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n° 42 – Ano XV – Junho de 2017  →   VOLTAR

Artigo

Musée du Quai Branly revisita um “velho” tema

O que levaria a instituição a apresentar a exposição Picasso Primitif, abordando um tema já conhecido?

Luana M. Wedekin – ABCA / SP

A relação íntima de Pablo Picasso com as chamadas “artes primitivas” é bem conhecida. Seja na influência transformadora para a criação de “Les Demoiselles d’Avignon” (1907), seja na virada do Cubismo Analítico para o Sintético, o processo dialógico do artista com a arte não-ocidental é bem documentado pela historiografia. O que levaria então ao retorno do tema proposto pelo Musée du Quai Branly, na exposição temporária “Picasso Primitif” (em exibição entre 28/03/207 e 23/07/2017)? Ensaio algumas respostas para a questão, mas ressalto principalmente o valor didático da exposição, pautada em rigorosa pesquisa documental e, além disso, uma proposta de diálogos fecundos entre obras do artista e obras produzidas em contextos não-ocidentais.

Primeiro aspecto a ser observado diz respeito à natureza do Musée du Quai Branly, instituição de caráter fortemente antropológico. Aberto em 2006 para abrigar cerca de 300.000 objetos, uma parte deles pertencentes às coleções do Musée de L’Homme e do Musée National des Artes d’Afrique et d’Océanie, mas abrangendo também produções do Oriente Próximo, Ásia e América. As circunstâncias de obtenção destes objetos estão ligadas ao período da França colonialista, assim como a aquisições particulares para composição de gabinetes de curiosidades.

Ora, as críticas quanto às formas politicamente incorretas de obtenção destes objetos, assim como das formas de expografia que os destituem de seus contextos buscam ser evitadas neste museu de diversas formas: o projeto arquitetônico de Jean Nouvel, com sua paliçada de vidro que separa o edifício da movimentada margem do Sena; a concepção de paisagismo de Gilles Clément com suas vegetações “indisciplinadas e longínquas”; o percurso interno espiralado em cujo centro, ainda que nas sombras, deixa antever centenas de instrumentos musicais dos mais variados tipos e origens. Curvas e transparências convidam o espectador a inúmeros atravessamentos culturais.

O curador da exposição, Yves Le Fur (que é também Diretor do Departamento de Patrimônio e das Coleções do Museu) pretende demonstrar que a arte negra “esteve presente durante toda a vida de Picasso” (2017, p. 4). Na sua primeira parte, “Cronologia”, o espectador é apresentado a uma série de fatos e provas documentais da relação do artista com produções não europeias. Em 1900 Picasso visitou a Exposição Universal de Paris, na qual apresentou uma tela no pavilhão espanhol e Le Four supõe que ele tenha visitado também os pavilhões da Andaluzia, Costa do Marfim e Sudão. Em 1906 o artista manifestou interesse pela arte primitiva catalã e travou seus primeiros contatos com a arte africana: a máscara branca fang (Gabão) que Derain comprou de Vlaminck e a figura Vili (República do Congo) adquirida por Matisse que Picasso encontrou na casa dos irmãos Stein. A primeira aquisição de Picasso foi um tiki, artefato em madeira das Ilhas Marquesas. Na figura 1, registro de 1955 de Picasso com o primeiro item de sua coleção de arte não ocidental.

Lucien Clergue, “Picasso avec la statue des Iles Marquises – La Californie, Cannes”, 1955. 34,9X35,5 cm, Altelier Lucien Clergue.

Foi igualmente nesta época que Picasso conheceu o Musée du Trocadéro, onde teve uma péssima impressão, incomodando-se com a atmosfera empoeirada, embolorada e depressiva do museu. Ele relatou a visita: “Quando fui ao museu do Trocadéro, estava sozinho e tive medo. Em seguida pintei Les Demoiselles d’Avignon, meu primeiro quadro de exorcismo”.

Nas cartas, as impressões do artista

Em “Cronologia” também é possível encontrar cartas nas quais o artista troca impressões sobre objetos diversos (com Robert Goldwater, por exemplo); uma carta na qual Picasso pede que Gertrude Stein lhe adquira uma peça e os valores monetários envolvidos; catálogos de exposições nas quais constam itens de arte não ocidental da coleção de Picasso; registros da doação de um ídolo das Novas Hébridas (sul do Pacífico) de Matisse para Picasso e várias das peças de sua coleção, cujas condições de aquisição são mostradas.

