n° 52 – Ano XVII – Dezembro de 2019 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

Destaque

À PARTIDA, POESIA…

Apresentação da Terceira Bienal da Anozero, a Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra

Agnaldo Farias – ABCA/São Paulo

A Terceira Margem foi o título/tema da 3a edição da Anozero, a Bienal de Arte Contemporânea de Coimbra. A Bienal Anozero nasceu do Centro de Artes Plásticas de Coimbra – CAPC. Fundado em 1958 por iniciativa de jovens e intrépidos artistas, o CAPC é o mais antigo centro voltado à arte contemporânea de Portugal. Em 2013 Em 2013, quando da elevação da Universidade de Coimbra como Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO, o CAPC, então como agora dirigido pelo arquiteto Carlos Antunes, com uma baita disposição em demonstrar a atualidade da missão da instituição, definida lá atrás, sua relação com o futuro, resolveu criar uma bienal de arte contemporânea.

Sua preocupação procede. Com mais de 700 anos de existência, a Universidade de Coimbra figura entre as vinte mais antigas do mundo. Seu reconhecimento mundial como polo de produção de conhecimento, as arquiteturas austeras dos prédios que compõem o Paço das Escolas, organizado pela “torre setecentista que alberga o relógio e os sinos que regulam a vida acadêmica”, as capas pretas dos seus alunos, base da indumentária de Harry Potter e colegas na Escola Hogwarts de Magia e Bruxaria, tudo isso leva o senso comum a identificar Coimbra com o passado, uma inércia que resiste aos expressivos avanços obtidos pelas ciências que lá são produzidas. O que fazer se isso de reputação funciona como uma bola de ferro atada ao pé? Se os turistas de toda parte invadem a cidade tratando-a como um parque temático de uma antiguidade que remonta ao período românico?

“Apostar na poesia significa experimentar o pensamento em estado de liberdade…”

Arte contemporânea como antídoto à inércia, as perguntas da arte em fértil contraposição as respostas da ciência. Não por acaso o tema da 1a edição proposto pelo três curadores, o poeta Luís Quintais, o artista Pedro Pousada e o próprio Carlos Antunes, foi o título do famoso poema de Stéphane Mallarmé, Um lance de dados jamais abolirá o acaso. Apostar na poesia significa experimentar o pensamento em estado de liberdade, o que não quer dizer que esse exercício prescinda de regras, antes o contrário. Paul Valery comparou poesia com dança e prosa com marcha. Joseph Brodsky escreveu que poesia é aviação enquanto prosa é infantaria.

Erika Verzutti, Mineral, 2019

Mas a relação entre arte e ciência, na cidade fortemente identificada com esta última, não é o único aspecto distintivo dessa linda cidade primeiramente edificada no fundo do vale do Mondego, e cuja universidade encarapitou-se num dos lados do vale escarpado: Coimbra está comprimida entre Lisboa e Porto, as duas principais cidades de Portugal. Como escapar de uma condição que curiosamente a faz sentir-se subalterna? (Não é que sua posição seja secundária em relação as outras duas, mas é fato que a própria população, senão toda ela, certamente grande da parcela ligada a universidade, aquela que milita diretamente na produção do pensamento, vive afirmando com desalento e resignação, como várias vezes testemunhei, “nada acontece em Coimbra!”).

“Foi essa a essência do conversa numa noite em setembro de 2017, em que Carlos Antunes convidou-me para ser o curador da terceira edição da Bienal Anozero…”

Para que a Bienal de Coimbra, sem maiores recursos financeiros, funcionasse, seria preciso driblar uma certa expectativa por acontecimentos retumbantes, não correr na tentação de emitir brilho semelhante aos das duas cidades em cujo meio do caminho está Coimbra.

