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Impressões

Guignard e a placidez do cotidiano

Enfeitou a paisagem com igrejinhas como delicados pingentes dispostos assimetricamente num colar de duas tiras…

Sandra Daige Antunes Corrêa Hitner – ABCA / São Paulo

Alberto da Veiga Guignard, Paisagem Imaginante, 1955. 95 x 78 cm. Óleo sobre tela. Coleção Luis Antônio Almeida Braga. Foto: Reprodução.

Pode-se dizer que a alma de Guignard é simples, mas solene. Suas Paisagens Imaginantes, em geral, exibem amplos panoramas que se compõem de pequenas estruturas do cotidiano, sugerindo comunidades de vida interiorana plácida e amigável, que se cercam de um ambiente deslumbrante. As figuras ordinárias que aí circulam adquirem toda expressão por conta da ilusão que a arte do pintor produz.

São temas que se transformam significativamente à medida que o pintor altera o clima e o humor das paisagens, desloca perspectivas e, na combinação dessas variáveis, cria grande repertório para suas obras, alguns tão sublimes que chegam a esbarrar no tenebroso.

Guignard conhecia muito bem a escala ritmada dos tons e suas combinações. Na Paisagem Imaginante de 1955, particularmente, sem que inflacionasse nenhum ponto do espaço do quadro, articulou a aplicação dos matizes desde o primeiríssimo plano até o topo da tela, num tipo de perspectiva distante e quase irreal que apenas se assemelha às contingências da natureza.

Enfeitou a paisagem com igrejinhas como delicados pingentes dispostos assimetricamente num colar de duas tiras. É claro que, atribuído aos ornamentos, há uma escolha pessoal que remete a um certo respeito pela busca por um mundo melhor que elas representam.

A pintura arrebata o olhar e o gosto magneticamente, e o observador, acolhido pelo ambiente do amanhecer com suas cores frias, levanta os olhos em circunferência, a fim de desvendar o que há a mais em cada núcleo colorido que se forma em torno das igrejinhas espalhadas pelo quadro. E este ideal o envolve na rede de seus próprios sonhos, que passam a ser, neste momento, absolutamente recíprocos aos do pintor.

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EDIÇÃO 43

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