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n° 42 – Ano XV – Junho de 2017  →   VOLTAR

Artigo

Exposição Pro Posições: aportes de artistas pesquisadores

Compõem a mostra dezesseis artistas que ocupam três grandes salas no MARGS. É muito significativa a postura da curadoria, ao escolher trabalhos que mostram as singularidades, aberturas para diversidades de poéticas, mais do que propor uma questão fechada de abordagem.

Niura Legramante Ribeiro – ABCA / RS

I – Introdução

Para comemorar os 25 anos do programa de Pós-Graduação do Instituto de Artes – PPGAV, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ocorrido no ano passado, a Coordenação do Programa, representada por Elaine Tedesco e Flavio Gonçalves, convidou as curadoras professoras Icléia Borsa Cattani e Maria Amélia Bulhões para realizar uma curadoria sobre obras dos artistas professores do programa. A exposição ocorre de 03 de maio a 25 de junho de 2017, no MARGS, em Porto Alegre. Para promover um debate sobre a mostra, está programado a realização do seminário “Conversas Cruzadas”, no dia 20 de junho, reunindo os professores artistas e os teóricos atuantes nos cursos de pós-Graduação em Artes Visuais, do Instituto de Artes. Nessa mesma data, ocorre o lançamento o livro comemorativo Pela arte contemporânea: desdobramentos de um projeto(1) pelos 25 anos do PPGAV. A publicação contempla textos nos quais os professores, tanto da teoria como da prática apresentam suas pesquisas.

O curso foi criado em 1991, primeiramente, com Mestrado e, posteriormente, em 1999, com Doutorado(2). A idealizadora do projeto foi a pesquisadora Icléia Cattani que vinha gestando o projeto desde 1987. Desde seus inícios, os cursos contemplaram duas áreas: em HTC – História, Teoria e Crítica e PV – Poéticas Visuais. Com este perfil, tanto na área teórica quanto prática, segundo Maria Amélia, foi o terceiro curso de Mestrado e o segundo de Doutorado no Brasil.

Na época da sua criação, o estado tinha uma produção plástica de tradição figurativa modernista e o PPGAV assumiu o compromisso de promover reflexões sobre arte contemporânea. Para Maria Amélia,

a arte contemporânea não discute ser figurativa ou abstrata, mas questiona romper com categorias, imagens do presente e do passado, cruzando áreas de conhecimento, compromisso assumido desde o início do curso(3).

Ao longo dos anos, o Programa tem estabelecido convênios com instituições do Brasil e do exterior – Valência e Paris, por exemplo, como forma de incentivo de formação aos artistas pesquisadores, muitos dos quais se tornaram professores do programa. Além disso, tem recebido alunos de várias cidades do estado, do país e dos vizinhos da América Latina(4).

O título da exposição Pro Posições se abre para diversidades dos trabalhos:

o prefixo Pro, (a favor) registra a postura comum de todos os artistas em defesa da arte contemporânea com seu caráter experimental da prática artística como pesquisa de uma docência aberta, investigativa e pluralista. A palavra posições assinala a presença de trabalhos individuais e originais de cada um deles(5).

Para a exposição, a curadoria estabeleceu os seguintes critérios: colocar obras de todos os professores artistas, aqueles que já atuaram e aqueles que continuam atuando nos cursos; escolher obras que possam mostrar a trajetória de pesquisa, ou o caráter experimental de questões processuais; estabelecer diálogos entre as obras de cada sala expositiva.

Compõem a exposição dezesseis artistas que ocupam três grandes salas no MARGS. É muito significativa a postura da curadoria, ao escolher trabalhos que mostram as singularidades, aberturas para diversidades de poéticas, mais do que propor uma questão fechada de abordagem. Esse respeito pelas individualidades aponta para, como diz o título, diferentes proposições dos artistas.

Ao apresentar a exposição, as curadoras (2017, p. 57) destacam a importância dos diálogos das obras como matéria, enfatizando os cruzamentos e contaminações entre diferentes linguagens. São trabalhos concebidos em diversos meios:  vídeo, fotografia, pintura, desenho, gravura, objetos que se desdobram em motivos como paisagens, mapas geográficos, imagens de acervos e de ateliês, palavras, interior do corpo humano, dentre outros.

