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n° 42 – Ano XV – Junho de 2017  →   VOLTAR

Artigo

O binômio azul e vermelho na produção plástica pictorial

Existem vários estudos sobre as tonalidades de cores e a harmonia tonal entre as mesmas, que de modo geral passam despercebidas no dia a dia. Por que uma cor é mais utilizada que outra?

Antonio Santoro – ABCA / SP

Rinaldo e Armida, Van Dick, 1629.

“Em se falando de cores, onde estão essas cores?
que avivam amores, adormecem as dores.
Fazem buscar e pensar…
Onde as vamos encontrar?”
Antonio Santoro Jr (2015)

A cor é um fenômeno fisiológico, de caráter subjetivo e individual, que sempre atraiu a atenção do ser humano, por sua intensidade e interesse em saber como obtê-la, para sua utilização na vida prática.

Nos últimos séculos existem várias pesquisas sobre este complexo fenômeno da cor, que foi estudado por várias disciplinas. Deste modo, as cores passaram a ser objeto de muitos autores sejam eles da física, da química ou da própria arte, cada um deles abordando a cor dentro do seu interesse de trabalho e atividade.

Segundo vários autores que pesquisaram ou escreveram sobre as cores, e sua influência no subconsciente humano, ou nos artistas,  as cores exercem um poder ou efeito de  influenciar a vida das pessoas. Segundo Modesto Farina:

as cores tanto no caráter fisiológico quanto  no psicológico proporcionam alegria, tristeza, exaltação ou depressão, calor-frio, equilíbrio- desequilíbrio, ordem-desordem. Se as cores são “positivas” e combinadas, a reação também será positiva”.

Farina, Modesto (1970)

A importância da cor continuou decisiva na mente dos artistas e no início do século XX encontrou uma relevância ideológica na arte, nos movimentos iniciais do modernismo.

Como professor e crítico de arte, escrevi este artigo, que se trata antes de tudo de uma comunicação que se pauta,  na apresentação de conceitos e inferências que venho estudando há um certo tempo criando algumas hipóteses, sobre a utilização das cores nas artes plásticas e visuais, desde longa data.

Existem vários estudos sobre as tonalidades de cores e a harmonia tonal entre as mesmas, que de modo geral passam despercebidas no dia a dia. Por que uma cor é mais utilizada que outra? Existe alguma regra para utilização das cores, na elaboração de qualquer pintura? Existe cor preferida nas opções pessoais dos artistas? Segundo, Goethe escritor e estadista alemão do século XIX, que fez também incursões no campo da ciência natural:

as cores em harmonia são aquelas que trabalham bem em conjunto ou sobrepostas, produzindo um visual atraente”. 

Goethe, Johann Wolfgang Von (1945)

Lembrando-me das palavras de Goethe, percebi que a utilização do azul e vermelho se destaca como recorrente na produção plástica pictorial desde os tempos antigos. Resolvi assim, procurar uma explicação para esta opção. Consegui elencar alguns elementos significativos, que serão relatados a seguir. O ponto de partida foi a busca de uma presença específica da cor azul, no cenário das artes brasileiras. Este fato se deu principalmente em função de algumas características típicas deste cenário, tais como no caso do Brasil, o céu tropical, em que o azul é cor predominante, as penas dos pássaros nativos, as flores, as cores obtidas através da manipulação de sementes e frutos naturais, e também as cores utilizadas na simbologia religiosa cristã e nas crenças da raça negra. Além do consequente sincretismo.

Ao se falar de raízes da “cor” no Brasil, optei por escolher inicialmente, a cor azul que, juntamente com a cor vermelha permite um viés: a presença da harmonia entre essas duas cores criando o que foi denominado por mim de binômio “azul/vermelho”.

Em um espaço aberto, num determinado momento do dia, ao se olhar para cima e observar a cor azul do céu em toda sua amplitude, e a cor vermelha esparramada neste espaço, percebe-se o “arrebol” representado por uma vermelhidão natural do por do sol, anunciando o cair da tarde como uma miragem, a qual por questão de segundos retira o observador de órbita, para leva-lo a divagar sobre esse harmonioso binômio.

