n° 52 – Ano XVII – Dezembro de 2019 ISSN 2525-2992  →   VOLTAR

Internacional

52º Congresso International da AICA
A Crítica da Arte em tempos de Populismo e Nacionalismo

Críticos de todo o mundo reuniram-se para discutir e refletir sobre como a crítica de arte reage diante das tendências politicas atuais

Rôseli Hoffmann-Freund – AICA/Alemanha

Este artigo aborda somente uma pequena parte do vasto programa  dividido em Pré-Congresso, Congresso e Pós-Congresso, com 10 painéis de debates, visitas em Museus, Instituições e Galerias realizados em duas cidades, Colônia e Berlim, com tema “A Crítica de Arte em tempos de Populismo e Nacionalismo”.

Design e Punição, palestrante: Florian Arnold. Foto: Rôseli Hoffmann.

Críticos de todo o mundo encontraram-se nos sete dias de Congresso para discutirem sobre: como a crítica de arte reage frente às tendências politicas atuais, ao crescente aumento do nacionalismo e da censura no leste europeu, as ofensas na Internet, as problemáticas dos gêneros e os debates do MeToo, do racismo, do clima, do pós-colonialismo e da politica ativista.  É possível a crítica de arte ser independente da corrente populista e nacionalista, mesmo não sendo livre de julgamentos e interpretações pessoais? Por isso mesmo a arte é controversa e deve ficar assim. Ela abre espaco para discussões e é o símbolo de uma sociedade livre.

 Diz Walter Grasskamp, “os críticos de arte têm tantos rostos quanto autores(as). Vivem de personalidades. Vários rostos também os têm. Os colecionadores, galeristas, fondsmanagers, que investem dinheiro na arte. No entanto, nenhum deles conseguiu  consagrar a arte. Nem mesmo o mega colecionador Peter Ludwig”. (Entrevista dada a Michel Kohler, Kölner Stadtanzeiger, 01.10.2019).

“Vários motivos justificam o Congresso da AICA 2019 ser realizado na Alemanha e sua abertura em Colônia…”

A dimensão politica da crítica de arte foi tematizada no pré-congresso, que aconteceu em Colônia.  Vários motivos justificam o Congresso da AICA 2019 ser realizado na Alemanha e sua abertura em Colônia. Uma, pois a cidade é sede da AICA, seção da Alemanha, criada em 1951. Foi também local do 12º Congresso da AICA em 1977; é a cidade com a mais antiga Feira de Arte- ART COLOGNE, em torno da qual reúnem-se muitos associados da AICA. E especialmente pela comemoração dos 30 anos da Unificacão das Alemanhas, juntamente com os 70 anos da AICA.

Censura política, palestrante: Viviane Chow. Foto: Rôseli Hoffmann.

O inicio do Congresso na cidade de Colônia é, portanto, um ato simbólico.

O Museu Ludwig foi local da entrega do Prêmio da AICA de distinção de Crítico de Arte pela sua trajetória. O Laudatio, o eloquente discurso de agradecimento ao historiador de arte e autor Walter Grasskamp, foi proferido pela historiadora de arte e crítica de arte, Julia Voss.  Ele, que deve uma de suas melhores e piores experiências ao colecionador Peter Ludwig, e ironicamente, recebe o prêmio de distincao pela sua carreira como crítico de arte no Museu que leva seu nome.

Voss destacou como Walter Grasskamp reagiu perante a tentativa de Peter Ludwig reabilitar o escultor de maior sucesso no período NS – Nacional Socialista, Arno Breker. Os dois bustos encomendados, um seu e outro de sua mulher, são de uma falta de gosto e se parecem com uma escultura no Quark (expressão utilizada quando algo nao é tão bom para ser perene com a consistência de um iogurte, por exemplo).

Grasskamp, por sua vez, relatou em seu discurso, a importância que uma obra de arte de Hans Haacke, que deveria estar exposta, mas não estava, marcou a sua vida. Esta obra de arte só chamou a atenção, porque outro artista, Daniel Buren, participante do Projeto 74, da Kunsthalle em Köln, em solidariedade, expôs uma cópia comentada da obra faltante do artista Hans Haacke.

Para a comemoração dos 150 anos da criação do Wallraf- Richartzs -Museum foram convidados 150 artistas da cena contemporânea da década de 1970, para participarem do Projeto 74 – A Arte permanece Arte, entre eles Hans Haacke.  A sua obra Projeto Manet foi censurada. Tratava-se de dez painéis ilustrando a história da aquisição da pintura de Manet, intitulada O Maço de Aspargos, de 1880, destacando  as funções ocupadas por Hermann Josef Abs no Deutsches Bank, no periodo nazista, inclusive o valor de aquisição. A obra Manet é parte integrante do acervo do Museu.