 Além disso, a exposição fornece uma análise cuidadosa de inúmeros registros fotográficos de Picasso, pessoais ou feitos por fotógrafos como Robert Doisneau e André Villers, nos quais é possível verificar que “atrás das telas, nos cantos, na desordem dos potes de pinturas, as obras africanas estão lá e ele sempre as conservou, como uma presença mais que uma referência formal” (LE FOUR, 2017, p. 4).

No catálogo da exposição “’Primitivism’ in 20th Century Art”, em 1984 no MoMA de NY – uma das mais importantes acerca do tema-, William Rubin afirmou que “Picasso era menos um colecionador que um acumulador de objetos” (1994, p. 14). O artista dizia não ser um connoisseur e sequer era capaz de distinguir entre arte da África e da Oceania. Pouco atento às peças raras ou autênticas, seu interesse repousava mais na “plástica e na beleza das soluções estéticas encontradas pelo artista ‘primitivo’” (BRETON, 2017, p. 24), ou como apontou Rubin, a “escultura tribal representava [para Picasso] primariamente uma afinidade eletiva e secundariamente uma substância a ser canibalizada” (RUBIN, 1994, p. 14).

Até aí a aproximação com o tema é linear, organizada racionalmente, as subseções se sucedem divididas por períodos, com suas evidências em painéis pintados de branco, displays de acrílico transparente, satisfazendo plenamente a curiosidade histórica do espectador. Para compreender a diferença entre as duas partes da exposição é possível recorrer à diferenciação entre os termos influência e afinidade, sugeridos por Rubin (1994). Nas investigações sobre as influências seria possível verificar as ressonâncias diretas de uma peça específica de arte tribal na obra de Picasso, como é o caso da máscara Grebo (Costa do Marfim) adquirida por Picasso e a construção cubista “Violão” (1912).  Esta é a perspectiva da parte cronológica da mostra.

Na segunda parte, “Corpos a corpos”, porém, a exposição muda radicalmente para uma abordagem mais “conceitual”. São apresentadas obras de Picasso e de artistas da África e Oceania com a temática do corpo. A sensação nesta parte da exposição é de suspensão absoluta. Pouco importam os registros temporais, anulam-se as distâncias espaciais e as diferenças culturais. A exibição das obras não é mais regida pela cronologia e abandona-se a ideia de evidenciar somente as obras com as quais Picasso teve contato.

Neste caso, pode-se lançar mão da ideia de “afinidade”, na qual a “justaposição” (operação levada a cabo também pela exposição do MoMA de 1984) das obras fala por si mesma. Exploram-se, então, as conivências, ressonâncias, cumplicidade das produções em diversas linguagens como pintura, desenho, escultura, assemblage de Picasso e produções de diversas origens culturais e épocas a partir de diálogos temáticos e formais.

Formas arquetípicas

Um primeiro eixo de confrontação é o corpo em suas formas arquetípicas, no sentido de formas “primevas e elementares”, de onde emergem corpos simplificados, modificados drasticamente com o objetivo de “encontrar sua presença essencial”, especialmente em sua verticalidade. Noutro eixo, apontam-se as metamorfoses dos corpos através de diversas operações como transformação, hibridização humano-animal, reversão, mutação, mise en abyme. Ressaltam-se os processos de desfiguração e destruição dos corpos, com muitas figuras em forma de máscara, híbridas e ambivalentes. Observa-se nas obras expostas a torção dos corpos, a deformação da estrutura simétrica da face através da qual Picasso desconstrói uma elaboração centenária da arte ocidental: o gênero do retrato.

Uma abordagem psicanalítica faz aproximar Picasso e as obras tribais a partir da temática do olhar (a ênfase dada aos olhos e múltiplas soluções formais que lhes conferem grande potência expressiva nos exemplares ocidentais e tribais); e também das forças instintivas do isso (sede da pulsão de vida e de morte, energia psíquica inconsciente poderosa) materializadas (exorcizadas) nas bocas, lugar de expressão e devoração; mas também nos órgãos sexuais, os quais apresentam (para o artista e para o imaginário ocidental) uma noção de sexualidade “primitiva” sem rodeios.

Uma intrigante fotomontagem reproduzida na mostra serve como objeto de análise final para esta apreciação da exposição “Picasso Primitif” (Figura 2). Parte da publicação satírica de Jean Harold “La tête des uns les corps des autres” publicada em 1953 e prefaciada por Jean Cocteau, a fotomontagem combinou o rosto de Picasso no corpo ricamente trajado e ornamentado de um rei da civilização Kuba (República do Congo).

