Mostra

A poética de Rick Rodrigues

“Tudo o que não invento é falso” é o nome da mostra do artista na Galeria Homero Massena, em Vitória.

Almerinda da Silva Lopes – ABCA – Espírito Santo

Se não deixa de ser surpreendente o prazer, a perseverança e a inventividade com que alguns jovens artistas refazem os laços afetivos com o desenho, a gravura e outros processos tradicionais, Rick Rodrigues assume posição de destaque entre a geração que emergiu na última década, optando por investir em tais processos criativos.

Denominada Tudo que não invento é falso, a exposição apresenta ao público capixaba, até o início de agosto, a série de trabalhos de mesmo título, constituída de desenhos, objetos em madeira e bordados, nos quais o autor hibridiza diferentes meios, processos e materiais. Os desenhos são inseridos sobre relevos, resultantes da fricção paciente da mão do artista sobre o verso do papel recorrendo simplesmente a uma caneta esferográfica. Resultam dessa ação, elementos abstratos, de aparência rugosa, que ativam a imaginação remetendo a nuvens, formações rochosas, ao movimento das marés, ao rodopio de um furacão, entre outras imagens. É sobre os relevos do anverso do papel, que ocupam apenas uma parcela desse campo branco, que o autor insere os desenhos de pequenos objetos, cujos motivos parecem familiares à primeira vista: camas, cadeiras, mesas, armários, baús, gramofones, sofás, escadas, barcos, casas, caixas… Para elaborar tais desenhos recorre apenas ao uso de uma lapiseira e grafites coloridos, com os quais obtém sutis gradações de azul ou vermelho.

O aparente realismo das imagens não passa, porém, de artifício para atrair o olhar do observador, pois este logo constata que a intenção do artista é articular, com tais elementos ou a partir deles, paradoxos ou um universo onírico, no qual os objetos e casas levitam ou flanam no espaço, impulsionados pelo movimento de portas, janelas, gavetas, tampas de caixas e baús, que na maioria das vezes se abrem e mantêm uma flexibilidade análoga à das asas dos pássaros. Mas há também objetos que são içados para cima, atados a fios, e levados pelo bico de um frágil pássaro, animal recorrente no trabalho do jovem. É o que ocorre, por exemplo, com um barco que, mesmo representado com dimensões inúmeras vezes maiores que as do corpo da ave, que o puxa para cima, o objeto desliza calma e paradoxalmente pelo ar, equilibrando em seu interior uma pequena casa, que aparece como elemento iterativo na obra do artista, como uma espécie de ninho ou casa dos sonhos.

Tais dispositivos criativos possibilitam que os objetos imaginados por Rick Rodrigues atinjam alturas imensuráveis, como se fugissem de nosso alcance. O artista instiga e provoca, assim, a curiosidade do espectador, desafiando-a a empreender verdadeira viagem pelo imaginário, recorrendo simbolicamente a escadas que saem do plano do chão e tocam os objetos, que levitam nas alturas. Mas em certos casos, as escadas atravessam literalmente o corpo/estrutura de alguns desses objetos, ou são posicionadas dentro de gavetas abertas, elevando-se até à altura da gaveta seguinte de um mesmo móvel, que se encontra fechada, instaurando por meio desse artifício a possibilidade dela vir a ser aberta. A escada permite ao interlocutor acessar, abrir e fechar, entrar e sair de gavetas, facultando ao aventureiro alpinista revirar memórias, desvelar os segredos que elas guardam, ou mesmo se esconder no interior das gavetas, protegendo-se dos perigos do mundo.

De maneira similar, em alguns desenhos, os objetos aparecem sobrepostos uns sobre os outros, desafiando a quem quiser escalar esse trampolim a alcançar o inacessível ou a desvendar o desconhecido, alcançando o vão de uma janela, posicionada no plano superior do campo do papel, para escapar do aprisionamento. É o que parece prestes a ocorrer com um pequeno pássaro, que, ensaia o percurso certeiro do voo para a liberdade, empoleirado no encosto de uma cadeira, posicionada estrategicamente sobre uma pequena mesa.

