O principal encanto do Novo Mundo sempre consistiu em que ele nos oferece o futuro. Tudo pode ser construído, imaginado, experimentado. Evoca o Gênesis, o mundo está sendo inventado. Não existe limite nesta sempre sonhada viagem do ser. O Novo Mundo é a Máquina do Tempo. E, por lógica e simetria, o Novo Mundo é o único recanto da Terra onde podemos ter a sensação de que encontraremos um fragmento do Paraíso. A inocência, a pujança da natureza, a semente do que virá, os paradigmas das ideias perfeitas antes da contaminação da civilização. Os dois polos, o futuro e o passado. E, naturalmente, as dificuldades de uma sociedade construída a partir de culturas transplantadas. É neste universo de sonhos e contradições em que se dá a importante imigração japonesa para o Brasil.

Na arte e na cultura, mais do que descrever a influência da presença japonesa, devemos falar desta presença como um elemento constitutivo da arte brasileira atual. É inconclusivo e fragmentário pensar na arte brasileira se não considerarmos a participação decisiva da cultura japonesa na sua formação atual. A Exposição de Arte Bunkyo, agora na sua 12ª versão, é parte do permanente diálogo desta cultura milenar com o Brasil.

Todas as comunidades de imigrantes, no Brasil e em outros países, enfrentam questões similares. Como manter o tesouro de sua cultura de origem e, ao mesmo tempo, participar ativamente da vida social e produtiva da nova casa? No caso da comunidade japonesa, a questão é mais aguda devido ao extraordinário nível de sua civilização de origem, tanto no campo da literatura, quanto o das artes visuais. Na verdade, visual ou literária, essas expressões estão fundadas num patrimônio filosófico e religioso em que se inclui uma especial relação com a natureza e com a percepção do intercâmbio entre o ser e o universo, como um único sistema de significações. Fatalmente é certo que a juventude mergulhará no novo ambiente e se tornará parte dele e tenderá a esquecer do tesouro patrimonial de origem. Existem ciclos de assimilação e retorno que se alternam e é interessante observar como se dá o intercâmbio emocional entre as gerações, entre o passado e o presente, entre as novas tecnologias e a ancestral meditação. A exposição Bunkyo , em parte, é o retrato deste rico intercâmbio.

É significativo que este grande salão de arte tenha na versão atual, lado a lado, a arte contemporânea e as manifestações craft. Na verdade, tudo é arte, a depender do que foi imaginado e concretizado. Não é o suporte da arte e nem o procedimento do artista que determina isto, mas é a obra que impõe a sua consideração. No Ocidente a aceitação da Craft ou Koguei, como arte, é fruto de uma revolução comportamental. Aboliu-se a distância entre o artista e o artesão, entre o conceito e o fazer, entre o homem e o modo de proceder, entre o que pertence ao artista e o que pertence aos artesões executores. É uma nova maneira de olhar a produção humana. É curioso observar isto na Exposição Arte Bunkio 2018. A curiosidade consiste justamente em ver este conceito atual dos procedimentos artísticos e a sua aproximação com uma comunidade que na sua origem tem a arte do jardim e a arte da cerâmica como manifestações superiores da sensibilidade. É um encontro magnífico do passado com o presente. Entre a mão do artista e a mente do artista.

Arte contemporânea, Arte figurativa, Arte craft ou Koguei, divisões da Exposição Arte Bunkyo 2018, são maneiras de convivência. Cada vez mais estas manifestações se aproximarão, pois a busca é por significado. Caberá ao público sentir as várias manifestações da cultural contemporânea e se identificar com alguma ou com todas. É de difícil explicação, se considerar todas as linguagens como mecânicas manifestações históricas, saber por que podemos nos emocionar com uma cerâmica de 2.000 anos, uma tela de Pablo Picasso, ou uma escultura megalítica de 30.000 anos. É mais plausível imaginar que o espírito humano é o mesmo ao longo deste tempo e é ele que produziu essas inúmeras sínteses simbólicas que chamamos de obras de arte.

 

12ª Grande Exposição de arte Bunkyo 2018

De 21 até 28 de outubro

Organização: Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social

Rua São Joaquim, 381 – Liberdade

São Paulo, SP

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