Foi essa a essência do conversa numa noite em setembro de 2017, em que Carlos Antunes convidou-me para ser o curador da terceira edição da Bienal Anozero. E, convenha-se, o convite a um brasileiro era, por si só, um partido, uma decisão em favor de uma voz e de um ponto de vista discrepante da lógica usual do grosso das bienais de arte contemporânea, com seus elencos repletos dos “suspeitos habituais”.

Em setembro de 2018, data do convite para ser curador da Bienal de Coimbra, esclareço, já conhecia a cidade, já havia visitado um par de vezes, subido e descido suas ladeiras empinadas e extensas, conhecido pessoas, provado os pratos que fazem a fama da cidade, percebido que a doçura era um traço além da celebrada confeitaria conventual.

 

Por um projeto poético…

Que río es este
Por el cual corre el Ganges?

Jorge Luis Borges – Heráclito

 

Como, por onde abordar o problema de uma bienal em semelhante contexto? Pois há algo de poético numa cidade cortada por um rio, como o Mondego fluindo imperturbável entre as margens a partir das quais se esparrama Coimbra. O rio é a imagem da continuidade, seu tempo tangencia o infinito. Nossas existências, fugazes como os carros e as gentes que atravessam as pontes que o cortam são o sumo da descontinuidade; nosso tempo é ínfimo se comparado com o do rio, mesmo os mais de 700 anos da Universidade de Coimbra, entre as 20 mais velhas do mundo, são nada.

A relação do Mondego com Coimbra alterou-se ao longo do tempo: durante séculos a cidade ocupou quase exclusivamente a margem direita, o lado do centro velho e da Universidade, em 2013, como já disse, elevada à Patrimônio da Humanidade. De lá, a grande Universidade, até bem pouco uma instituição exclusivamente masculina, passou da Rua da Sofia para a zona Alta de onde, como centro de produção de saberes, irradiou-se pelas colônias portuguesas, espraiou-se indiretamente pelo mundo.

O Mondego como eixo dessa situação a um só tempo geográfica e simbólica conduziu-me a intrigante narrativa de João Guimarães Rosa, A Terceira margem do rio…”

Na outra margem do Mondego, no princípio região desocupada da cidade, no inicio do século XIV foi estabelecido o Convento dedicado a Santa Clara, fundadora do ramo feminino da ordem franciscana. Construída junto a margem do rio, o edificio, em virtude das sucessivas inundações, foi conhecendo reformas, até mesmo um andar superior. Mas a insistência das águas revoltosas do Mondego, que ainda semanas atrás, no finalzinho do ano passado, rompeu diques, encheu de pânico populações ribeirinhas,  roçou os baixios dos viadutos que unem as duas partes da cidade, obrigou as Clarissas a abandonar o antigo convento e, a partir do século XVII, a construir uma nova e imponente sede no Monte da Esperança – haverá topônimo mais alentador? – o Convento de Santa Clara-a-Nova.

João Maria Gusmão e Pedro Paiva, Pato em Pequim, 2015-2019

Esse convento, desde a 2a Bienal Anozero, principal sede da Bienal, puxou o crescimento da cidade para a margem esquerda do rio, fez com que ela avançasse pela outra encosta escarpada do vale, ademais de garantir um espaço onde as mulheres pudessem viver ao largo das injunções sociais ordinárias. Não se deve fantasiar sobre a vida religiosa, cuja aspereza possuía requintes, mas escrevendo sobre Sor Juana Inés de la Cruz – As armadilhas da fé -, Octavio Paz faz coro com aqueles que discorrem sobre aspectos essenciais da vida monástica, argumentando que o eclipsamento da sexualidade por detrás de um hábito negro, franqueou à uma das principais expressões do barroco, a dedicação ao estudo, à escritura e a maestria na elaboração de poemas ao modo dos trovadores humildes que professavam seu amor a damas nobres, o que lhe garantiu uma posição superlativa.

