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n° 42 – Ano XV – Junho de 2017  →   VOLTAR

Exposição

Schwanke: circuito expositivo

Com curadoria de Rosângela Cherem, cocuradoria de Camila Ramos e Carlos Franzoi, o Museu de Arte Contemporânea Luiz Henrique Schwanke, a mostra é composta de 204 trabalhos dispostos em três diferentes espaços da cidade de Joinville.

Alena Rizi Marmo Jahn – ABCA / SC

O dia 27 de maio de 2017 marcou 25 anos de ausência de Luiz Henrique Schwanke. Artista joinvilense, sua produção pode ser caracterizada pela complexidade, diversidade, sensibilidade e erudição na execução de trabalhos de naturezas diversas, tais como desenhos, pinturas, colagens, objetos, esculturas, intervenções e instalações. Incompreendido por muitos, referência para outros, Schwanke bebia em diferentes fontes para a concepção de sua produção, desde a literatura, o teatro e a história da arte até elementos ordinários e questões diversas que permeavam o dia a dia de sua contemporaneidade.

Após 30 anos de trajetória, obteve reconhecimento nacional e chegou a participar da 21.ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo, em que apresentou a instalação Antinomia ou cubo de luz (Fig. 1). Por meio dela, projetou 30 mil watts de luz no espaço aéreo de São Paulo, na construção de uma grande escultura imaterial.

Fig. 1 – Antinomia ou cubo de luz, 1991. Estrutura metálica, 45 lâmpadas de multivapores metálicos. 3m2. 21° Bienal Internacional de São Paulo. Fonte: arquivo do artista.

Esta pode ser considerada a sua grande obra, e nela culminam questões presentes em diferentes momentos de seu percurso, entre as quais a discussão do claro-escuro e a do concretismo latino-americano. Ressalta-se também que essa obra, já em seu título, coloca em evidência, e de forma extraordinária e empírica, uma das principais características da produção do artista, a “antinomia”. Ao mesmo tempo em que se trata de uma escultura luminosa, ela não pode ser contemplada, já que é impossível não ficar momentaneamente cego ao encarar aquela grande quantidade de luz. Nesse sentido, Schwanke proporcionou o conhecimento do claro-escuro por meio da experiência do claro-escuro. Assim, o artista não apenas deu forma a uma produção fundamentada conceitualmente, fruto de profunda pesquisa e erudição, como é o caso dessa instalação resultante de mais de uma década de investigação acerca da luz na história da arte, mas também a trabalhos que falam diretamente aos sentidos. Seu mote para criação não estava apenas na maneira de pensar o mundo, mas também na de percebê-lo, o que fazia ampla e integralmente, Apolo e Dionísio a um só tempo.

O dia 27 de maio de 2017 também foi a data de abertura da maior exposição já realizada com trabalhos de Schwanke. Com curadoria de Rosângela Cherem, cocuradoria de Camila Ramos e Carlos Franzoi e realização do Museu de Arte Contemporânea Luiz Henrique Schwanke[1], a mostra, que se encerra em agosto, é composta de 204 trabalhos dispostos em três diferentes espaços da cidade de Joinville: Instituto Internacional Juarez Machado, Museu de Arte de Joinville e Associação Empresarial de Joinville (ACIJ). O recorte feito da produção do artista destaca aquelas que podem ser consideradas como as principais características de sua produção: a seriação, a depuração da história da arte e o estudo da luz.

Seriação: elemento estético

O gesto de seriar aparece em evidência no Instituto Internacional Juarez Machado, onde podem ser encontrados pinturas, desenhos, composições de objetos de plástico e colagens. Entre os trabalhos expostos, estão as séries dos perfis pintura, também conhecidos como Linguarudos ou Caras e carrancas, e os perfis de plástico.

