão espacial de várias vistas; partes de barcos, que suspensas e em cores fortes recebeu o título, que traduzido do alemão, Corpo de Eixo Serial de Alvo Rápido. O artista, arquiteto, compositor e intérprete trabalhou em partituras musicais e executou-as em performance, nos instrumentos por ele construídos, de corda, sopro e percussão, com elementos retirados dos escombros dos barcos (Figuras 1 e 2). Galindo já se apresentou em museus e galerias de várias partes da América Europa e África.

Figura 1. Instalação Corpo de Eixo Serial de Alvo Rápido, Guillermo Galindo, Kassel. Fonte: Neide Marcondes.
Figura 2. Instalação Corpo de Eixo Serial de Alvo Rápido, Guillermo Galindo, Kassel. Fonte: Neide Marcondes.

A mostra no Museu de Escultura e Ecologia- MUBE em São Paulo, Brasil, teve curadoria de Cauê Alves e da bióloga Lúcia Lohmann, esteve aberta para visitação de maio a julho de 2018. Destacaram-se dois artistas contemporâneos, Maurício Adinolfi e Fernando Limberger, que se evidenciaram com suas grandes instalações.

O primeiro, paulista nascido em 1978, vive em São Paulo, capital e no litoral. Artista plástico, com pós-graduação, com formação em filosofia atua como educador ativista. Suas obras interferências e instalações assim como desenhos e pinturas evidenciam suas ideias, propósitos e preocupações com a natureza e pessoas. Entre suas exposições no Brasil e exterior constam: Calado do Cais, Livro-Barco e Projeto UltraMar (Figura 3). Na intervenção Calado do Cais de Maurício Adinolfi elaborou projeto que consistiu na experiência de trabalhar diretamente com os remanescentes construtores navais de barcos de madeira da praia do Perequê no Guarujá, São Paulo. Buscou na força desse material ressignificar esse ato e contrapor essas embarcações e sua história à expansão portuária e à escala das grandes embarcações. O artista maneja objetos semidestruídos, no caso barcos de pescaria, joga com estas formas e faz instalações de uma modernidade de instigante sinceridade e preocupação. As instalações foram elaboradas como aglutinadoras de ideias e questões atuais.

Figura 3. Fonte: Neide Marcondes.

A exposição destas obras fez eclodir a ideia absurda e ignorante de plágio na arte Contemporânea. Assim a instalação de Ai Weiwei exposta em vários pontos das comunidades artísticas sobre embarcações dos refugiados também é considerada plágio? O artista transnacional, arquiteto, poeta e urbanista participou, entre outras de mostras, da Documenta de Kassel, Gallery Londres e recentemente no espaço Oca São Paulo, Brasil. Para o artista, participamos de uma sociedade criativa e precisamos produzir outras realidades (Ai Weiwei, 2018). Em pesquisa nos mais variados temas ressalta a natureza e pessoas. Esteve em pesquisas no norte do Brasil em florestas e tribos indígenas. Entre as múltiplas instalações, a Barca de Refugiados coloca sua obra no lago do Ibirapuera   São Paulo, traduzindo assim sua preocupação sobre o assunto.

O filósofo italiano Omar Calabrese (1995) em sua obra A idade neobarroca já salientou o conceito de distopia do passado que elabora o tema de deslocamento que consiste em atribuir ao que já foi desvelado uma significação a partir do presente. As citações de outras obras criam o papel de estabilizar a ideia. Uma distopia do passado que perverte valores cognitivos, causa-efeito, reconstrução, nostalgia saudável.

Em El Retorno del Pêndulo, Bauman e Dessal (2012) discorrem sobre o tema entre assuntos para analisar uma realidade poliédrica cujo resultado é pendular na cultura mundial.

