Artigo

Alfons Mucha (1860-1939): Um conhecido de longa data do público brasileiro

Exímio artista e um dos maiores expoentes do estilo do final do século XIX denominado Art Nouveau.

Zuzana Trepková Paternostro – ABCA/Rio de Janeiro

In memoriam:
César Alberto Lisboa de Mendonça 

Cartaz do A. Mucha – A eslava (Slavie), 1908 – Técnica mista sobre tela, 154 x 92,5 cm. Cortesia da Fundação Mucha Truxt com a gentil permissão da Sra. Sara Mucha, 2001.

É quase inacreditável e muitos podem até duvidar, mas uma grande parte do público brasileiro já teve a oportunidade – há duas décadas passadas – de conhecer a obra de Alfons Maria Mucha em uma exibição itinerante. Estamos nos referindo a uma reprodução de um de seus cartazes em tamanho idêntico ao original, exposto ao longo de décadas em diversos Estados do território nacional. Este evento foi autorizado por ninguém menos do que a Sra. Sarah Mucha – da Fundação Mucha Trust, de Londres – numa iniciativa conjunta com o SESC (Serviço Social do Comércio/Departamento Nacional)[1] e constituiu a exposição intitulada Pós-impressionismo e as origens da pintura moderna.[2]

Exposição Centro Cultural do Banco do Brasil, janeiro de 2021. Foto: Pedro Vieira Pinto.

Naquela ocasião foram produzidas, a partir de originais, cerca de 60 reproduções baseadas em matrizes fornecidas pelos detentores (Museus, Galerias, Fundações etc.) das obras-primas originais pertinentes ao assunto. Dentre elas, destaque para uma

criação de A. Mucha, exímio artista e um dos maiores expoentes do estilo do final do século XIX denominado Art Nouveau.[3] Inaugurada em 2002, esta exposição percorreu os mais diversos cantos do Brasil por mais de uma década e, dentre dezenas de reproduções de pinturas pós-impressionistas, também foi exposta a do imponente cartaz de Alfons Mucha em seu tamanho original, servindo como exemplo de um dos mais característicos affiches do artista.

No final do ano passado (2020), foi inaugurada uma ampla e bem organizada exposição de A. Mucha nos espaços do Centro Cultural do Banco do Brasil no Rio de Janeiro (CCBB–RJ). A exposição exibe obras da já mencionada Fundação Mucha Trust, atualmente dirigida pelos descendentes do artista, John e Marcus Mucha. A curadoria da exposição, projeto feliz da Tomoko Sato, foi realizada com base num abrangente, mas conciso e excepcional projeto monográfico que envolveu toda a produção artística de A. Mucha. É oportuno observar que a família Mucha manteve relacionamento sempre muito positivo com Japão de longa data. Um dos seus descendentes Marcus Mucha estudou em Cambridgi, e ganhou bolsa de Daiwa Foundation no Japão. Onde aprendeu além de língua entender os hábitos e cujos laços  de amizade perduram até o presente.

Modelo vivo e estudo para convite da Exposição Universal de 1900 em Paris.
Fotos: arquivo Mucha Fundation, Londres.

Após a sua formação na Academia de Belas Artes de Praga e de Munique –  nosso  artista checo – assim como inúmeros artistas europeus e estrangeiros do século XIX, foi atraído para a França em busca de aprendizado e aprimoramento, particularmente para a fervilhante capital francesa – Paris, a eterna “Cidade-Luz” – neste período que, mais tarde, ficaria conhecido como Belle Époque. Em 1888, A. Mucha frequentou ainda – dentre outras instituições artísticas – a Académie Julian. Em 1894, o artista começa a ganhar projeção ao elaborar cartazes para uma peça de teatro da então famosa atriz Sarah Bernardt (1844-1923). Em decorrência disso, as tendências estilísticas de A. Mucha tornaram-se mais refinadas e o artista foi então contratado, pela revista Le Gaulois, para fazer uma série de ilustrações de Bernhardt.