Os perfis pintura (Fig. 2), de natureza catártica, foram produzidos nos anos 1980 e refletem a atmosfera nacional do retorno à pintura mediante gestos marcados, exacerbados e em grandes formatos, mantendo forte diálogo com o neoexpressionismo alemão e norte-americano, assim como com a transvanguarda italiana. Produzidas um a um e em série, quase que compulsivamente, tais figuras somam mais de cinco mil na produção do artista. Cem é melhor do que um, nessa seriação a quantidade pode ser entendida como um elemento estético.

Fig. 2 – Vista da exposição. Parede de Perfis pintura. Sem título. Anos 80. Foto: Alena Marmo.

Já os perfis de plástico (Fig. 3 e Fig. 4), concebidos no início da década de 1990, muito pelo contrário, são contidos emocionalmente na exploração da pureza e da concretude das formas e das cores, trabalhadas haja vista um jogo de seriação. Nesses trabalhos, predominam a verdade e a pureza do material e o raciocínio em detrimento da emoção, estabelecendo assim relação direta com o minimalismo, com o construtivismo e com o concretismo.

Fig. 3 – Sem título. Perfil de plástico preto, perfil de plástico branco, perfil de plástico vermelho (detalhe). 1991. 168 x 78cm. Foto: Alena Marmo. Acevo: Família Schwanke.

Fig. 4 – Sem título. Perfil de plástico preto, perfil de plástico branco, perfil de plástico vermelho (detalhe). 1991. Foto: Alena Marmo. Acevo: Família Schwanke.

Quando aproximados, Perfis pintura e Perfis de plástico, por intermédio de comportamentos antinômicos, colocam em evidência e discussão a pintura e o gesto de pintar, um pela manipulação da tinta e outro pela justaposição do plástico.

Também em diálogo com as vertentes construtivas, nesse espaço se encontram uma das quatro composições feitas pela seriação e justaposição de pregadores de roupas (Fig. 5) e as composições de maletas e de galões (Fig. 6), sendo estas produzidas no chão de fábrica.

Fig. 5 – Sem título. Pregadores de roupas de plástico e madeira. 1989. 70cm x 100cm. Foto: Alena Marmo. Acevo: Família Schwanke.

Fig. 6 – Vista da exposição. Parede com trabalhos sem título. Composição de galões (210 x 210cm x 36cm), composição de perfis de plástico (168 x 78cm) e composição de maletas (145cm x 111cm x 40cm) (da esquerda para a direita). Foto: Alena Marmo. Acevo: Família Schwanke.

Por meio delas, Schwanke aproxima objetos utilitários frutos da Joinville industrial da rigidez formal da produção construtiva da América Latina, ainda na discussão das especificidades da pintura. Tal discussão pode ser estendida à ACIJ, local em que na Sala Tigre estão dispostos mais dois perfis de plástico e, na parte externa, foram instaladas nove colunas de bacias (Fig. 7), nas quais também predomina a seriação de materiais de produção industrial.

Fig.7 – Sem título. Bacias brancas e pretas.1989. Foto: Marcio Paloschi. Acevo: Família Schwanke.

Depuração da história da arte

Na década de 1980, Schwanke deu forma a uma extensa produção pictórica organizada em numerosas séries que não se restringem às pinturas de perfis. Dessa produção, quatro também estão presentes no Instituto Internacional Juarez Machado: aquela apelidada por Cherem como Meninas (Fig. 8) e as séries conhecidas como Os torsos, Os Cristos e Os leãozinhos, respectivamente. Todas são marcadas pela gestualidade, expressividade e deformação, características próprias dos anos 80.

Fig. 8 – Sem título (meninas). Anos 80. Pintura e desenho sobre papel. 31,5 x 21,5cm. Foto: Alena Marmo. Acervo: Família Schwanke.

Em contraposição às pinturas, figuram 12 trabalhos da série dos Sonetos (Fig. 9), produzidos no fim dos anos 1970 e início dos 80. Por intermédio do uso do decalque, Schwanke construiu composições que seguem a mesma lógica estrutural que guia a concepção de sonetos musicais: 4, 4, 3, 3. Entretanto, o conteúdo de seus sonetos é visual, poesia muda, frutos do gesto de obliteração, conforme pontuado pela curadora.

