Mostra

Beyond the Image, Juliane Fuganti e Marcelo Conrado

Dois artistas que travam o desafio de viver a arte sem fronteiras, caminhando e criando sempre além

Maria José Justino  ABCA – Paraná

Fuganti celebra a mão. As incisões na chapa, o dosar do depósito das tintas, o traço da ponta seca e do buril e tantas outras técnicas, somadas à estética, fizeram-na uma artista madura. Hoje possui pleno domínio da matéria, em especial da gravura, embora se aventure na pintura, na cerâmica e na fotografia. É uma pesquisadora contumaz. Sabemos que a matéria sempre foi o maior desafio para o artista, em especial para o gravador, em que a matéria “é pedra, ardósia, madeira, cobre, zinco… O próprio papel, com seu grão e sua fibra, provoca a mão sonhadora para uma rivalidade da delicadeza” (Bachelard). O desafio agora de Fuganti é trazer a fotografia para a gravura.

Deixou-se seduzir pelos símbolos – dos cristais à cruz. Em outro momento, explorou o ciclo, a forma arredondada que se conclui em feto, flores, vida. Provavelmente a vida é redonda, teria dito Van Gogh, ou tudo o que é reto mente. Toda verdade é sinuosa. O próprio tempo é um círculo (Nietzsche). Os redondos e ovalados nessa artista são formas orgânicas que cantam o instinto da vida. Ou então é a cruz que fala da ressurreição, da espiritualidade. E a cruz vira flor, raiz, espada, lâmina que cinde, corta e nutre. Em suma, suas obras sempre foram metáforas da vida. Volta-se agora para a natureza, interessada na paisagem, e de novo o reencontro com o redondo: a árvore se compõe em sua redondeza (Bachelard).

Juliane Fuganti, fotogravura, 60x80cm, 2015

A artista volta-se aos mangues. Restos de marés vazantes, matéria essencialmente simbólica, ligação entre terra e água, sal da vida. Interessada nas raízes que nutrem, equilibra-se entre o orgânico e o tecnológico. O ponto de partida é a fotografia. O olho espreita e seleciona o morredouro da paisagem. Desse idílio com a natureza, a artista retorna ao ateliê, carrega esse material fotográfico no computador, retrabalha a foto e busca, por meio da gravura, abrir o grão, isto é, interferir na imagem, na medida em que grava na placa e, então, imprime no metal. Não contente, interfere com aquareladas. Resulta uma foto-gravura-quase-pintura. Embriaga-se de natureza órfica para vertê-la em poesia visual.

Falei lá atrás da importância de Kiefer na obra de Fuganti. Trata-se de um fantasma que ignora o seu lugar, imiscuindo-se em sua produção atual. Reconciliada com o mundo, o trabalho de Fuganti hoje é mais telúrico, poético; paisagens que viajam entre a leveza de Monet e a implacabilidade de Kiefer, entre a leveza da mão e a aridez do real. Galhos-raízes expostos transformados em fios, linhas, escrituras que desenham uma nova paisagem. Desse vai e vem, linha e mancha, foto e mão, surgem sequências de jardins imprevisíveis. Dos vegetais em decomposição, encharcados de água salobra, de resíduos, das raízes aéreas, a artista cria um ballet que celebra a vida.

Juliane Fuganti, fotogravura, 30x100cm, 2016

Conrado caminha para o conceito. Seu trajeto artístico sempre foi a abstração. No exercício da mão, no gesto, no emaranhado das linhas nervosas, buscou a energia pura. Em seus desenhos e pinturas, primou pela elegância, depuração e simplicidade. Obras que conversam com o silêncio de Twombly. Mas a intimidade com o gestual nunca o afastou do pensamento. Sempre teve o controle do caos, o controle da mão.

A passagem pela Academia (interrogou em sua tese de doutorado a autoria na arte) veio perturbar esse idílio com a mão, empurrando-o ao conceito, à citação. A inclinação agora é para as coisas enquanto guardam conceitos, a coisa heideggeriana: o que se passa no mundo, o acontecimento, o sentido. Apropriando-se de frases e fotos, questiona a autoria e a originalidade. Cria uma fissura na intersecção entre imagem e texto. Nessa flutuação – ora imagem, ora texto –, ressignifica. O excesso de brilho que quase roça o kitsch é proposital, um choque no frisson retiniano. Seduzido pelo mundo das ideias, além da mão e da retina, aposta na criação coletiva, em que todos são autores. Basta pensar.

O artista recorre a bancos de imagens, portanto elas não lhe pertencem, ou melhor, pertencem a todos. Tudo está disponível, ao alcance da rede social ou em encontros fortuitos: frases aleatórias surpreendidas em caminhões, motos, no cinema, na literatura ou em prosa com amigos. Tudo é fonte que alimenta. Não as modifica, cita-as (fotos e frases) como as encontra, brincando com a dualidade entre imagem e texto. Em uma das frases não resistiu e fez uma interferência (No pain no gain virou No paint no gain). A dor necessária para fazer arte. Aqui Conrado pensa na dúvida de Cézanne. E o que vem depois? Frase roubada do filme de Sorrentino. Lembra-lhe o processo de criação. E o que vem depois é uma angústia que acompanha a vida de todo artista, pois não há controle sobre o tempo. Saio com Deus, se não voltar, fico com ele. Frase retirada de uma moto em São Paulo, essa Lilith devoradora de vidas.

Marcelo Conrado, No paint, no gain, apropriação e frase anônima, 50x67cm, 2016

Se tudo está disponível nas redes sociais – frases roubadas e inseridas nas fotos, com apuro –, nessas escolhas não se devolve a autoria? Imagem e texto: paradoxo ou o mesmo? Duchamp ou Warhol? Ou Russell Conner (Beyond the Brillo Box)? Nessas experiências, Conrado nos obriga a refletir sobre o que é arte e o que é autoria. Prefiro a decadência à modernidade dá o que pensar.

Marcelo Conrado, Prefiro a decadência à modernidade, apropriação de imagem e frase anônima, 40x58cm

A exposição Beyond the image de Juliane Fuganti e Marcelo Conrado foi contemplada no edital do programa anual de exposições da Gallery 32, da Embaixada do Brasil em Londres. A curadoria e o texto é da crítica de arte Maria José Justino. A Abertura será dia 06 de julho e a mostra permanece até 28 de julho.

 

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