Mas a escada também se oferece ao interlocutor curioso como possibilidade de o mesmo alcançar e poder penetrar no aconchego das casas/ninho e abrir janelas e portas fechadas, para deixar entrar a luz da vida. Algumas escadas atravessam o colchão das camas, por meio de fendas que expõem o avesso de um ventre macio e acolhedor. O artista instiga o olhar tátil a montar e desmontar a trama paradoxal e performática que ele estabelece com objetos triviais, como condição para desvendar os mistérios recônditos desses diminutos objetos por ele projetados. Além de recorrer à repetição e à sobreposição de mesas, cadeiras, armários, camas e casas, em algumas das cenas gráficas os objetos também aparecem inseridos em orifícios, escondidos em gavetas e armários, saindo de caixas, baús ou do interior das casas, para flanar livres no espaço dúbio que o autor propõe.

A casa coloca-se como elemento iterativo na obra do artista, no sentido que percorre e interliga as diferentes séries de obras por ele produzidas até aqui. Aparece já nas imagens das gravuras iniciais, impressas em nonocromias de azul, elaboradas ainda no tempo em que esse jovem cursava Artes Plásticas, na Universidade Federal do Espírito Santo (atualmente é aluno do mestrado em Artes, na mesma instituição). Tais gravuras foram apresentadas em outras mostras juntamente com inúmeras miniaturas do mesmo esquema/casa, elaboradas em madeira ou papel, numa espécie de duplo ou espelhamento. Reúne, agora, nesta exposição, um conjunto de casas de formas simples, idênticas e singulares, que pelas diminutas dimensões mais parecem peças de um jogo de armar, casas de bonecas, ou terem sido construídas para morada de pombos, pigmeus, fadas ou duendes. Montadas com papel grosso branco, as pequeninas casas equilibram-se alinhadas sobre uma régua de acrílico transparente, como se tentassem se agarrar umas às outras, formando um alinhamento horizontal da largura da galeria Homero Massena. Esse conjunto de singelas e frágeis casas, de mesmas dimensões e tipologia formal única, permite estabelecer algum tipo de diálogo (ou de paródia?) com os aglomerados das comunidades periféricas de qualquer metrópole ou a arquitetura dos núcleos habitacionais adotada pelos planos sociais do governo.

Outro ajuntamento dessas mesmas casas de papel sai de uma caixa branca aberta e espalha-se no interior de uma gaveta entreaberta. Essa gaveta pertence a uma pequena mesa de pés torneados, sobre cujo tampo é exposto um conjunto de miniaturas de mobília em madeira, que fazem parte da coleção do artista e que serviram de referência para os desenhos supracitados: três poltronas de um mesmo modelo, mas de pés diferentes, duas camas conhecidas tradicionalmente como modelo “patente”, símbolo da história do mobiliário brasileiro (entre 1915 e a década de 1960)¹. Tais camas de design de formas simples e funcionais, em madeira torneada e vergada, na cabeceira e nos pés, caracterizavam-se por possuir estrado de molas flexíveis, tensionadas por ganchos também de metal, cuja elasticidade evitava a deformação do colchão, sendo que as miniaturas confeccionadas pelo artista seguem à risca essa prescrição original. Integram ainda a instalação um armário, um banco ou aparador com gavetas, sobre o qual se posiciona um minúsculo gramofone, de primoroso design. Esses objetos de um passado ainda recente fazem parte da memória do jovem artista, passada na zona rural de João Neiva, município do interior do Espírito Santo (onde nasceu em 1988), confirmando que os artistas contemporâneos realocam e hibridizam formas, conceitos, materiais e processos de diferentes origens e tempos.

E não deixa de ser curiosa a fixação do artista por esse gênero de cama, considerando que esse mesmo objeto também aparece em outra pequena instalação da mostra. Uma miniatura da cama “patente” em madeira foi fixada à parede da galeria, a uma altura de dois terços em relação ao plano do chão, obrigando o espectador a assumir uma posição contemplativa ao inclinar a cabeça para trás para poder apreciar o pequeno objeto encarrapitado nas alturas. Mas para quem quiser observá-lo mais de perto poderá fazê-lo, desde que se disponha a enfrentar, imaginariamente, a quantidade imensurável de degraus de uma minúscula escada, construída em madeira pelo artista, que partindo do piso da galeria tangencia o objeto.