Fig. 9 – Vista da exposição. Sem título (sonetos). Anos 70 e 80. Decalcomania. Dimensões variadas. Foto: Alena Marmo. Acevo: Família Schwanke.

Ainda no Instituto Juarez Machado, estão 13 dos 30 desenhos que compuseram aquela que pode ser considerada a mais importante exposição de Schwanke realizada em vida: A casa tomada (de Júlio Cortazár) por desenhos que não deram certo. Desenhos de 1979-80. Apogeu do claro-escuro pós-Caravaggio. Resultado de um prêmio obtido no 36.º Salão Paranaense (1979), a exposição foi realizada em 1980, na então Galeria Sérgio Milliet, do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro.

Organizados em séries, tais desenhos, que impressionam pela sua fatura, podem ser entendidos como o resultado do processo de depuração de importantes trabalhos da história da arte. Entre eles, destacam-se as três composições da série De uma conversa com Paulo sobre Mondrian (Fig. 10 e Fig. 11).

Fig. 10 – De uma conversa com Paulo sobre Mondrian. 1977. Ecoline, letraset e decalcomania sobre papel encerado. 63cm x 46,5cm. Peça 2. Foto: Giovanna Fiamoncini. Acervo: Família Schwanke.

Fig. 11 – De uma conversa com Paulo sobre Mondrian. 1977. Ecoline, letraset e decalcomania sobre papel encerado. 63cm x 46,5cm. Peça 3. Foto: Giaovanna Fiamoncini. Acervo: Família Schwanke.

Os dois trabalhos de Piet Mondrian que podem ser identificados nos desenhos dessa série de Schwanke são Composição com losango vermelho, cinza, azul, amarelo e preto (1924) e Composição em vermelho, azul e amarelo (1930). Eles foram escolhidos muito provavelmente pela forma como o artista holandês fez uso tanto das cores como da luz e da não luz. Entre os anos de 1920 e 30, Mondrian explorou em suas pinturas variações de quantidades de luz, reduzidas a diferentes qualidades de cor, e os desenhos de Schwanke são construídos pela colagem de decalques, figurativos, que trabalham a mesma proporção de cor e de luz presente nos trabalhos do artista holandês. É como se Schwanke desdobrasse a natureza abstraída por Mondrian, estabelecendo uma relação entre o neoplasticismo e a pop art.

Em torno da luz

Já no Museu de Arte de Joinville, a discussão que se estabelece pela observação dos trabalhos gira em torno da luz, seja como elemento pictórico, seja como substância divina e transcendental. Há nos espaços do museu desenhos dos anos 1970, pinturas e perfis de plástico, objetos e instalações dos anos 80 e um trabalho com luz, o qual Schwanke jamais tirou do papel. Logo no espaço externo se fazem presentes e impactantes sete colunas de baldes brancos encimadas por um balde vermelho, as quais foram apelidadas pelo artista de palitos de fósforo (Fig. 12).

Fig. 12 – Sem título (“palitos de fósforos”), 1990. Baldes brancos e vermelhos. Foto: Marcio Paloschi. Acervo: Família Schwanke.

Também nos jardins, formada por baldes brancos, pretos e vermelhos, está a Cobra-coral (Fig.13) montada pela quarta vez, todas as montagens ocorridas postumamente. Em ambos os trabalhos, percebe-se mais uma vez a antinomia, já que, ao mesmo tempo em que são lúdicos e bem-humorados, intimidam o sagrado e aludem a ele. É interessante observar que enquanto a Cobra-coral traz o olhar do espectador para baixo, para a terra, as colunas conduzem-no para cima, em direção ao infinito.

Fig. 13 – Cobra-coral, 1989. Baldes brancos, pretos e vermelhos, cabo de aço. 1989. Foto: Alena Marmo. Acervo: Família Schwanke.