A partir desta visualização foi realizada esta pesquisa no campo das artes plásticas para se chegar a alguns fundamentos tais como: “histórias, fatos, lendas, religiosidade…” que ocorrem na cultura brasileira e corroboraram para a existência do binômio.

Função plástica das cores

O binômio azul e vermelho é uma pesquisa em andamento, que recentemente foi tomando forma escrita, sobre a função plástica das cores, que depois de sentidas e observadas por intuição e sensibilidade vieram a ser aplicadas pelos artistas plásticos/visuais, sem uma obrigatoriedade, mas principalmente com um efeito de harmonização tonal.

Na verdade, a princípio, esta pesquisa foi inspirada em uma peça teatral, em cujo texto inicial abordava-se a questão do fulvo ao arrebol, isto é, de uma fruição estética sentida pelas pessoas, através da observação do nascer e do por do Sol.

Em 1902, o dramaturgo português Eduardo Garrido escreveu o drama sacro em cinco atos e quinze quadros: “Mártir do Calvário”, ou “Rei dos Reis”, representando a vida, paixão e morte de Jesus Cristo. Ao abrir a “cortina” ou “levantar o pano” (terminologias teatrais/circenses), ouvia-se à distância um coro que pouco a pouco se aproximava vindo terminar em cena, com a entrada dos camponeses.

Coro(1):
“No céu já não arde, o fulvo(2) Sol
Eis o da tarde, lindo arrebol(3)
No lar, a ceia esperando está
À nossa aldeia, corre e já…”

Esta peça decorre num crescente, ao transmitir a dor, angústia, o sofrimento de um homem, Jesus, que nasceu predestinado para salvar do pecado o homem com a sua morte. Para o público absorver esta ação que chegava a ser sufocante… Assim, para um transcorrer mais tranquilo, percebeu-se a necessidade de criar uma fruição, para desbloquear a tensão geral, que se instalava na plateia.

Naquele tempo, não existia a figura do diretor de espetáculo, mas existia o ensaiador, que juntamente com os artistas ensaiava e discutia o andamento das peças. Nessa discussão sobre a grande e tensa emoção gerada no espectador, houve uma sugestão do artista plástico dessa companhia circense, Paulo Reis, com a seguinte frase espontânea: “taca um azul e vermelho aí”. Perceberam então, que para obter essa sensação de fruição, a iluminação o primeiro ato deveria ser toda equipada com lâmpadas azuis e vermelhas, desde a ribalta até a parte superior da cena. Resultado: toda a plateia desbloqueada da tensão ficava preparada, apara as emoções que se seguiriam no transcorrer da peça.

Última Ceia, Philippe Champagne, 1648.

Fundamentos na cultura brasileira

A cor é um elemento que complementa um trabalho expressivo dos elementos visuais: linha, forma, superfície, volume e textura, ou seja, complementa estes elementos(4) em qualquer obra plástica/visual. Esta frase pode ser ampliada e complementada com a citação de Modesto Farina em Psicodinâmica das Cores:

 “as cores influenciam a vida das pessoas tanto no caráter fisiológico quanto psicológico. Proporcionam alegria, tristeza, exaltação ou depressão, calor-frio, equilíbrio-e-desequilíbrio, ordem-desordem. Se as cores são “positivas” e combinadas, a reação também será positiva”.

Farina, Modesto (2006)

Embasado nestas palavras iniciei a pesquisa histórica sobre a presença do azul e do vermelho, nas primeiras produções artísticas dentro da cultura do período colonial brasileiro e posteriormente no império e na república até chegarmos a nossos dias.

No período “Pré-Cabralino”, que se refere à História da Arte no Brasil, com respeito à arte indígena observa-se a presença deste binômio na composição das penas para criar adereços indígenas, como cocares, braceletes, tangas…, os quais apresentavam a harmonia da cor aliada à vermelha, na composição tonal.

Nas palavras de Darcy Ribeiro e Bertha Ribeiro:

“É na plumária que encontramos a atividade mais eminentemente artística dos nossos índios, aquela em que revelam os mais elaborados impulsos estéticos e as mais vigorosas características de criação própria e singular…”.

