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n° 42 – Ano XV – Junho de 2017  →   VOLTAR

Exposição

A Coleção Grondona, Missão Artística Francesa e a Pintura Genovesa

A mostra “Esquecimento e lembranças”, resultado de uma valiosa pesquisa, contribuiu significativamente ao valorizar obras do patrimônio artístico-cultural pertencentes ao Museu Nacional de Belas Artes.

Zuzana Paternostro – ABCA / RJ

Painel do título da exposição – Imagem: Programação Visual do MNBA/ IBRAM /MinC, Rio de Janeiro.

No Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, por diferentes motivos, há anos que o seu acervo de pintura estrangeira deixou de ser apresentado. Em maio passado, foi inaugurada a exposição Esquecimentos e lembranças: a coleção Grondona e a pintura genovesa. A mostra surpreende sob diversos aspectos – tanto de ordem técnica quanto por falta de condições adequadas do Museu para exibir algo além do seu acervo de arte nacional, ou mesmo das exposições de arte contemporânea e de eventuais efemérides.

Esquecimento e lembranças, resultado de uma valiosa pesquisa, contribuiu significativamente ao valorizar obras do patrimônio artístico-cultural pertencentes ao Museu Nacional de Belas Artes.

A exposição, fruto do trabalho do museólogo Anaildo Baraçal, que apesar de pretender no passado partir de um pensamento diferente – uma apreciação holística dedicada ao panorama da pintura europeia. Rendeu-se a descobertas contidas em documentos amarelados e centenários. Sua ideia holística inicial, cedeu lugar a pesquisa minuciosas de documentos encontrados em fontes primárias tais como no Arquivo e Biblioteca Nacional. Essa leitura atenta revelou a incidência de certos nomes e relatos, que o levaram a outras conclusões relativas à  aquisições da Coleção Real e à coleção de obras trazidas ao Brasil, em 1818, pelo conservador Joaquim Le Breton (1760 -1819).

A abordagem de Anaildo Baraçal, curador da mostra, trilhou caminhos diferentes dos tradicionais, seguros e de caráter pouco ousado. Antes de analisar qualidades estéticas, influencias estilísticas e dedicar atenção individual as obras escolheu uma mostra ricamente documentada com originais e cópias, muitas delas ampliadas e bem iluminadas, valendo-se de diversos recursos museograficos disponíveis.

Sua exposição, desenvolvida na linha do tempo, munida de documentos expostos in loco com visualização apropriada além de atraente, foi guarnecida com extensas informações superando as costumeiras etiquetas. Completam as salas D. João e Frans Post painéis de textos desenvolvendo o histórico da pesquisa e a consequente síntese do curador: inclusão das obras adquiridas de José Estevão Grondona. Sendo esta parte mais importante da descoberta do curador, torna-se indispensável registrar toda extensa pesquisa tornando as explicações nas paredes, painéis e documentos expostos insuficientes para posterior estudo de todo historiador. Para isso servem as – maioria modestas – publicações entre elas uma inédita da autoria de Luiz Carlos Palmeira (Origem da 1ª Pinacoteca do Brasil) da autoria de um funcionário da Funarte na década de setenta, bem como uma das mais recentes (da autora desta matéria) versando sobre Coleção Lebreton e a Missão Artística Francesa (MNBA), em 2000.

No painel Coleção Formadora, encontra-se a parte mais importante de seu trabalho, ampliando consideravelmente as fontes que propiciaram a origem do atual Museu Nacional de Belas Artes. Este, requereria também de um amplo descritivo guia, tanto para leigos como para profissionais.

Pintura genovesa

Esta última sala da exposição era abrilhantada com obras primas da região italiana onde floresceu uma das mais requintadas produções artísticas. Assim, o público teve oportunidade de apreciar ícones da pintura italiana barroca tais como: Giovanni Battista Gaulli (1639-1709), chamado de “Baccicco”, com seu quadro Retrato do cardeal Luigi Alessandro Omodei; Giovanni Benedetto Castiglione (1609-1664), chamado de “Grecchetto”, e a tela Entrada de animais na Arca de Noé; Gioacchino Aseretto (1600-1649); Giambattista Langetti (1635-1676), e ainda outros que tiveram atribuições de autoria alteradas. Foi sentida a ausência apenas de Giovanni Maria Bottala (1613-1644) e sua monumental obra Deuacalião e Pirra, pintada em Gênova no fim de sua vida.

Painel explicativo da exposição. (Programação Visual do MNBA/ IBRAM /MinC, Rio de Janeiro).

Toda esta pesquisa, a exposição resultante e o conjunto das obras exibidas suscitam uma pergunta: onde estarão os registros impressos das obras apresentadas nas paredes destas salas?  É possível dispensar pesquisas como essa, que devem servir para continuar com futuras descobertas, apreciações, reavaliações e/ou confirmações?

É preciso mostrar que depositar as informações técnicas apenas nas mãos de funcionários públicos de Museus, Galerias, Casas de Memória ou de Cultura não é suficiente. Mesmo ciente disto, não havendo verba para publicações volumosas destinadas a temas seletos, o simples registro desta pesquisa e a confecção de um guia para a exposição não terá de ficar para o futuro? Decerto, não seria mal investimento! Sim, existem anuários, porém estes reúnem incontáveis assuntos e com sua tiragem limitada, qual é o especialista que irá adquirir um volume? Enquanto isso, outras instituições investem em obras de arte e contratam curadores de diferentes formações, como este museólogo – dele, nem crédito vinculado a esta exposição foi encontrado no evento.

Certamente, esta pesquisa continuará pelas mãos dos interessados. Possivelmente não de imediato, mas já houve um início: já existe uma descoberta a ser aprofundada, burilada, partindo do que foi agora exposto. Seguramente novos desdobramentos virão.

Como toda pesquisa, esta também estará sujeita a aprofundamentos posteriores. Ainda assim, constituirá um avanço efetivo a ser notado com atenção. E, desta forma, tanto o nome de José Estevão Grondona quanto sua inclusão na história da Pinacoteca da Escola Real – denominada depois de Academia Imperial de Belas Artes, transformada no atual Museu Nacional de Belas Artes – não poderão ser omitidos. Ao contrário, mais um capítulo de total interesse e importância foi somado, enriquecendo a História.

A mostra Esquecimentos e lembranças: a coleção Grondona e a pintura genovesa pode ser apreciada até 16 de julho. De terça a sexta de 10h às 18h; sábado, domingo e feriado de 13h às 18h.

Ingressos: R$ 8,00 inteira, R$ 4,00 meia e ingresso família (para até 4 membros de uma mesma família) a R$ 8,00.  Grátis aos domingos.

Museu Nacional de Belas Artes: Avenida Rio Branco, 199 – Cinelândia – tel:  3299-0600.

Visite:  www.mnba.gov.br  ou  www.facebook.com/MNBARio

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