n° 39 – Ano XIV – Setembro de 2016  →   VOLTAR

Mostra

Cores de uma memória afetiva

Bazar Monalisa é o título da exposição do artista plástico Fábio Sampaio, na Galeria de Arte J. Inácio, em Aracaju

Lilian Cristina Monteiro França – ABCA/Sergipe

Natural de Santos, São Paulo, Fábio Sampaio conviveu em sua adolescência, antes de se radicar em Aracaju, Sergipe, com uma pequena loja da cidade, que vendia “um pouco de tudo” e que carregava em seu nome comercial dois pontos de interesse materializados em sua atual produção: o bazar, como ágora de uma comunidade e a tela icônica de Leonardo Da Vinci.

Fábio Sampaio tem a sua trajetória alicerçada na arte urbana, crítica dos costumes, intervenções em espaços públicos, grafites, colagens, desenhos e pinturas que se mesclam à Pop Art.

No Bazar Monalisa era possível encontrar inclusive materiais de construção: tijolos, cimento, fios de prumo, pás e carrinhos de mão, objetos que, em meio a uma profusão de outros elementos, organizavam-se criteriosamente no exíguo limite da loja. O projeto gráfico dos sacos de Cimento Poty ficou gravado na memória afetiva do artista constituindo-se no fio condutor de uma narrativa intrigante, instalada nas salas da Galeria de Arte J. Inácio.

Intervindo na embalagem original (Figura 1), Fábio reorganiza o discurso e cria vazios geométricos, tencionando a leitura de signos amplamente conhecidos e recontextualizando a sua fala.

Figura 1 – Bazar Monalisa, Fábio Sampaio, 2016. Foto: Lilian França.

A figura que representa a marca do cimento, o índio Poty, guarda uma semelhança emblemática com a “Monalisa” de Leonardo da Vinci, recuperando um campo simbólico de significados que inquietam a mente e provocam o expectador.

O logotipo, que já havia aparecido em outra série de 2014, “(Ré)Invenção da paisagem doméstica”, que o autor classificava como pós-grafites (Figura 2), continua a assombrar a memória de Fábio e ressurge como protagonista na paleta do artista.

Figura 2 – “Pitty um índio exuberante com uma ideia colorida, brilhante e estonteante”, Fábio Sampaio, 2014. Foto: Fábio Sampaio.

O terreno da similitude se adensa quando, pendurado por fio de prumo e trena, encontra-se um estandarte (Figura 3) cartografando os sacos de cimento em mapa de anunciação, recuperando a obra do artista sergipano Arthur Bispo do Rosário, que, com seus bordados, traçava rotas em direção ao céu. Pequenos índices acentuam propositalmente a proximidade: a silhueta da roda da fortuna, as flâmulas penduradas, os desenhos de volumes geométricos, o azul dos uniformes desfiados.

Figura 3 – Bazar Monalisa, Fábio Sampaio, 2016. Foto: Lilian França.

É interessante notar que o Grupo Votorantim se instalou em Sergipe no final da década de 1960 e, na década de 1970, implantou, em Aracaju e Laranjeiras, duas de suas mais inovadoras fábricas, justamente com a marca Cimentos Poty, constituindo-se numa importante alavanca para o desenvolvimento do Estado, processo representado, sutilmente, em outra das obras do artista (Figura 4).

Figura 4 – Bazar Monalisa, Fábio Sampaio, 2016. Foto: Lilian França.

Bazar, do persa bāzār, derivado do termo baha-char, pertencente ao dialeto pahlavi, significava “o lugar dos preços”, espaço de comércio popular considerado como importante força econômica e política, às vezes em oposição aos interesses das elites detentoras do poder. Nessa perspectiva, o artista dialoga com o mercado de arte, acidamente o comparando a um grande bazar, inserindo no grafismo de um saco de cimento Poty a marca “Sotheby´s” (Figura 5), mencionando a conhecida casa de leilões, e dedicando uma parede da galeria a palavra “Tate” (Figura 6), construída com pedaços de saco de cimento, em referência a Tate Galery.

Figura 5 – Bazar Monalisa, Fábio Sampaio, 2016. Foto: Fábio Sampaio.

Figura 6 – Instalação Bazar Monalisa, Fábio Sampaio, 2016. Foto: Lilian França.

A intrincada trama arquitetada por Fábio Sampaio escreve mais um capítulo (Figura 7) ao evocar a técnica da azulejaria, já esboçada nas formas dos recortes e colagens, parecendo remeter ao trabalho de Athos Bulcão, em sua modulação e geometrismo, ao que Fábio acrescenta cruzes/sinais de adição (cada detalhe é uma argumentação) e duas imagens do Poty/Monalisa, invertidas e em negativo, encerrando a costura poética que faz do bazar santista metáfora para o mercado de arte contemporânea, a história da arte e a transcendência.

Figura 7 – Bazar Monalisa, Fábio Sampaio, 2016. Foto: Lilian França.

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EDIÇÃO 39

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