Reflexão

Há sentido em associar-se?

Aparentemente soa como uma atitude que não surte muito efeito, mas se pensarmos que se trata de algo agindo no coletivo, sim.

Leonor Amarante  ABCA – São Paulo

Foto Jorge Almerado

Seja qual for o ponto de vista adotado, todo estudo ou análise sobre associações de arte, sejam nacionais ou internacionais, suscita a pergunta. Há um sentido em agremiar-se a uma entidade de classe?

Aparentemente soa como uma atitude que não surte muito efeito, mas se pensarmos que se trata de algo agindo no coletivo, sim. Uma vez perguntei a Harald Szeemann, que chegou a publicar um poema como texto crítico de uma de suas exposições, porque não gostava de escrever. “Na verdade não sou um escritor, mas um provocador de ritos”. Há uma dinâmica que impulsiona o refletir, especialmente quando se está cara a cara com a crítica. Mas o que é a crítica de hoje? A quem ela serve neste mundo saturado de feiras e bienais? Quais são seus novos textos de julgamentos, funções, formatos? A internet e as redes sociais propõem um lugar novo da difusão para a crítica de arte, mas elas são, de fato, mais democráticas, participativas e espontâneas?

Desenvolver uma crítica é como uma narrativa e tem o papel de deixar tudo sem solução, invocar renovação estética, trabalhar sobre a noção de experiência, compreender a estrutura de diferentes territórios, sejam eles reais ou psíquicos. O papel do jornalismo cultural ou da crítica jornalística de arte também consiste em examinar o essencial de uma proposta artística e comunicá-la ao público. Assim, a crítica de exposições, seja nos jornais, rádios ou televisão, coloca múltiplas questões sobre as obras expostas, as instituições que as expõem e a curadoria. O que se pode construir coletivamente a partir de olhares múltiplos, ativações e interpretações cruzadas?

No passado, a ideia de juntar-se à Associação Brasileira de Críticos de Arte surgiu com Sérgio Milliet, seu primeiro presidente, Mário Barata, Antonio Bento e Mário Pedrosa, entre outros importantes intelectuais atuantes na crítica de arte. Acreditava-se no poder transformador do crítico que, por si só, seria capaz e dar ao artista condições de existência dentro de um sistema de arte, ainda em formação. Era um momento em que o crítico seguia um grupo reduzido de artistas ou um único movimento artístico, que ele mesmo poderia ter ajudado a criar. Hoje o circuito de arte está menos intelectualizado, mais híbrido e muito mais experimental. Residências cruzadas entre jovens artistas e curadores emergentes pululam no País, mas ainda não se sabe em que medida esse tipo de crítica favorece a afirmação dos trabalhos desses artistas ainda em formação.

Cada premiação da Associação Brasileira de Críticos de Arte constitui uma rara oportunidade de reflexão, porque essa dinâmica pode criar uma dimensão crítica atuante ao envolver a todos em um exercício intelectual e democrático. No momento de escolhas dos indicados, quer se queira ou não, está em jogo o conceito do trabalho do crítico, o saber, a capacidade presumida dos pesquisadores, ensaístas, historiadores, teóricos, jornalistas culturais, professores de história da arte e de estética que movimentam o universo da crítica de arte.

 

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