Hoje as duas instituições, uma masculina e outra feminina, ambas situadas em cotas altas, como que se entreolham. É verdade que o Convento está abandonado. A bem dizer, estava. A arte, desde a 2a Bienal Anozero, em 2017, o vem reivindicando para si. Abaixo de ambas segue, aparentemente plácido, o rio Mondego, reiterando a vacuidade das nossas construções, sólidas ou abstratas, segue fluindo. Já estava lá antes de tudo isso e é provável que continuará estando quando nada mais da nossa orgulhosa civilização, a não ser entulho e pó.

“A estória é por demais conhecida, ainda assim, relembro que sob esse título um homem discorre sobre a história de seu pai, que abandonou a família para viver numa canoa pequena…”

O Mondego como eixo dessa situação a um só tempo geográfica e simbólica conduziu-me a intrigante narrativa de João Guimarães Rosa, A Terceira margem do rio.

A estória é por demais conhecida, ainda assim, relembro que sob esse título um homem discorre sobre a história de seu pai, que abandonou a família para viver numa canoa pequena. E não fez a canoa para ir a algum lugar. Permaneceu nos espaços do rio largo vizinho ao sitio em que viviam, flutuando rio abaixo, rio acima, para nunca mais sair de dentro dela. O tempo passa, a família, desistindo daquela espera inútil, vai embora, mas não o narrador, entendendo que não pode ir e, mais adiante, entendendo que terá que substituir o pai. A consciência disso vem aos poucos, agudizando-se lentamente até que vai a margem e chama o pai, agora um velho. Até então indiferente a todos, ele reconhece o filho, fica de pé na canoa, saúda-o e rema em sua direção. E o filho, apavorado, foge daquela figura que parece vir da parte do além. A narrativa finda com o fracasso do filho pedindo perdão, a quem?, perguntando se continua sendo homem “depois desse falimento?”

Sim, o Mondego, assim como qualquer rio, traz consigo a ideia da longa duração, enquanto as edificações humanas, concretas ou abstratas, por vetustas e respeitáveis a ideia de finitude. Pensei que seria bom levar ao público português algo brasileiro, forjado no Brasil, da mais alta qualidade. Fiz como Carlos Drummond de Andrade em Confissões do Itabirano, “De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço”. Essa prenda, A terceira margem do rio, eu a trago comigo desde muito cedo, desde que li, perplexo, esse texto de Rosa. Na primeira apostila montada aos meus primeiros alunos de filosofia num colégio paulistano, ele estava lá.

E por que A terceira margem e não A terceira margem do rio? Porque quando optei por esse titulo não me ocorreu que ele havia sido o tema da Bienal do Mercosul, de 2007,  uma proposta do curador Luis Pérez-Oramas, ele próprio (bom) poeta. Inibido a principio, depois descansei. Afinal o conto não pertence a ele, o conto pertence a todos, e vem servindo e servirá de inspiração para quem quer que deite os olhos sobre ele.

“A rigor, é menos pelo corpo e mais pela linguagem, pelas imagens e objetos que produzimos, que ousamos nos fundir à eternidade, pretendemos ser rio…”

Um rio não tem a primeira e a segunda margem, tem duas. O que dizer de uma terceira? Pois esta é a que não está, que vive em suspensão, é a margem formada pela linha entrecortada da vida humana onde uma ponta se cola à outra, como mais uma margem de beiras largas formada pelas partes entrecortadas da matéria frágil dos nossos corpos. A rigor, é menos pelo corpo e mais pela linguagem, pelas imagens e objetos que produzimos, que ousamos nos fundir à eternidade, pretendemos ser rio.

Arte confina com a ideia de rever e reapresentar o que se pensava conhecido; trazer sob um outro ângulo, insuspeitado. Jorge Luis Borges levantava a possibilidade que todos os livros existentes sejam versões de um mesmo livro, a Bíblia. Giambattista Vico escreve que só podemos entender nossos ancestrais, porque eles eram movidos pelos mesmos sentimentos que nos habitam. Talvez as transparências e reflexões das arquiteturas como as de Jean Nouvel e Sanaa,  como a avalanche de imagens descarregadas sobre nós, sejam aparentadas com as sombras das cavernas de Platão.

