n° 50 – Ano XVII – Junho de 2019 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

Homenagem

A alma boa de Mariza Bertoli

“Eu sempre vou lembrar-me dela como de uma força natural, o vento que à noite sopra a areia do deserto…”

Jacob Klintowitz – ABCA / São Paulo

Perdemos o som do coração, alguma coisa que soava alto e nos lembrava do sentimento, invocava a emoção e a colocava entre nós. No explicito caso da nossa colega Mariza Bertoli, a batida alta, constante, permanente que sempre nos surpreendia. Às vezes, Mariza Bertoli parecia estranha, inadequada, imprópria, deslocada. A morte de Mariza Bertoli nos privou dessa espontaneidade e do seu desprendimento e dos seus gestos generosos. Eu sempre vou lembrar-me dela como de uma força natural, o vento que à noite sopra a areia do deserto.

A alma anda por onde quer. Quando eu soube da morte da Mariza, silencioso, sem me dar conta, eu passei a escrever, incessantemente, o seu necrológico. Uma recordação contínua de momentos, vezes sem conta em que ela me pedia coisas, sempre tão despojadas, permanente solicitação em prol de causas. Outras ocasiões, situações nas nossas reuniões na ABCA, em que eu temia por suas intervenções. Ela sugeria, propunha, o que não poderíamos aceitar. O nosso permanente critério de avaliação só poderia ser a qualidade da obra e o avanço espiritual da comunidade. A sua vontade de ajudar era mais ampla do que os nossos critérios. Estávamos certos, penso eu, mas sempre me doía a sua decepção.

Podemos escrever sem anotar, apenas como um murmúrio, um falar tão quieto, diálogo com a vida que teima em não responder? Era o que eu fazia. O carinho é assim. Tantos anos de convivência, intimidade, empatia. Nos últimos anos tivemos uma dor em comum. A doença incurável de seu filho Luis a preocupava muito. Era um arquiteto talentoso, culto, de uma sensibilidade tão enunciada, manifesta, que comovia.

Por afinidade o Luis gostava dos meus textos, da minha maneira de ver o mundo, do que entendia como originalidade. Ele já não tinha vigor físico para a pintura em tela. Mariza fez um jantar (ela tinha talento para o tempero delicado) para nos apresentar e foi uma comunhão imediata. O Luis compunha paisagens e cenas incríveis ao computador. E durante alguns anos ele me enviava regularmente essas cenas fantásticas, intensas, brilhantes. Eu lhe dera um título, “Rio da vida”, e ele descrevia a vida. Eu respondi sempre no mesmo dia a todos os envios. A cada um, eu retribuía com um texto lírico. Dizia-me Mariza que essa troca o energizava. Não sei o quanto. O que sei é que me enobrecia.

A morte do filho rompeu um liame que a mantinha. Tanta gente estranhou a ausência da Mariza na festa de premiação da ABCA. Eu, inclusive. Estávamos tão habituados com a sua presença risonha, amável e cheia de vitalidade, que nos parecia uma condição natural. Acho que entendo como eu via a Mariza, como aceitamos a chuva, o sol, o inverno e a primavera. Era uma ilusão suave da minha parte. Talvez porque fossemos tão diferentes um do outro. As ideias e crenças sociais da Mariza, sempre tão expansivas e plenas de entusiasmo, eram ingênuas em meu modo de ver. Eu tinha ternura por Mariza Bertoli e pela criança tão viva nela. Para mim, leitor desde sempre de Franz Kafka, o Poder é ameaçador e implacável. No momento em que soube da morte da Mariza, tão perto da morte do seu filho, escrevi um pequeno poema.

O horóscopo do dia

Será bom ou ruim?

Para Freud sem a contenção não teríamos a civilização.

Para Reich a contenção gera couraça muscular e a infelicidade.

Para Somerset Maughan, Deus não quer a contenção. Diz que isso é uma calúnia contra Ele.

Já para Kafka e os kafkanistas, como eu, tanto faz.

Você será punido de qualquer jeito.

Não sei a causa mortis. Uma amiga me diz que Mariza Bertoli morreu de saudade. Outra me diz que ela morreu de tristeza. Às vezes morre-se de ausência do ser amado. Também algumas pessoas tem exaustão, fadiga da existência, cansam de viver.

Ela falava e na sua fala escutávamos o seu coração e, tantas vezes, escutávamos também o nosso. Mariza sabia ser ingênua na defesa de suas ideias, dos carentes, dos indefensáveis. Ela era solidária.. Eu tantas vezes contemplei essa sua ingenuidade. Onde, em que curva do caminho, perdemos a ingenuidade?

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