“Artistas contemporâneos abrem com suas obras, histórias com seu mundo, uma geografia de interpretações vivas e atuais…”

Nesta Bienal de Veneza 2019 o artista suíço-islandês Christoph Buchet instala no espaço Arsenale O Barco da Tragédia, uma relíquia da tragédia humana. Uma das maiores catástrofes humanitárias globais ocorridas na atual crise migratória. Também como o mexicano Guilermo Galindo expõe um monumento de tragédia.  Um número enorme de refugiados, principalmente da Síria e de várias outras regiões de conflito, tentou escapar dos horrores e atrocidades em seus países nativos. Em seu caminho para a liberdade, eles foram expostos a um sofrimento escandaloso que se estendeu de chantagem, exploração, espancamento, estupro, fome e, infelizmente, as baixas foram muitas; como muitos navios no mar Mediterrâneo estavam afundando e as pessoas estavam morrendo da maneira horrível.

A fim de marcar o evento Bienal de Veneza e questionar a questão da responsabilidade, humanidade e outras questões importantes de uma perspectiva política distinta, o artista suíço-islandês Christoph Büchel apresenta sua instalação chamada Barca Nostra (Figura 4), para o qual ele expõe o naufrágio de 2015 durante a Bienal de Veneza deste ano.

Figura 4. Instalação Barca Nostra de Christoph Büchel, Bienal de Veneza, 2019 Fonte: Neide Marcondes.

Christoph Buchel trabalhou em muitas instalações e esculturas para o chamamento da destruição de objetos, pessoas e da natureza.  Em relatos fortes, mas sem nada acrescentar sobre os acidentes, reanima formas, acrescenta objetos em significação artística, mas contestatória (Figura 6).

Figura 5 e 6. Expoarte e Design Milão 2014 de Christoph Buchel, Itália. Fonte: Neide Marcondes.

No estudo da arte contemporânea, atenção aos achismos, à visão xenofóbica, ao timotismo (Sloterdjik, 2012), aos embotamentos que devem ser revistos e extintos para se perceber que estamos em uma nova era que investe na deslegitimação da ira, no desdobramento de novas viagens, nas alteridades e no pensamento descolonial. Deixar as obras do desenho imperial e monotópico imposto pelas amarguras civilizatórias geradas pela violência das enfermidades dos neurônios. Está na hora, segundo Maffesoli (2016) de deixar os denunciadores, os moralistas que agitam com suas ideias canônicas enraizadas no teimoso viver-próprio da sua socialidade de base.

Artistas contemporâneos abrem com suas obras, histórias com seu mundo, uma geografia de interpretações vivas e atuais. As instalações foram elaboradas como aglutinadoras de ideias e questões desta contemporaneidade orgiástica globalizada e de diagnóstico-prognóstico do que está por vir.

 

REFERÊNCIAS

BAUMAN, Z.  Arte?Liquido?. Madri: Sequitur, 2012

BAUMAN, Z.  Retrotopia.  São Paulo: Zahar, 2017

CALABRESE, O. A Idade Neobarroca. Lisboa: Edições70, 1995.

CANCLINI, N. A Sociedade sem Relato: antropologia e estética da iminência São Paulo: Edusp, 2012.

HAN.B-C. Sociedade do Cansaço. Petrópolis, Vozes, 2019.

MAFFESOLI.M.A ordem das coisas – Pensar a pós-modernidade. Rio de Janeiro: Editora Forense Universitária, 2016.

MARCONDES, Neide; MARTINS, Nara. (Des) velar a arte contemporânea: Meandros da interpretação. São Paulo: Altamira, 2018.

MARTINS, Nara S.M. Arte e Design: Projeto poético na contemporaneidade. Revista Estúdio, Artistas sobre outras obras. Revista Internacional. Lisboa, ISSN 1647-6158.

QUIJANO, A. Bien vivir entre el desarrollo y la descolonialidad del poder. Debates. Quito, n 84, 2011.

SLOTERDIJK, P. Ira e Tempo, ensaio político-psicológico. São Paulo: Estação Liberdade, 2012.

VATTIMO, G. Etica de la intrerpretación. Barcelona: Paidós 1991.

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