Alguns impulsos se repetem, algumas imagens são revistas e, frequentemente, dão lugar a invenção, não foi assim com a prosaica maçã de Newton?

Arte contemporânea é a margem mais avançada, a terceira margem, da nossa sensibilidade e, em consequência, da nossa expressão.

Expandindo o conceito e recorrendo à literatura como estratégia de reforço a natureza multidisciplinar da cultura, a terceira margem de Guimarães Rosa pode bem se referir à situação de suspensão generalizada em que vivemos, a instabilidade expressa nas vagas de gente acumuladas nas bordas dos países e dentro das cidades que os compõem, no tenso debate entre aqueles que pressentem catástrofes e aqueles que dão de ombros; na crise das definições identitárias de toda ordem, naqueles que reagem agarrando-se com firmeza as bóias deixadas pelas tradições.

Em sua 3a. edição, a Bienal de Coimbra, à luz da poética de Guimarães Rosa, pretende dar a ver algumas das obras vetores responsáveis pela expansão do ser, que dão conta de sua crise. Obras que contribuem para a continuidade da nossa espécie, dos sonhos, que também são pesadelos, que a fazem fluir.

Nesse sentido, foi-me fundamental o convite para dois jovens e brilhantes curadores, Ligia Afonso e Nuno Rocha, para trabalhar junto comigo. Juntos discutimos o texto e chegamos a cinco palavras, cinco trechos extraídos da narrativa, que serviram como subtemas:

 

silêncionosso pai nada não dizia;

marginalidadepassadores, moradores de beira;

invençãoexecutava a invenção;

militânciachega que um propósito.

passagemlonge, no não-encontrável;

 

A discussão de cada uma delas foi feita a montagem de uma lista preliminar ao redor de oitenta artistas, reduzidos a trinta e nove depois de incontáveis encontros – tele-conferências. São eles:

 

Alexandra Pirici
Ana María Montenegro
Ana Vaz
Anna Boghiguian
António Olaio
Belén Uriel
Bouchra Khalili
Bruno Zhu
Cadu
Daniel Melim
Daniel Senise
David Claerbout
Erika Verzutti
Eugénia Mussa
Joanna Piotrowska
João Gabriel
João Maria Gusmão e Pedro Paiva
José Bechara
José Spaniol
Julius von Bismarck
Laura Vinci
Luís Lázaro de Matos
Luís Felipe Ortega
Lynn Hershman Leeson
Magdalena Jitrik
Maria Condado
Mariana Caló e Francisco Queimadela
Marilá Dardot
Mattia Denisse
Maya Watanabe
Meriç Algün
Przemek Pyszczek
Renato Ferrão
Rita Ferreira
Steve McQueen
Susan Hiller
Tomás Cunha Ferreira

 

Trinta e nove artistas distribuídos por nove espaços, isso sem contar os outdoors de Meriç Algün. Vinte deles ocuparam salas do monumental Convento de Santa Clara-a-Nova. E vinte deles, porque se animaram com o convite, porque ficaram sensibilizados pela proposta, a maioria porque são mais jovens, sem renome internacional, sem os ares de importância que o mercado o faz assumir, fizeram obras novas, a despeito dos escassos recursos disponíveis. Tomás Cunha Ferreira, ademais de artista, músico, intelectual de largo espectro, participou de dois modos: com obras logo à entrada do Convento e como curador de uma exposição de poesia visual, assunto de especial interesse e para uma bienal orientada para ratificar o peso que a poesia ocupa, ou deveria ocupar em nossas vidas. Afinal, como indica o título deste texto, é ela, poesia, quem está no principio de tudo. É o horizonte do ser. Sem ela, sem nossa sede se ritmo, nada aproveitável seria escrito.

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