“Simplesmente, podemos afirmar ser o Alfons Mucha um dos maiores representantes do estilo Art Noveau…

O estilo Art Nouveau conheceu várias formas e tendências. Desenvolveu-se, principalmente, nos objetos decorativos e nas artes gráficas, como na padronagem têxtil, nas embalagens de cosméticos, alimentos etc. Esses elementos, também presentes na produção artística de A. Mucha, estão muito bem representados nesta exposição produzida pelo CCBB no Rio de Janeiro. As salas da exposição apresentam desde estudos anatômicos, esboços para cartazes e estudos de modelo vivo até composições da grande porte que integram esta mais recente exibição de seus trabalhos entre nós. Simplesmente, podemos afirmar ser o Alfons Mucha um dos maiores representantes do estilo Art Noveau.

De modo similar a como muitos artistas perseguiam realizações de obras-primas individuais ou da mesma forma que acabou marcando os seus contemporâneos – do século XIX[4] – Alfons Mucha cultivou um projeto grandioso ao longo da sua vida.  A desejada execução de obras excepcionais marcantes de toda a trajetória artística cumprida era perseguida continuamente por todas as gerações e o fato não era incomum as gerações anteriores de artistas em todo o mundo. Porém, uma coincidência interessante contribuiu para a realização deste seu projeto, quando Mucha empreendeu mais de uma viagem aos Estados Unidos da América: a primeira em 1904, além de outras até que, numa delas, em 1909, encontrou um rico industrial chamado Charles Richard Crane (1858-1939) – empresário e apoiador de artistas. Este ficou impressionado com a arte do pintor quando deparou com o rosto belo – sob todos os aspectos – de sua filha representada na obra simbolizando Slavie, retratada no cartaz de mesmo título.[5]

Esboço do pavilhão da Bósnia e Herzegovina para Exposição Universal em Paris,1897.
Foto: Arquivo da Escola Superior de Arte Decorativa e Industrial em Praga.

Esta simpatia conquistada por parte do industrial e filantropo rendeu a Mucha o subsidio financeiro fundamental – de nada menos que 100.000 U$  – para realizar o seu projeto (Epopéia eslava) então contando com a perspectiva real de poder concretizar a sua sequência de quadros épicos criados e produzidos a partir de 1910.

EPOPÉIA ESLAVA – Consiste numa série de 20 telas monumentais concebidas como uma herança para todos os povos Eslavos, talvez o trabalho mais emblemático de A. Mucha. O conjunto foi exposto pela primeira vez em 1928 nos espaços destinados às exposições internacionais de grande porte – chamado Veletrzní Palác, em Praga. O destino acabou por inviabilizar o desejo do artista, que até já tinha sido registrado em contrato e que almejava, para as suas telas monumentais, um lugar grandioso e permanente na cidade de Praga, capital da então Tchecoslováquia.

Aspecto de Krumlov,1928 e Tratamento em Praga, 2012. Arquivos e fotos: Cidade Krumlov e Mostra na Capital.

Na década de 1950, o conjunto esteve no castelo em Moravský Krumlov, na região da Morávia, no sul da República Checa. Apenas em 2012, e após o trâmite de uma traumática ação judicial, este conjunto foi de lá retirado – deixando furiosos os habitantes daquela cidadezinha – e retornou a Praga, cidade para a qual foi destinado. Mais uma vez voltou ao Palácio Veletržní, agora com a diferença de que os espaços nessa ocasião já eram adequados com o pé-direito necessário além de terem, nessa altura, a extensão das propriedades espaciais da Galeria Nacional de Praga.

É necessário mencionar a bem-sucedida apresentação desse conjunto de quadros no CCBB, por meio de projeções (contam com duas dezenas de imagens) em sala especial, onde o espectador tem como imaginar a grandiosidade das telas realizadas pelo artista. É impossível deixar de perceber o tamanho original destas composições e o seu impacto.

Para aqueles, de critérios estéticos inflexíveis em relação ao tempo e as eventuais preferencias de respectivas tendências estilísticas permitam nós lembrar a volatilidade das apreciações futuras. As tendências artísticas acompanham ou avançam no gosto e convenções de seus contemporâneos e não se sentem obrigadas a corresponder à sua época cronológica. Sofrem rejeições pelos avanços, da mesma forma como seus atrasos ou retrocessos… Nem por isso – como já observou Heinrich Wölfflin (1864–1945) – deixam de ser sujeitas a avaliações periódicas. É o caso de A. Mucha. Falo de experiência própria: conheci muito “por alto” o Art Noveau nos estudos na universidade FFUK cátedra da História da Arte na Tchecoslováquia, exatamente nos anos sessenta já que naqueles anos o mencionado estilo era francamente desprezado. Hoje, sou obrigada – com muito gosto – retornar exatamente ao “Caso de Alfons Maria Mucha”. Que ironia do aprendizado e gratidão por ter tido tempo de alcançar ainda isso!

