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Impressões

Da-dor-ao-riso-à-dor: mundo animal

Este texto é uma reflexão sobre a exposição-instalação do artista cuiabano Gervane de Paula “Mundo Animal – Uma provocação para Rondonópolis”.

Ludmila Brandão – ABCA / Mato Grosso

Hors d’oeuvre

A dor não dialoga, exige. Não espera, impõe. Não tergiversa, dói.
Para dela livrar-se…
Macera, mastiga, picota, martela, rasga, mói.
Divide, multiplica, soma, subtrai, compartilha, compadece.
Num gesto extremo, o artista conclama: soframos juntos!
Grito estético que propõe a reunião, em torno da cruz, das dores várias, mesmas, maiores e menores, seja para doer menos (dor de cada um), seja para doer mais e realizar a mágica de ultrapassar os corpos individuais (dor coletiva).
A arte não cura: dói junto.

Obra de Gervane de Paula. Foto: Rai Reis.

Fracasso

“Asnos beatos” e “rés apóstatas”, diz o artista indócil, molham cuecas e calcinhas diante da cruz. Sem dor não há arte.

Obra de Gervane de Paula. Foto: Rai Reis.

Fortuna

Uma floresta de cruzes compadecem.
Cruzes verdes, amarelas, vermelhas, verdes, negras;
Cristos nus, vestidos, togados, estilizados, personalizados, ausentes;
Crucificam-se também corações e vaginas, bichos e florestas, plata, plomo y arte.

A dor se instala. Na surdina, o riso inicia seu levante.

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A traição

Ri da dor.
Ri da morte, ri da guerra, ri da arte.
Ri do falo, ri do sexo, ri do gozo.
Ri do pau, ri do cu, ri da buceta.
Ri do homem, ri do bicho, ri da grana.
Ri da bala, ri da mala, ri da mula, ri da droga, ri do vício.
Ri do mato, ri do medo, ri da forca, ri da força.
Ri do riso, ri do roubo, ri da cor.
Ri do preto, ri do branco, ri do preto&branco.
Ri de mim, ri de si, ri de você.
Ri.

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Homem-jaburu: o orixá da dor e do riso

Quando éramos humanos de um lado e animais do outro, a dor que doía de lá não se suspeitava de cá. A névoa se dissipou, estamos todos do mesmo lado.

#somostodosbaratas

#somostodosserpentes

#somostodostuiuius

#somostodossaposetatus

#somostodosveadoscampeiros

#somostodosjacarés

#somostodospacastatus

#somostodoscapivaras

#somostodostamanduás

#somostodosonçaspintadas

#somostodosanjos

O homem-jaburu passeia entre nós – o mestre-cerimônia do mundo animal – semeando dor e riso, riso e dor. Não há o que pensar, o que dizer, o que julgar. Rir e sofrer apenas.

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