As obras trazem problemáticas relativas ao modo operatório de processos de criação, como projeções, uso de fotografias como arcabouços pictóricos e gráficos, desenhos que se corporificam no espaço tridimensional, caminhadas pela cidade, exploração de imagens de exames médicos, revisitação a imagens da história da arte, da literatura, da ciência, da tecnologia, dos espaços urbanos e dos próprios espaços de representação da arte.

Os trabalhos presentes na exposição Pro Posições apontam para questões muito exploradas na arte contemporânea, como mestiçagens de meios e de linguagens, acervos revisitados, referências ao passado da história da arte, a serialização e os protocolos de singularização de imagens, diálogos entre diferentes disciplinas – arte com a ciência, a literatura, a biologia, a tecnologia, entre outras.

II – Poéticas dos artistas

A fotografia como premissa para a pintura tem acompanhado os percursos plásticos de Marilice Corona que vem trabalhando, de longa data, com representações pictóricas dos seus próprios cenários de produção e de seus referenciais estéticos. Neste sentido, se auto-representa em plena ação de pintar, no ato de seleção de seus documentos de trabalho ou mostrando situações de montagem de suas obras no espaço expositivo.  A citação de iconografias de seus trabalhos anteriores que se encontram no estúdio, a reprodução pictórica de obra do acervo do MARGS, como A Dama de Branco (1906), de Artur Timótheo da Costa são elementos constituintes de sua poética. Há, portanto, uma relação do seu ateliê, do espaço expositivo e da história da arte. Ao trabalhar com imagem dentro de imagem, pode-se dizer que a instalação pictórica que a artista apresenta na exposição, são comentários sobre seus processos de criação, sobre a história da pintura e da reprodutibilidade da obra de arte.

Elaine Tedesco incorpora em seu trabalho, uma imagem do espaço físico do acervo do MARGS, sobre o qual realizou uma de suas projeções tendo uma silhueta de um corpo de costas que contempla aquele espaço. A luz da projeção e a obscuridade do local fornecem um caráter noturno ao registro fotográfico do qual se utiliza para compor o trabalho. As sucessivas estruturas dos traineis e as canaletas no teto que fazem correr os telários que abrigam as obras, podem provocar uma alusão aos diversos enquadramentos que a janela da câmera fotográfica poderia produzir.

A economia de elementos formais é uma prática que caracteriza a produção de Hélio Fervenza, ao trabalhar com caracteres que afirmam a semântica de silêncios, de intervalos e de pausas. Por meio de material adesivado nas paredes, o artista trabalha, ao longo de sua trajetória, com parênteses, pontuações, letras, vírgulas, colchetes, sinais matemáticos que, muitas vezes, são colocados em locais inusitados do espaço expositivo, como teto, rodapés e cantos. Com pregos, ímãs e linhas de metal cria desenho no espaço que se configura nas dobras das paredes do MARGS. Com a distribuição desses elementos, indaga o espaço de apresentação da própria obra no espaço expositivo, propondo diferentes dimensões e espaçamentos dos sinais gráficos.

A permeabilidade entre o desenho e uma superfície cromática, entre o desenho e a parede do espaço expositivo se apresenta como potencial plástico nos trabalhos de Flavio Gonçalves. Linhas de contornos bem definidas de objetos cotidianos ou de mobiliários comuns em ateliês se sobrepõem a uma superfície de manchas e grafismos gestuais que, quando somadas, criam uma situação pictográfica. A ossatura das linhas do desenho estruturada por seus contornos em papel recortado ganha o espaço, indagando sobre a relação entre a superfície de apresentação e a obra. A linha não se encontra em estado de latência, mas se apresenta como um tributo de prestígio, força e vigor ao desenho.

A obra de Elida Tessler dialoga com arte e literatura, um claviculário composto por palavras retiradas de dois romances, “Um homem que dorme,” de Georges Perec e “Viagem ao redor do meu quarto,” de Xavier de Maistre, refere-se a um homem que se isola no quarto para reflexão sobre como se relacionar com o mundo externo. Esse grande painel, cujas palavras estão inseridas em plaquinhas identificadoras de chaves, é ativado pelo espaço de inserção do trabalho, sobre um balcão de guarda-volumes junto à entrada do museu. Assim, a obra se camufla na funcionalidade do espaço que a abriga.