Ribeiro, Darcy e Ribeiro, Bertha (1957)

Os indígenas praticavam a arte plumária auto didaticamente, usando a intuição para criar o que achavam “belo” em sua concepção. Não são poucos os exemplos de cocares, mantos e outros adornos, em que usavam esta combinação tonal do binômio.

No início do período colonial brasileiro, a partir de 1500, a cor azul se fez presente sem a companhia da cor vermelha, mas impondo-se como veículo de grafia linear, desde u desenho representativo, uma cena de costumes ou ainda uma proposta decorativa, principalmente através da azulejaria portuguesa introduzida no Brasil com a colonização.

Nas pesquisas realizadas sobre este assunto descobriu-se que os portugueses na época procuravam utilizar o “azul-cobalto”, originário do lápis-lazúli(5), na decoração dos azulejos, cujos pigmentos eram importados principalmente da Ásia.

Ainda neste período, já em meados do século XVI, a raça negra foi introduzida no Brasil pelos portugueses, na condição de escravos para o trabalho forçado na lavoura. Resignados a esta condição e envolvidos no sistema sócio econômico foram também obrigados a abandonar sua religião de origem, o que aparentemente o fizeram.

Com o passar do tempo, os negros foram sincretizando tanto as suas manifestações religiosas como as respectivas entidades, nos cultos internos que faziam nas senzalas. Deste sincretismo surge uma simbologia de cores, que une o santo católico, inclusive Nossa Senhora e Jesus Cristo a uma entidade de umbanda respectiva, embora variando às vezes em função da localização geográfica do Brasil e das tribos negras que se espalharam em nosso território.

Ainda que, os negros não apresentassem uma atividade artística própria, não por falta de criatividade, mas porque lhes era proibido pelos senhores de escravos qualquer manifestação artística, entretanto os escravos o faziam através da escolha de gestos, expressões, batuques, vestimentas, turbantes, adereços para as danças rituais e de devoção religiosa, utilizando-se de guias(6) de contas coloridas nas cores verde e brancas, rosa, azul, combinando intuitivamente a posição das vermelhas e azuis.

O ensino das artes plásticas visuais no Brasil

Ao voltarmos atrás nossos olhos, para indagarmos como era ensinada a arte no Brasil colônia, percebe-se uma realidade do cotidiano, que já era comum na Europa desde os tempos mais antigos.

Os primeiros artistas aprendiam com professores particulares, estes, na maioria das vezes artistas, que se dedicavam a passar seu conhecimento e técnica em aulas em casa ou também ao ar livre, em locais de paisagens bonitas e agradáveis, para que estes absorvessem o máximo possível o cenário natural de sua terra. Esta foi uma característica recorrente do ensino da arte tradicional, advinda do Naturalismo, em que se preservava a verdade da pintura através do ideal de beleza e perfeição.

Deste modo, percebi que outrora nas aulas de “pintura”, ao trabalharem com a “metodologia de sensibilização individual” os professores/artistas instigavam os alunos a olhar ao seu redor, desde a Terra até o Céu procurando absorver toda gama possível de elementos aí existentes, observando suas linhas, suas formas, suas cores, para só após da observação direta, representá-las em suas “pinturas”.

Os professores/artistas lançavam mão de vários argumentos, para que os alunos traduzissem a realidade na pintura, aquilo que tinham observado na natureza.

Falavam ainda sobre a maior tela do mundo, e o maior artista de todos os tempos. A grande-tela, que envolve todo o Universo – o Céu, a existência do grande artista do universo, o maior de todos, que ao nascer do sol de cada dia cria nova composição visual, mudando as cores de sua paleta – Deus – “ser supremo, transcendental, uma energia superior… não importa qual seja a denominação que cada um utilize”.

Portanto, não é de estranhar que as obras produzidas nesta época, muitas vezes fossem de temática parecida, abordando cenas da natureza, naturezas mortas, santos, fatos heroicos, edifícios importantes na vida do dia a dia, principalmente as igrejas, marinas, praias infinitas e muitos retratos. Enfim uma gama de temas que foram muito bem representados nesta época denominada “acadêmica”.