Convém observar que essa preciosa miniatura da cama “patente” também integra outras associações de objetos presentes na exposição em pauta. Em uma delas, Rick insere-a sobre uma tríade de pássaros, delicadamente bordada no centro de uma fronha branca, que veste um travesseiro. Estabelece assim uma associação insólita, pois, convencionalmente é o travesseiro que é posto sobre a cama e não o inverso. Com tal inversão estaria o autor se referindo ao fato desse novo design de cama ter destituído, no auge de sua industrialização, as tradicionais almofadas usadas, até então, nas cabeceiras e nos pés das camas de diferentes modelos e requintes?

Mas a fronha não é a única peça bordada da mostra. O artista elabora já há algum tempo, delicados bordados sobre lenços de mão – alguns dos quais foram emoldurados e posicionados em uma das paredes da galeria, como qualquer objeto pictórico ou gráfico – além de brinquedos. Se alguma associação pode ser feita com os bordados do artista cearense Leonilson (1957-1993), os desenhos bordados por Rick Rodrigues se distanciam dos do colega que o precedeu, seja fatura mais minuciosa e mais delicada, seja por não derivarem de uma mesma essência poética. Mas há em ambos a necessidade de atribuir intensidade e palpabilidade plástica à linha, remetendo, mesmo que por vias diferentes, a memórias e afetos pessoais ou existenciais, como revela tanto a profusão de signos visuais e semânticos escriturados por Leonilson com agulha e linhas em lençóis, fronhas, roupas e colchas, quanto os motivos bordados em lenços e fronhas por Rick Rodrigues.

Indagado sobre esse interesse pelo bordado e como se teria dado seu aprendizado, o jovem artista esclarece ter aprendido a bordar ainda na infância, observando o irmão mais velho a costurar couro na propriedade rural do avô, em João Neiva, onde ele e os irmãos nasceram. Foi também esse irmão, amante da natureza e defensor dos pássaros, quem chamava a atenção do mais novo, ainda criança, para a gama de cores e a alegria esfuziante dos pássaros em liberdade, alimentando os filhotes nos ninhos, ou saltitando de galho em galho nas árvores frutíferas do campo. A recorrência aos pássaros nesta mostra é também a maneira encontrada pelo artista para prestar tributo ao irmão.

Com desenhos e objetos de grande preciosismo técnico, engendra um jogo de faz-de-conta e estabelece uma espécie de “volta à ordem”, revitalizando ou restabelecendo o diálogo com uma linguagem poética na qual sobressai o gesto e a memória individual, tendência que se repete na produção de muitos artistas contemporâneos. Talvez por isso, crianças e adultos, de imediato se identificam com o trabalho do artista, atraindo à Galeria Homero Massena uma quantidade de público poucas visto em toda a trajetória da instituição. E embora o jovem já seja representado por algumas das mais conceituadas galerias comerciais de Vitória e de outros estados, que apostam na consistência e na expressividade da obra de Rick, espera-se que tal interesse funcione como estímulo à continuidade e à perseverança no trabalho. Infelizmente, o mercado de arte é ainda muito restrito no Espírito Santo, o que tem contribuído para que muitos artistas talentosos e promissores, por falta de perspectivas de sobreviverem do próprio trabalho poético deixem de produzir. Outros passam a dividir a jornada de trabalho em outras atividades profissionais com a produção artística, o que impede que a carreira deslanche e extrapole as fronteiras locais.

¹A cama patente foi projetada, em 1909, pelo espanhol radicado no Brasil, Celso Martínez Carrera (1883-1955), e foi produzida artesanalmente em madeira de imbuia, primeiro para uma clínica médica do interior de São Paulo, em substituição às tradicionais camas de ferro importadas da Europa, e depois por encomenda. Mas de maneira, não muito clara o invento acabaria sendo patenteado por um imigrante italiano, que adquiriu o direito de fabricar a cama em escala industrial, a preços acessíveis, até declinar na década de 1960.

 

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