Com uma distribuição espacial que lembra as provas de contato da fotografia, Eduardo Vieira da Cunha compõe suas iconografias pictóricas, que evocam uma prancha de taxonomia de elementos do cotidiano com objetos, meios de transporte, plantas e figuras humanas. Uma espécie de linhas como grades isola cada figura num espaço que lhe é próprio. Esses “fotogramas” pictóricos criam narrativas como em um filme.

 

As diferentes temporalidades de origens de imagens estão no centro do trabalho de Maria Ivone dos Santos nessa exposição, ao associar imagens do centro de Porto Alegre: pinturas modernistas Sem Título (1947) de Benito Castañeda e Barco Estaleiro (1939), de Luis Maristany de Trias, ambas pertencentes ao acervo da Pinacoteca Barão de Santo Ângelo, com tomadas fotográficas atuais. Os trabalhos são acompanhados de textos que descrevem transformações do centro da cidade. Desta forma, a artista coloca em diálogo representações da história da arte com a da história da cidade, memórias do passado e do presente, pintura e fotografia, modernismo e contemporâneo.

Os conceitos de maleabilidade, deslocamentos e territórios ativam a percepção cotidiana dos espaços urbanos vivenciados por Tetê Barachini. É com a tecnologia dos softwares de equipamentos de GPS e do Google Earth, que seus percursos em Porto Alegre são materializados como mapas impressos ou como objeto maleável em tecido, cujos zipers registram os caminhos percorridos. Ao permitir que o espectador interaja movimentando os zipers, a artista oferece a chance de refazer ou modificar as rotas por ela propostas. A autobiografia dos deslocamentos da artista mostra o quanto a tecnologia pode vigiar, supervisionar e tornar pública a vida privada.

 O entrecruzamento entre fotografia e desenho é o que constitui o trabalho de Sandra Rey para essa exposição. O olhar fotográfico da artista é um olhar de desenho que capta as linhas de entrelaçamento das raízes dos igarapés da ilha de Combú, em Belém do Pará. Como procedimento de pós-produção, Sandra destaca determinadas partes da fotografia que são construídas por camadas de sobreposições transparentes e as envolve em contornos lineares de formas geométricas que se contrapõem às formas orgânicas da natureza. Para a artista é uma forma de quebrar com a perspectiva e com os volumes aportados pela fotografia original. É um jogo entre a aparência de profundidade e a bidimensionalidade dos grafismos. Esta forma de tratamento plástico, de colocar em evidência partes da composição fotográfica, cria um punctum que fisga o olhar para determinadas zonas da imagem. As suas fotografias indagam sobre os conceitos de território, deslocamento, montagem e heterogênese.

Claudia Zanatta apresenta registros fotográficos e sonoros do plantio de mudas de plantas que, com sua resiliência podem vingar em meio às adversidades da paisagem de concreto da cidade. A artista extrai o imperceptível do mundo cotidiano que nem sempre ganha visibilidade.

As experiências de manipulação da imagem com o vídeo, por meio de colorizações, alterações e superposições, é a premissa utilizada para os trabalhos em pintura, de Romanita Disconzi. A partir do conhecimento da sintaxe do pixel, a artista passou a produzir pinceladas de forma análoga à unidade da construção eletrônica. Criando uma alusão ao scanner da imagem de televisão, as pinceladas são colocadas em uma linha horizontal. A artista lembra que esse trabalho chegou a ser chamado de Pintura Pós-TV, por Julio Plaza. Há, assim, um jogo entre a concepção do gesto pictórico produzido pela mão e a linguagem eletrônica. Ao selecionar a imagem da mulher gato, Disconzi passa pelas escolhas Pop de pintar ícones dos meios de comunicação de massa.

A tecnologia do filme em super 8, nos anos de 1970, foi o veículo utilizado por Carlos Pasquetti para o registro de suas performances, em um momento de efervescência do Nervo Ótico, de 1976 a 1978, do qual fez parte junto com outros artistas de sua geração. Rever esses vídeos traz significativas contribuições para a nova geração.  A concepção de mestiçagem está presente em seus trabalhos de fotografia e de desenho, já que ambos têm forte acento cromático.

