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n° 41 – Ano XV – Março de 2017  →   VOLTAR

Artigo

“Frans Post – Animais do Brasil” reúne desenhos inéditos

Sob a curadoria de Alexander de Bruin, a exposição traz uma cuidadosa seleção de um precioso material recentemente descoberto.

Zuzana Paternostro – ABCA / Rio de Janeiro

Exposição no espaço Philips Vleugel no Rijksmuseum

Posso dizer que comecei bem este ano de 2017: embarquei numa viagem ao exterior em função do lançamento, na Europa Central, de um livro contendo uma contribuição minha por escrito, em forma de capitulo[1]. Embora vinculado à História da Arte, ainda assim este texto não expressa totalmente a proposta deste artigo.

Para meu específico interesse de historiadora da arte europeia – embora ativa no Brasil desde 1972 e, por isso mesmo, especializada em assuntos brasileiros escolhidos dentre aqueles anteriores ao século 20 −, significativo foi o fato de que esta viagem se aliava à oportunidade de, mais uma vez, visitar o Rijksmuseum de Amsterdã[2]. Pude constatar que a Holanda continua a empreender seu mapeamento da gloriosa época de ouro que constituiu o século XVII e, neste levantamento, jamais esquece – sobretudo em relação às artes plásticas – esta sua pouco duradoura, porém frutífera, permanência cultural no Brasil. 

O propósito original deste artigo seria o de conferir o conteúdo de uma exposição intitulada Frans Post: Animais do Brasil. Instalada em um anexo do museu − desativado logo após esta exibição −, reunia cuidadosa seleção de um precioso material recentemente descoberto e pertencente ao Noord-Hollands Archief, em Haarlem, cidade onde nasceu Frans Post (1612-1680). A curadoria de Alexander de Bruin organizou não apenas a excelente exibição – incluindo também a realização de um workshop – como, ainda, um excepcional catálogo com textos e reproduções de alta qualidade[3].

Esta mesma instituição que descobriu este rico material, doado em 1888, efetuou a digitalização deste arquivo e ainda deu início não apenas à sua documentação como também à pesquisa que comprovou a autenticidade de inúmeras anotações e desenhos atribuídos a Frans Post.

A exposição contava justamente com este precioso arquivo, de onde vieram as mais importantes obras apresentadas publicamente pela primeira vez. Além da digitalização, este acervo ainda foi submetido a procedimentos de higienização e restauração para esta inédita finalidade de exibição. As principais obras consistiam de estudos preparatórios para grandes quadros a óleo: mais de 30 desenhos realizados a lápis, grafite, aquarela e guache que, em conjunto, completavam a mostra.

As pinturas cedidas – provenientes principalmente do Louvre (Paris), do Boijmans van Beuningen Museum (Roterdã), do Museu de Ciências Naturais (Leiden) e do próprio Rijksmuseum − documentam a utilização desses esboços preparatórios. Os mesmos que, em sua forma definitiva, depois seriam inseridos em numerosos quadros da paisagem brasileira pintados juntos com habitações e vestígios arquitetônicos nas diversas versões criadas por Frans Post no Brasil.

Cartógrafo e artista

Como participante da comitiva do conde Johan Maurício de Nassau, Frans Post cumpriu não apenas sua tarefa de cartógrafo como, também, a de artista que pintava a paisagem circundante do país que habitou por oito anos. Ao retornar em 1644, junto com toda a comitiva, continuou a produzir pinturas para a sociedade holandesa sempre interessada e, de um modo geral, ávida por paisagens exóticas[4].

Seus desenhos e estudos detalhados lhe serviram, ao longo dos anos, para manter fidelidade aos elementos observados durante a sua permanência no país, particularmente os oriundos da região do Nordeste brasileiro. Não se tratava apenas de retratar a fauna brasileira, suas anotações incluíram a flora e objetos exóticos decorando, ainda, mapas de outros mestres que, assim, se utilizavam dessas ilustrações de Frans Post.

Com a finalidade de melhor se aproximar das particularidades destas terras cobiçadas pela Companhia das Índias Ocidentais – associação próspera de comerciantes holandeses da poderosa Amsterdã – os desenhos de Post tornavam as pranchas cartográficas, tais como as de Georg Marcgraf (1610 -1648 ), sem dúvida bem mais compreensíveis.