O primeiro trabalho que pode ser visto ao entrar no espaço interno do Museu de Arte de Joinville é a grande Mandala azul (Fig. 14). As 13 mangueiras de bombeiro enroladas, as quais totalizam 260 m, dão forma a uma grande estrutura circular que marca, mais uma vez, a relação da produção de Schwanke com as vertentes construtivas. Imanente e transcendente, simultaneamente simboliza a ligação do homem com si mesmo e com o universo e remete ao esoterismo.

Fig.14 – Mandala, 1989. (Vista da exposição). 150cm de diâmetro. Mangueira azul e madeira. Foto: Alena Marmo. Acervo: Família Schwanke.

Já nas pinturas das Mancúspias (Fig. 15) a luz está presente tanto como um elemento pictórico como também conceitual. Com base no conto Cefaleia, de Júlio Cortázar, o artista deu forma a esses seres híbridos que possuem penas e pelos, seios e testículos e que, assim como Schwanke, gostam de luz.

Fig. 15 – Mancúspia, anos 80. Guache sobre papel. 66,2 x 96cm. Foto: Alena Marmo. Acervo: Família Schwanke.

Também de forma física e conceitual, a luz está presente no trabalho São José e o menino carpinteiro, de Latour (Fig. 16). Produzido no fim dos anos 1970 como parte da série de 30 desenhos que foi exposta em 1980 na Galeria Sérgio Milliet, conforme indicado pelo título, trata-se da depuração da pintura São José, carpinteiro (1642), de Georges de Latour. Muitas das pinturas do artista francês, tal como essa, possuem apenas um único foco de luz. Nesse caso, o foco consiste na vela segurada pelo menino Jesus, que ilumina o ambiente para que seu pai possa exercer o seu ofício. Em sua composição, Schwanke seguiu a mesma lógica da iluminação presente em Latour e substituiu o menino e a vela por dedos que seguram um palito de fósforo em chamas. Já no lugar de São José, submisso ao gesto de iluminar empreendido por seu filho, Schwanke colocou uma poltrona, posicionada tal e qual o carpinteiro, cujo desenho copiou de uma revista de design.

Fig. 16 – São José O Carpinteiro, de La Tour, 1979. Ecoline, lápis de cor, letraset sobre papel schoeller encerado. 62cm x 35cm. Prêmio I Salão Brasileiro de Desenho. Foto: Luiz Carlos Hille. Acervo: Família Schwanke.

Ainda no museu se vê um dos trabalhos mais impactantes da mostra, Claro-Escuro (Fig. 17). Ele consiste numa instalação formada por uma imagem plotada, e em mesmo tamanho, da pintura Deposição de Cristo (1602-1604) de Caravaggio, iluminada pelo verso por meio de holofotes intercalados por espetos de churrasco.

Fig. 17 – Claro-Escuro, 2003 (montagem póstuma). Instalação. Holofotes, espetos de churrasco, platagem. 300cm x 200cm x 100cm. Foto: Alena Marmo. Acervo: Família Schwanke.

Instalado com base em um croqui com apontamentos deixados por Schwanke, esse trabalho, segundo Cherem, compila todo o pensamento do artista, já que envolve elementos e questões presentes em diferentes trabalhos. Nele, está desde a discussão da luz e da história da arte dos desenhos dos anos 1970, passando pelos enigmas que envolvem a box arts dos anos 80 (também contidas na exposição), chegando à transcendência provocada pela instalação Antinomia ou cubo de luz, de 1991.

Visitar essa exposição linda é percorrer os caminhos de complexidade e sensibilidade desse que pode ser considerado como um dos principais artistas do Brasil do século XX. São 25 anos de ausência de Schwanke, que deixou uma produção rica e extensa, que demandará ainda muito mais tempo do que isso para ser estudada em sua totalidade, e talvez desvendada, sendo essa mostra um excelente ponto de partida.

[1] Mais informações em: <http://www.schwanke.org.br/plataformaeducativa/>. Acesso em: 17 jun. 2017.

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