“O Sacrifício de Isaac”, Dominichino (Domenico de Zampieri – 1427/1428).

Presença do binômio na evolução da História da Arte

Na História, os fatos sempre refletem uma questão de tempo e espaço. O mesmo aconteceu com este processo de harmonia cromática ou tonal, referente ao binômio pesquisado, fato que ocorreu nas artes plásticas/visuais, tanto no Brasil como em outras partes do mundo, muitas vezes simultaneamente, porém sem qualquer ligação de origem. A arte do Renascimento, essencialmente na modalidade da pintura, a partir do século XV é um destes casos.

“Em meados do séc. XVIII, arqueólogos revelaram que o uso da cor em certos elementos     das     ordens arquitetônicas (capitéis, colunas, triglifos, frisos), da Grécia bem como na estatuária, funcionava como meio de enfatizar a volumetria e valorizar a forma, além de corrigir distorções da percepção visual. Além disso, descobria-se a relação entre as cores utilizadas e sua simbologia, fator que era explorado pelo caráter narrativo e mitológico desses conjuntos escultórico-arquitetônicos. Dessa forma, o azul era associado à verdade e à integridade. O branco representava a virgindade e a pureza. O vermelho representava o amor e o sacrifício”.

Rambauske, Ana Maria (2002)

Na análise de várias obras realizadas no campo das Artes Plásticas, encontrei novamente a presença das corres azul e vermelha, ora de forma isolada, ora juntas quando colaboram para uma harmonia tonal, em função da produção artística renascentista e barroca, tanto na arte profana, em naturezas mortas, retratos, paisagens, etc… ou na arte religiosa em cenas de santos visualizadas nas igrejas, que vieram inclusive a estabelecer os ditames de um fazer artístico advindo do(7) “naturalismo”.

Na arte europeia, a presença do binômio, além da representação da harmonia tonal, tem também um sentido de foco de atenção, isto é, os olhos do espectador se votam quase que instantaneamente para delimitar sua presença, e absorver um fato novo.

Desta maneira temos um novo interesse na presença do binômio, aquele de sermos levados a refletir sobre o fato de que ele está delimitando, por exemplo, praticamente na maioria das obras que retratam a Santa Ceia, Cristo está no centro da mesa, com a roupagem azul e vermelha. No caso da “Última Ceia” de Philippe Champagne, pintor francês de origem flamenga do início do século XVII, tanto a figura de Cristo, ao centro da mesa, quanto a de Judas, na lateral direita foram representadas de azul e vermelho, provavelmente o primeiro em relação à lealdade, e, o segundo em relação à traição, que simbolizam.

A descida da Cruz, Roger Van der Weiden, 1436 – provável.

No caso da obra “A descida da Cruz” de Roger Van der Weyden, pintor belga, um dos mais importantes representantes de pintores flamengos no século XV, a alusão interpretativa do binômio azul e vermelho é para mostrar a oposição entre a vida e a morte. Cristo está morto. Quanto à Maria, entretanto, percebe-se pela posição anatômica de braços e mãos, a mesma está apenas desmaiada, portanto viva, para continuar sua jornada.

Podemos também citar o caso da pintura “O Sacrifício de Isaac”, de Domenichino, apelido de Domenico Zampieri, pintor italiano do século XV, frequentador da Academia dos Carracci, em que “Abrahão”, a figura mais importante da tela está pintada em azul e vermelho, isto é, nas cores do binômio, pronto para matar seu filho único “Isaac” amarrado às pedras, como conta o episódio bíblico. Mas um anjo chega e diz a Abrahão, que não precisará matar o filho Isaac. Deus estava testando sua fé e obediência. Neste caso, o azul e vermelho alude ao fato heroico.

Entre os artistas barrocos também foi comum a utilização do azul e vermelho, para chamar a atenção sobre o foco da pintura e o que esses artistas desejavam mostrar. Observem as ilustrações a seguir.