Georg Marcgraf, Mapa do Brasil (detalhe)

As representações de outros animais (ao lado dos já bastante conhecidos macacos ou cobras) retratavam aspectos de bichos bem mais exóticos como capivaras, jacarés, tatus e tamanduás − que, acompanhados por anotações esclarecedoras, nos aproximavam tão minuciosamente desses animais a ponto da fauna deste longínquo continente tornar as suas paisagens ainda mais atraentes para os europeus.

Portanto, não é verdade que as pinturas de Post a óleo e de proporções maiores onde, em primeiro plano, constam pequenos animais exóticos sejam fruto de inclusão apressada e interesseira. A presença deles – como demonstra a rica coleção de numerosos desenhos, muitas vezes repetidos, e a cores – constitui o resultado de exaustivas observações de Post, sempre atento à anatomia e a todas as características desta fauna tão distinta e interessante.

Frans Post, Vista de Olinda, Rijksmuseum

Frans Post, Paisagem brasileira, Louvre

As paisagens do Nordeste brasileiro – tais como as vistas de Pernambuco, incluindo Recife, Olinda, Sirinhaém e demais regiões de interesse da Companhia das Índias Ocidentais − resultavam em atenção indispensável tanto à fauna como à flora, esta retratada com menor aplicação.

Neste item, o destaque pertence à obra Paisagem brasileira com moinho de cana de açúcar, pertencente ao acervo da Galeria Nacional de Dublin (Irlanda, Reino Unido), que retrata um verdadeiro zoológico de animais típicos da floresta brasileira. Aqui, igualmente se apresentam diferentes animais de pequeno porte, enquanto que figuras humanas e a flora − ou seus frutos, conforme desenhos de outros artistas como Albert Eckhout (1610 -1666) − não constam do repertório de Frans Post[5]. 

Mesmo os insetos presentes nas suas pinturas tornam-se protagonistas de um universo que inclui sua presença tanto na composição das pinturas quanto nos detalhes das molduras – particularmente uma obra prima de grandes proporções, que integra a coleção do Rijksmuseum, intitulada Vista de Olinda: possui moldura composta toda de corpos de diversos pequenos animais e insetos talhados com impressionante cuidado numa apreciável composição.

Alexander de Bruin : Anmimals in Brazil (catálogo)

Esta exposição constitui mais um importante avanço no conhecimento do trabalho de Frans Post, sem dúvida decorrente desta grande descoberta recente, pois esta coleção ainda não havia obtido divulgação midiática ou bibliográfica. O simples fato de apresentá-la desta forma sucinta e seletiva já constitui um amplo leque de interpretações e possibilidades para um conhecimento mais apurado tanto da obra de Frans Post quanto do Brasil Seiscentista.

(Rio de Janeiro, 28 de fevereiro de 2017.)

[1] Hommage à Josef Brimich, SUP (Skola Umeleckélo Priemyslu), organizado por Ján Hladík. Bratislava, Eslováquia: Editora Arseos, 2017.

[2] Após cinco anos como curadora do departamento de designe da Galeria Nacional da Eslováquia (em Bratislava), trabalhei como curadora-chefe da Seção de Pintura Estrangeira do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro de 1975 a 2011, período durante o qual me tornei representante do Brasil no CODART (Conselho Internacional de Curadores de Arte holandesa e flamenga), a partir de 2000. Minhas viagens frequentes à Europa, aos Estados Unidos e, sobretudo, aos Países Baixos refletem o meu envolvimento profissional com o  citado CODART.

[3] Este catálogo Frans Post – Animals in Brazil, de Alexander de Bruin, foi doado em fevereiro de 2017 à biblioteca do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro.

[4] Segundo a historiadora da arte Anja Sevcík, a produção e comercialização anual de quadros − na Holanda do século XVII – seria de aproximadamente sete mil peças. Uma pintura de boa qualidade era valorizada como uma moeda de troca e representava um determinado valor nominal. [Ver Sevcík, Anja: Rembrandt & Co. Príbehy umení století blahobytu. Národní galerie v Praze. Praha, República Tcheca: Ed. NG, 2014.]

[5] São bem conhecidas as esplêndidas pinturas de populações nativas da Terra Brasilis,  de autoria de Albert Eckhout – obras atualmente pertencentes à Dinamarca. Estes quadros recriam − ou melhor, “interpretam” − habitantes do Nordeste brasileiro segundo a moda europeia, com um visível esforço semelhante ao estilo da época de representar os seus biótipos humanos.  Ao passo que frutos da flora brasileira e seus inúmeros estudos detalhados em desenhos e aquarelas encontram-se disponíveis na Biblioteca Jagiellonska, na Cracóvia (Polônia).

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