“Nas palavras de Harry Lehmann, a arte politizada é o brinquedo da sociedade de hoje. A arte mostra ao mundo o que a sociedade se tornou…”

Três anos depois, em 1977, Grasskamp apresentou sua obra Das neue Kolonialmuseum (o novo Museu Colonial) – uma homenagem a Marcel Broodthaers. Ele a definiu como o Poder do Colonialismo, as formas culturais nas tomadas de decisões das mídias domésticas. Em anexo, ele apresentou sua coleção de fotografias com motivos exóticos e racistas de sua região. Disse ele: “As imagens nós não precisamos procurar, pois as encontramos em toda parte“ (Grasskamp, 1977:16). Trata-se de uma crítica à herança colonial na cultura cotidiana da Europa Ocidental. Conforme Grasskamp, “é uma agressão à dignidade do homem”.

Democracia na defensiva: A critica de arte na era globalização liberal, palestrante: Isabelle Graw. Foto: Rôseli Hoffmann.

Danièle Perrier, presidente da AICA, seção Alemanha, disse que “Walter Grasskamp corporifica, para nós, a imagem ideal de um crítico de arte e um crítico da cultura”. Seu profundo conhecimento sobre artistas, instituições, política cultural, ele repassa apropriando-se de uma linguagem vestida de humor e poesia, ora com tons apimentados.  Ele acrescenta novos acentos na análise das obras, e traz surpresas na maneira de olhar a arte, refletindo sobre o fruidor.

Walter Grasskamp, está muito além de seu tempo, já prognosticando os discursos a serem apresentados no Congresso da AICA em Berlim.

A polarização política da sociedade conduz à certa e, inevitavelmente,  politização da arte. A obra de arte hoje é a singularidade do artista, sua imagem nas mídias sociais, quer no Facebook ou Instagram. A nova estética está nos comportamentos. Disse Paul O´Kane :“é uma doenca narcicista”,  na palestra  Carnaval da Popularidade.  As obras apresentam uma voz politica, mesmo não sendo o intuito das mesmas. Elas preenchem as lacunas que a comunicação e o sistema politico de uma sociedade não atingem.

Nas palavras de Harry Lehmann, a arte politizada é o brinquedo da sociedade de hoje. A arte mostra ao mundo o que a sociedade se tornou. A função da crítica de arte é agucar seu olhar ainda mais nos valores internos da cena artística. Maneira pela qual, ela, a crítica de arte, poderá contribuir para despolitizar a sociedade , quando a arte ferozmente questiona.

Kolja Reichert entende o populismo como o efeito da culturalizacão. Os questionamentos politicos (O que queremos?) podem ser substituidos por questionamentos culturais, como por exemplo: quem somos? Quem nos incomoda?

“Neste Congresso ficou claro como a censura politica em tantos países tem interferido na produção da arte e na crítica da arte. A arte pode, mas não precisa ser política…”

A facilidade de materiais e as inovações tecnológicas criam novas molduras e apropriações. Assim sendo, tudo e todos fazem arte. “O que é acaba sendo arte? É o artista a própria arte?”, tomando como exemplo o cantor Michael Jackson. Entre outros questionamentos levantados estão a institucionalização e politização da mídia na Internet, com sua busca rápida a respostas com textos curtos sobre arte. Ela faz concorrência à crítica de arte. Mas será que faz mesmo? Pode a crítica de arte, em decorrência desta fusão entre cultura, politica, economia e poder, mídias sociais e internet, afirmar-se através da volta de argumentos estéticos,  boa qualidade e bons e longos textos, argumenta Reichert.

Palestrantes: Maja Fowkes e Reuben Fowkes. Foto: Rôseli Hoffmann.

A liberdade de manifestação artística e da critica de arte está sendo controlada, censurada, reprimida e sufocada em varios paises mundo afora, principalmente nos do leste e médio europeu e asiático, como em Hong Kong.

A rasante ascensão da politica neonacionalista e o constante envolvimento do populismo na esfera artística, não podem mais serem vistos como uma  aberração confinada em uma nova democracia do leste Europeu, afirmaram Maja Fowkes e Reuben Fowkes, na palestra sobre a situação da crítica de arte no leste Europeu.

O fantasma do moralismo e do populismo de extrema direita, ameaça a liberdade artística na Polônia.  Obras de arte são retiradas de museus, galerias por apresentarem cenas obscenas. Os políticos fazem julgamentos estéticos sobre arte contemporânea. A arte está sendo instrumentalizada para fins politicos. A único antídoto, apontou Malgorzata Stepnik em sua palestra, será a educação.

Neste Congresso ficou claro como a censura politica em tantos países tem interferido na produção da arte e na crítica da arte. A arte pode, mas não precisa ser política. A crítica de arte tem a liberdade de julgar os valores intrínsecos inerentes a qualidade da arte, pois o discurso crítico sobre cultura é parte fundamental de uma sociedade livre.

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