Primeiramente a obra de “Van Dick”, pintor do barroco holandês, século XVII, na obra “Rinaldo e Armida”, mostra um fato relativo à mitologia medieval, onde enfoca uma cena em que “Rinaldo”, guerreiro cristão, herói da obra “Jerusalém Libertada”, de Torquato Tasso, encontra a feiticeira “Armida”, a qual pretende matar. Entretanto usando de artifícios, ela o seduz, e o tira de seu objetivo. O binômio azul/vermelho dá ênfase neste caso, ao poder de sedução da feiticeira Armida.

A obra “A Santa Ceia”, do autor italiano Tintoretto (Jacopo Robusti), no século XVIII trás uma primeira novidade em relação às obras homônimas do Renascimento, quando coloca um grande número de personagens na pintura, e não apenas os 12 Apóstolos. O cenário aparentemente é de uma taberna e os apóstolos sentados a uma mesa comentam entre si sobre o que está ocorrendo. O binômio azul/vermelho é utilizado na roupagem de “Cristo”, com reflexo no esplendor à volta de sua cabeça enfatizando a humildade da figura divina do Cristo, criador da nova doutrina.

Inúmeros outros exemplos poderiam ser citados ainda, não só no Renascimento e Barroco, mas através dos tempos, quando os artistas provavelmente por intuição colocavam as cores: azul e vermelho, no foco principal da obra, pois este binômio atrai a atenção, levando diretamente o olhar do observador até ele. Testem, sintam a atração e percebam como a visão do observador geralmente é levada para os locais em que o azul e o vermelho se apresentam com maior intensidade.

É importante salientar também, que não há uma regra escrita para a utilização deste binômio, e ele também não deve ser imposto à vontade do artista. O binômio pode ser utilizado intuitivamente ou com a intenção de conseguir mais atenção a um detalhe especial da obra, ou ao todo, no ponto de vista do artista.

Última Ceia, Tintoretto (Jacopo Robusti – 1592-1594).

Teoria das cores na contemporaneidade

“A visão está tanto no cérebro como nos olhos, mas o olho registra a imagem, e o cérebro constrói sentido ao que é visto. A percepção da cor é dirigida pelo cérebro em vez de pelo órgão da visão, assim a cor tem efeito sobre a mente e sobre os sentidos”.

Danger, Eric (1973)

Chegamos à Idade Contemporânea. O século XX, quando houve o aparecimento de uma grande diversidade de estilos, movimentos e técnicas, que representaram acima de tudo, uma ruptura muito grande com a tela e o suporte. A descoberta da radiografia, a teoria da relatividade de Einstein, aliadas a outras inovações tecnológicas mostram que a experiência visual, já não é a mesma e não corresponde mais à visão do mundo da ciência, refletindo-se nas Artes Plásticas, numa total liberdade de criação.

A pintura contemporânea apresenta-se com total liberdade de técnicas, expressão e procedimentos, passa por uma série de inovações e criações artísticas, em que as pinceladas, geralmente mal sugerem a definição do tema, apresentando apenas rudimentos relativos ao mesmo. Não há mais necessidade de um foco de atenção, que o artista deseja chamar a atenção e especificamente destacar. Em função desta nova diretriz, a utilização de cores, já não apresenta as mesmas manifestações de antes, em consequência, o binômio azul/vermelho, já não aparece mais com a frequência de períodos anteriores.

Enquanto, alguns casos isolados de artistas acontecem, como é o caso de Yves Klein, que acentua a importância da cor azul, nas Artes Plásticas. Este artista francês considerado como “artista pop” foi o criador de uma tonalidade azul própria, para suas pinturas, que foi patenteada por ele e ficou conhecida, como “YKB”(8), Yves Klein Blue.

Num ato de contemporaneidade, Yves Klein, através de pesquisas e estudos sobre a cor, principalmente, a cor azul, chega a concluir e declarar que “a arte para ele é cor – o azul YKB”.

Monochrome Bleu (A cor azul), sem título – YKB191, Yves Klein, 1962.

Curiosidades sobre o azul e o vermelho

A cor azul: é uma cor fria. Ela é produzida por um pigmento produzido com fragmentos minúsculos, quase um pó, de uma pedra semipreciosa, que é muito difícil de encontrar. Os egípcios da Antiguidade conheciam um pigmento dessa cor há mais de cinco mil anos, o qual era misturado ao pigmento de lápis-lazúli.