As imagens dos bancos de dados com fotografias de corpos humanos de anatopatologias e desenhos desenvolvidos no computador, ganham animação em 2D e 3D, na tecnoinstalação proposta por Alberto Semeler. Trata-se de um trabalho que proporciona uma experiência estética “fisiológica” para o espectador, por meio de interação lúdica com música e efeitos visuais que incidem na imagem. Arte e ciência compactuam seus territórios.

Identificada com um dos regimes contemporâneos de mistura e/ou justaposição de diferentes meios, Maristela Salvatori faz uso da gravura, da monotipia, da fotografia e da imagem digital. Imagens fotográficas de amplos cenários arquitetônicos desertos, marcados por fortes contrastes de sombra e luz, têm se consolidado como documento de trabalho para as gravuras em preto e branco. Os enquadramentos inusitados, as tomadas frontais e, por vezes, aéreas dos assuntos, bem como as perspectivas abruptas presentes na fotografia, são conservados em suas gravuras. Porém, a artista não preserva a aparência da sintaxe gráfica da fotografia, mas cria evidências da passagem do gesto da mão e das manchas próprias da gravura, diferenciando-se da precisão documental de uma imagem de caráter mecânico.

As lógicas combinatórias, as relações entre processos de serialização e de imagem única, os jogos de repetição, os módulos são as questões que aparecem nos trabalhos com carimbos, em gravura em metal, em livros de artista e em vídeos concebidos por de Maria Lúcia Cattani. Superfícies em all over, de gestos e repetições aludem a uma caligrafia oriental, desenhos de linhas geométricas inseridos na pós-produção ligam elementos do real nas imagens dos vídeos, linhas como se pinceladas fossem, desenham gestos expressivos nas gravuras em metal. O desejo de experimentação juntou-se à gravura, ao desenho e ao vídeo na sua obra.

O trabalho em litografia de Nilza Haertel, de gestos expressivos abstratos, explora os jogos com as impressões de imagem. As suas obras se caracterizam pela exploração experimental do processo da gravura, diferentes trabalhos são gerados de uma mesma matriz, experimentando várias entintagens de forma que as partes possam ser intercambiáveis. O seu processo se alternava entre produções de séries numeradas e, outras, com uma única cópia, a prova de artista.

Com a exposição Pro Posições e o lançamento do livro, Pela arte contemporânea: desdobramentos de um projeto, o PPGAV pretende apresentar e registrar uma parte de sua história nos 25 anos de atuação e, ainda, respectivamente, oferecer ao público o conhecimento de parte das poéticas dos artistas e dos teóricos professores. O conjunto da exposição se mostra aberto para as diversidades de pesquisas plásticas que realizam cruzamentos entre diferentes meios, linguagens e disciplinas, de forma a manter conexões com proposições estéticas contemporâneas.

(1) O livro apresenta as seguintes sub-divisões: Um grande desafio; Pro Posições; Relatos de Pesquisa e Considerações Finais. As duas áreas de concentração foram contempladas: História, Teoria e Crítica e Poéticas Visuais. CATTANI, Icléia; BULHÕES, Maria Amélia (orgs). Pela arte contemporânea: desdobramentos de um projeto. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2017.

(2) O curso possui como linhas de pesquisas em PV: Desdobramentos da imagem e Linguagens e contextos de criação; em HTC: Obra de arte e seus processos constitutivos e Relações sistêmicas da arte.  A lista dos professores atuantes em cada linha de pesquisa pode ser encontrada no site: https://www.ufrgs.br/ppgav/programa/sobreoprograma/#page. O curso conta ainda com a Revista Porto Arte, lançada em 1990 que reúne textos de diversos pesquisadores do país e do exterior.

(3) Depoimento de Maria Amélia Bulhões em palestra no dia 06 de junho de 2017, no MARGS.

(4) O histórico de atuação do Programa pode ser encontrado no texto “Um grande desafio” das curadoras da exposição, no livro sobre os 25 anos do PPGAV.

(5) Conforme texto de apresentação da exposição Pro Posições.

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