 

NOTAS:

[1] Organização brasileira sem fins lucrativos que teve o mérito de realizar diversas exposições de arte com obras criadas por grandes artistas nacionais e internacionais e acesso franqueado ao público interessado.

[2] Exposição itinerante apresentada, dentre outras capitais, em São Luís (Maranhão), Porto Velho (Rondônia), Florianópolis (Santa Catarina), Macapá (Amapá), Porto Alegre (Rio Grande do Sul) e em inúmeras outras cidades de Estados brasileiros. Segundo estatísticas dos arquivos do SESC/Departamento Nacional (consulta de dados e recortes de matérias publicadas pelas imprensas locais, acessíveis em arquivos da instituição), a exposição foi vista por dezenas de milhões de brasileiros. Na medida em que circularam, as reproduções foram refeitas mais de uma vez e com material novo, substituindo corretamente o desgaste natural. Assim, uma ampla gama da população incluindo desde artistas locais a estudantes, professores de arte e ainda outros interessados teve a oportunidade de apreciar reproduções de artistas franceses, suíços, holandeses e russos – tais como Paul Gauguin (1847-1903), Vincent Van Gogh (1855-1890), Paul Cézanne (1839-1906), Mikhail Vrubel (1856-1916) e Alfons Mucha (1860-1939), bem como obras de Carlos Schwabe (1866-1926) e Edmond Aman-Jean (1860-1936), sendo que este dois últimos contam, ainda, com pinturas originais no acervo do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro (MNBA-RJ).

[3] Após a tradicional arte acadêmica do século XIX, surgiram diversas expressões artísticas opostas diametralmente à ditatura das Academias e Salões de Arte. Dentre elas, o Art Nouveau – inspirado principalmente por formas e estruturas naturais, em que florais e linhas curvas ganharam bastante repercussão e aceitação. No mesmo período, surgiram outros estilos com características estéticas e formais muito similares no continente europeu, com nomes próprios como Jugendstil (Alemanha) Secession (Áustria) e Modern Style (Inglaterra). O movimento Art Nouveau foi mais popular na Europa, mas a sua influência marcou a chamada arte ocidental. A denominação do estilo partiu do nome de uma loja de objetos utilitários e decorativos em Paris, do comerciante de arte alemão Samuel Bing. Este havia visitado Japão, Índia e China à procura de objetos diferentes e exóticos, garimpando cerâmicas, estampas e telas que agradaram grande parte da clientela de sua loja Maison de l’Art Nouveau ou “Casa da Arte Nova”. Bing não se limitou apenas ao Oriente e também expôs os trabalhos artísticos do inglês William Morris (1834-1896), dentre outros.

[4] Dentre os pintores brasileiros, podemos lembrar de Victor Meirelles (1832-1905) com sua pintura da Batalha de Guararapes e de Pedro Américo (1843-1905) com a sua obra Batalha de Avahí.

[5] Tratava-se da filha Mary Josephine de Charles Richard Crane, retratada na obra única (Slavie) que representou Mucha na exposição Pós-impressionismo e a pintura moderna, realização do SESC-Nacional que cumpriu calendário de exibição itinerante pelo Brasil em passado recente.

 

REFERÊNCIAS  E  FONTES:

NOVA ENCYKLOPÉDIE CESKÉHO UMENÍ. Praha, Academia, sv. 1, 1995

PATERNOSTRO, Zuzana. Pós-impressionismo e as origens da pintura moderna. SESC-Nacional, 2002. (Inédito) Pág. 36

WITTLICH,Petr. Ceská Secese. Odeon, Praha,1982.380 pp. il.cor.

https://www.ghmp.cz/vystavy/alfons-mucha-slovanska-epopej/

https://janprazak.blog.idnes.cz/blog.aspx?c=269869

https://zpravy.aktualne.cz/zahranici/thomas-crane-rozhovor/r~2dbf77bcbc9811e7a12e0025900fea04/

https://www.idnes.cz/praha/zpravy/john-mucha-epopej-soud-praha.A171019_113339_praha-zpravy_rsr

n° 56 – Ano XIX – Março de 2021 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

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