Jean Harold, fotomontagem enviada a Picasso por Jean Cocteau e legendada no verso: “Picasso – Période nègre”, 22,5X16,2 cm. Coleção Musée Picasso, Paris.

Parte do caráter satírico da imagem reside na justaposição evidente: “cabeça de um, corpo de outro”, como diz o título da publicação original de Harold. A fotomontagem como linguagem não é apenas a combinação entre elementos retirados de seus contextos originais, mas justamente o conflito, a colisão entre essas imagens díspares das quais emergem novos significados.

A exposição “Picasso Primitif”, retorna a um tema de inegável interesse e relevância, especialmente para se pensar a ideia do “Primitivismo” como fenômeno ocidental, cujo sentido contemporâneo surge justamente do século XX, das relações da vanguarda heroica com as artes tribais (inicialmente os fauvistas seguidos de perto por Picasso). Tais reflexões aparecem já no clássico estudo de Robert Goldwater, “Primitivism in Modern Art”, publicado originalmente em 1938. Entretanto, apesar de proporcionar fartas evidências históricas e fecundos diálogos entre Picasso e a arte tribal, ao final, a mostra do Quai Branly causa certa inquietação. Como o rosto de Picasso colado no corpo do rei, fica a sensação de que algo não combinou bem…

O incrível setting do museu e sua chancela “antropológica” não garantem por si um entendimento não evolucionista do termo “primitivo”, cujo sentido não aparece problematizado na mostra. Pode-se pressupor que “primitivo” aqui remeta ao sentido positivo dado pelos artistas modernos, os quais carregavam a palavra de conotação de admiração e não (necessariamente) de viés eurocêntrico. Aliás, este olhar do artista moderno é fator fundamental para que muitos dos objetos da arte da África e da Oceania saiam do contexto dos gabinetes de curiosidades e ganhem o status de arte.

Ademais, um odor bolorento de etnocentrismo parece exalar do viés psicanalítico da segunda parte da exposição. A insistência em enfatizar na arte tribal seus aspectos “arquetípicos”, especialmente no que tange a “simplificação das formas” acaba por anular as diferenças culturais e reforçar associações (pelo visto ainda não superadas) entre arte tribal e formas arcaicas de pensamento e de organização social.

Ainda que o espectador contemple a segunda parte focalizando as confrontações formais, nas quais as imagens “falam por si”, o viés poderia ter sido enriquecido, por exemplo, pelas leituras densas – e ainda pouco difundidas – de Carl Einstein sobre a arte “negra”, compreendendo-a não a partir da convenção da representação da tridimensionalidade como erigida no contexto ocidental do Renascimento, porém, muito mais antropologicamente, em termos dos processos e modos de visão e relações da arte com o espaço específicos da escultura africana.

A exposição “Picasso Primitif” vale por seu rigor histórico, pela riqueza dos diálogos possíveis entre as obras do artista espanhol e dos artistas tribais, de certa forma, operando com a ideia de “confrontação”. Ignorando certos trechos dos textos psicanalíticos que acompanham parte da exibição, pode-se aprecia-la a partir de uma concepção einsteiniana de “luta entre fatos plásticos” (O’NEILL, 2015, p. 231). Mas, ao contrário da história da arte praticada pelo pesquisador alemão há um século atrás, a curadoria de Le Fur falha em redimensionar a visão do espectador sobre o tema.

Referências:

BRETON, Jean-Jacques. “Picasso à la découverte d’um ‘art raisonable’”. Beaux Arts: Picasso Primitif, Paris, p. 22-26, mars 2017.

GOLDWATER, Robert. Primitivism in Modern Art. Cambridge, MA/London: The Belknap Press of Harvard University Press, 1986.

LE FUR, Yves. “L’art nègre était là durant toute la vie de Picasso”, Entretien avec Yves Le Fur, par Claude Pommereau et Jean-Pierre Saccani. Beaux Arts: Picasso Primitif, Paris, p. 4-7, mars 2017.

O’NEILL, Elena. A tectônica (Africana) de Carl Einstein. In: O’NEILL, Elena; CONDURU, Roberto. (Org.) Carl Einstein e a arte da África. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2015. p. 229-242.

RUBIN, William. Introduction. In: RUBIN, William (Ed.) “Primitivism” in 20th Century Art. New York: The Museum of Modern Art, 1994. p. 1-84.

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