Na idade Média o vermelho era o tom de nobreza e o azul era o dos servos, cujos tecidos para vestimentas eram tingidos com pigmento extraído de uma planta chamada “isátis tinctória” (popularmente denominada como pastel de tintureiro). O extrato fermentado de suas folhas era usado como corante azul em tinturaria, pintura e também para fins medicinais. Com a introdução do índigo e do anil, o lápis-lazúli caiu em desuso. Anil é a localizada entre o azul e o violeta. A origem do nome é árabe e persa, provém de uma planta natural denominada índigo.

No século VI da era cristã foi criada a técnica para a obtenção de pigmento denominado azul de ultramar feito com o lápis-lazúli, entretanto era muito cara, pois essa pedra só era encontrada na Ásia Oriental, principalmente na região do Afeganistão e na Rússia.

No Renascimento, com as grandes navegações no fim do século XV chegou à Europa, o pigmento azul indiano, que logo foi proibida, para preservar a produção do azul de isátis.

O pigmento azul da pérsia foi descoberto acidentalmente na Alemanha, numa experiência sobre a oxidação do ferro, sua obtenção tornou-se muito mais barata e acabou fazendo sucesso entre os pintores. Com o desenvolvimento da Química, a partir do século XVIII, tornou-se bem mais fácil a obtenção de centenas de pigmentos mais baratos e nas mais variadas cores.

No século XX, o artista francês Yves Klein, ocasionou algo inusitado, em relação à cor azul. Ele criou e patenteou uma tonalidade de azul, a qual denominou “YKB” fórmula registrada em 1960, no Instituto Nacional de Propriedade industrial, em Paris. Em relação ao binômio – em foco neste artigo – esta é a cor azul mais aproximada para a criação do binômio com o vermelho.

A cor vermelha: é uma cor quente. Muito cedo na história o homem começou a fabricar pigmentos para obter a tonalidade vermelha. Muitos pesquisadores acreditam que, o homem da Pré-história já utilizava o vermelho na pintura das cavernas obtendo-o através de argilas e terras avermelhadas do local. No Neolítico surge uma erva chamada garance (rubia tinctorum), cujas raízes produziam um pigmento de tom avermelhado, largamente utilizada pelos tintureiros para produzir a tinta vermelha.

Um mesmo tom de vermelho pode ser erótico ou chocante, inoportuno ou nobre. Um mesmo verde pode parecer saudável, venenoso ou tranquilizante. Um amarelo, radiante ou pungente. O azul, cor da simpatia, da harmonia, da fidelidade, apesar de ser fria e distante. Toda cor tem seu significado. Seu efeito é determinado pelo contexto, e as pessoas que trabalham com as cores deveriam conhecer a fundo estes contextos e efeitos.”

Heller, Eva (2013)

Na Roma Antiga, o vermelho era extraído de uma concha, “múrex”(9), encontrada no mar Mediterrâneo. Posteriormente na Idade Média, quando essa concha já não era mais encontrada, os tintureiros descobriram uma nova forma para elaborar o vermelho, através dos ovos de um inseto “a cochonilha”, que é um parasita de muitas árvores, da qual se extrai o “carmim”, outro vermelho intenso, brilhante e luminoso.

Pela dificuldade de era obtida desde esta época, e por toda a Idade Moderna, o vermelho era a cor das vestimentas dos reis e rainhas, além dos altos dignitários da Igreja, que o usavam em suas capas longas.

Interessante, ainda é observar que, desde a Idade Média os tintureiros(10), aqueles que produziam tintas para tingir os tecidos e pigmentos para os artistas, antes do surgimento da indústria química, só podiam trabalhar com determinadas cores, conseguindo uma licença especial fornecida pelas autoridades do comércio nas vilas medievais, morando inclusive, em ruas separadas uns dos outros, pois era grande a rivalidade entre eles.

Conclusão

As cores tem sua função dentro da pintura, elas harmonizam, tranquilizam, conciliam, compatibilizam, inflamam os sentidos, tudo dependendo do modo como são usadas pelos artistas. Portanto este artigo não pretende defender a utilização do vermelho e do azul em todas as produções artísticas. Ele apenas fez uma constatação da frequência com que essas cores vêm sendo usadas juntas, desde longo tempo, sempre produzindo uma harmonia tonal característica, muitas vezes gerando um enfoque dos olhos dos espectadores, num assunto ou tema que o artista pretendia destacar.

Assim também, nem sempre a utilização do vermelho/azul, numa obra provoca o binômio. Para isto ocorrer há a necessidade de se utilizar um azul forte como o cobalto, de preferência da tonalidade YKB, que se junta ao vermelho, mais comumente ao carmim, que é o vermelho mais espectral, ou o vermelho escarlate, numa intensidade tal, que ambas as cores a partir daí formem um foco de atenção sobre elas, produzindo a harmonia tonal que se torna reveladora e provoca maior observação ao binômio.

Lembramos ainda, das palavras de Eva Heller em seu livro, “A psicologia das cores”, quando diz:

“… nenhuma cor tem um poder sensorial sobre o espectador. Cada uma delas pode assumir uma qualidade diferente, de acordo com o tema ou junto a outras cores com as quais estiver sendo utilizada”.

Heller, Eva (2013)

Bibliografia:

ALBERS, Joseph. “A interação da cor”- SP: WMF-Martins Fontes, 2009.

BARROS, Lilian R. M. “A cor no processo criativo” SP: SENAC, 2010.

DANGER, Eric. “A cor na Comunicação” RJ: Fórum, 1973.

FARINA, Modesto. “Psicodinâmica das cores em comunicação” SP: Blucher, 2006.

FRASER, Tom e BANKS, Adam. “O Guia completo da Cor” SP: SENAC, 2010.

GARRIDO, Eduardo. “Martyr do Calvário – Vida, paixão e morte de N. S. Jesus Cristo” drama em 5 atos e 17 quadro –  Lisboa: edição portuguesa, 1902.

GOETHE, Johann Wolfgang Von “Teoria de los colores” Barcelona: Ed. Poseidon, 1945

HELLER, Eva. “A Psicologia das Cores” SP: Ed. Gustavo Gilli, 2013.

LIVRO DA ARTE – The Art Book” – 1ª edição brasileira: Martins Fontes Edit. – 1999.

PASTORIAU, M. “Dicionário das cores de nosso tempo” SP: Ed. Estampa, 1997.

PEDROSA, Israel. “Da cor à cor inexistente” SP: SENAC, 2009.

RIBEIRO, Darcy e RIBEIRO, Berta. “Arte plumária dos índios Kayapor” RJ: Seikel, 1957.

RAMBAUSKE, Ana Maria. Decoração e Design de Interiores: Teoria da cor. São Paulo: 2002. Apostila em PDF.

SAMPAIO, Diogo C. “Sistema das Cores” Porto, PT: Porto Editora, 2010.

 

(1) Coro: letra de um verso ou música, cantada por um grupo de participantes de apresentação teatral.

(2) Fulvo: cor amarela intensa, que surge no horizonte ao nascer do Sol.

(3) Arrebol: cor avermelhada do crepúsculo que tinge o céu, quando o Sol está se pondo.

(4) Os elementos visuais de uma obra de arte são: linha, forma, cor, volume e textura.

(5) Lápis-lazúli: é uma rocha metamórfica de cor azul utilizada como gema ou como rocha. Quando moído e processado, dá origem a um pigmento azul, que pode ser utilizado de diversas maneiras, principalmente na fabricação de tintas.

(6) Guias: colares de contas coloridas, em cores específicas para representar uma entidade de proteção da pessoa que as usa.

(7) Naturalismo: é a denominação de um conjunto de técnicas para produzir uma verossimilhança ilusionista.

(8) YKB: nome da tonalidade de azul inventada e patenteada pelo artista francês Yves Klein, em meados do século XX.

(9) Múrex: molusco marinho, da família dos gastrópodes, que vive nos oceanos. Tem concha muito ornamentada.

(11) Tintureiros: nome que se dava a partir da Idade Média, a pessoas que se especializavam em descobrir novas fontes para a produção de uma extensa gama de pigmentos de cores, inclusive o azul e o vermelho.

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