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n° 41 – Ano XV – Março de 2017  →   VOLTAR

Entrevista

As trocas simbólicas na poética de Marcone Moreira

O artista evidencia o trabalho do homem comum, os conceitos de valor e de propriedade privada aliados aos aspectos estéticos e visuais.

Sylvia Werneck – ABCA / São Paulo

Marcone Moreira: maranhense, vive atualmente em Belo Horizonte

Marcone Moreira chega à maturidade com um belo histórico de vida. Cada vez mais conhecido e respeitado na cena contemporânea, ele é um self-made artist. Sua trajetória no circuito foi esculpida por suas próprias mãos, desde garoto. Como ele mesmo conta, não houve propriamente uma escolha, já que ele nunca pensou em atuar em qualquer outro campo profissional. Ao contrário, soube-se artista ainda bastante jovem, e foi hábil em construir sua rede de referências e aliados, com os quais aprendeu não apenas os caminhos para desenvolver sua poética, como também os caminhos da sobrevivência e longevidade no meio.

Eu o conheci quando ele contava pouco mais de vinte anos, mas já tinha importantes marcos no currículo como a participação no Panorama da Arte Brasileira do MAM sob a curadoria de Gerado Mosquera em 2003. De lá para cá, fez conquistas cada vez mais importantes e seu trabalho amadureceu e se sofisticou. Foi indicado ao Prêmio PIPA diversas vezes, ganhou duas vezes o Prêmio Marcantônio Vilaça, tem trabalhos em importantes coleções públicas, como o MAR-RJ, o MAM-SP e a Casa das Onze Janelas, em Belém. Como muitos, começou sua pesquisa pela pintura. Aos poucos, nutrindo-se do potencial poético surgido da realidade econômica e social de sua terra, a Amazônia, embarcou em um processo ligado à coleta de partes descartadas de caminhões e barcos, dando-lhes nova vida no universo expositivo através de sua reconfiguração em composições sem qualquer interferência além do arranjo – sua própria versão do objet trouvé duchampiano. A inserção destes materiais anônimos em um espaço museal lhes confere uma espécie de “reencarnação simbólica”, alçando a atividade diária de subsistência a novo patamar na esfera da cultura.

Há alguns anos, o artista vem desenvolvendo um trabalho a partir do contato com comunidades de trabalhadores, como artesãos ou ambulantes, com os quais estabelece uma relação de troca, ampliando a prática anterior para o que pode ser entendido como “objeto negociado e ressignificado”. Marcone apropria-se dos objetos em uso e oferece materiais virgens para a continuidade do ofício. Em jogo, as trocas que fazemos em nosso cotidiano, onde o valor é dado pela lei da oferta e da procura. O trabalho do homem comum, os conceitos de valor e de propriedade privada são postos em evidência, sem descuidar dos aspectos estéticos valorizados pelas escolhas visuais compositivas do artista.

O artista desenvolve um trabalho a partir do contato com comunidades de trabalhadores como artesãos ou ambulantes

Marcone Moreira nasceu em Pio XII, no Maranhão, em 1982, e atualmente vive em Belo Horizonte. Incansável, produz e expõe desde o fim da década de 1990, e já participou de inúmeras mostras coletivas e individuais. No final de 2016, teve uma grande individual no Paço Imperial do Rio de Janeiro, mostra sobre a qual escrevi para a o número 104 da revista Artnexus, já em circulação. Na capital mineira está em exibição na Galeria Periscópio, com “Todos os tempos”.

Apesar de nos conhecermos há muitos anos, foi a primeira vez que nossa conversa tomou a forma de uma entrevista propriamente dita. Tratam-se de perguntas simples, detalhes que não costumam ser contemplados no currículo do artista, mas que ajudam a compor o cenário da rota que o trouxe até onde está agora.

A seguir, trechos desta conversa:

SW: Você cresceu em Marabá, longe de qualquer centro de cultura e em uma família grande sem ligação direta com a arte. Como aconteceu de virar artista?

MM: Nasci no estado do Maranhão e mudei para Marabá-PA ainda adolescente. Mesmo sem estímulo ou alguma referencia familiar ligada ao campo da arte, desde a infância tive fascínio por esse universo e buscava algum contato através de imagens, folheando livros e, principalmente através da prática do desenho. A mudança para Marabá contribuiu para um contato mais direto com o campo da arte. Através da pinacoteca da cidade, tive acesso a um significativo acervo de produção de desenhos, uma tradição local, tendo como precursor o imigrante Augusto Morbach, que influenciou, ao longo de décadas, alguns artistas da cidade. Esses desenhos retratam, além de hábitos, alguns importantes ciclos econômicos desenvolvidos na região.

Talvez seja difícil precisar como aconteceu de tornar-me artista, mas acredito que como em todo artista, já havia uma pulsão e o desejo de reelaborar meu mundo da maneira como o percebia e, independente de uma realidade aparentemente adversa, isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. No meu caso, tudo aconteceu quando era ainda muito jovem.

SW: Em que momento você sentiu que precisaria sair do Pará para prosseguir com a sua carreira?

MM: As coisas foram acontecendo muito naturalmente: primeiro, em 2005, fui morar por um tempo em Belo Horizonte por ter sido contemplado com a Bolsa Pampulha – um prêmio de residência para jovens artistas, concebido por Adriano Pedrosa, que foi curador do museu da Pampulha. Consistia em residir por um ano na cidade. Foi um período importante, um ano intenso de interlocução critica com vários artistas e curadores convidados, fundamental para reflexões em torno do que estava tentando construir. Em seguida volto para o Pará e vou residir em Belém, cidade pela qual tenho muito carinho.

Por motivos de afeto, vivi os últimos anos na cidade do Rio de Janeiro e, no momento, voltei a morar em Belo Horizonte. Evidentemente, é perceptível a influência da paisagem amazônica na minha obra, contexto onde meu trabalho teve seu ponto de partida e onde mantenho um ateliê para onde eventualmente retorno para execução de alguns projetos. Ao mesmo tempo, essas mudanças de paisagens têm sido cada vez mais importantes na ampliação e afirmação de questões que, desde o início, me despertam atenção, dentre elas o interesse por meios de transportes (embarcações e caminhões), fluxos migratórios, comércio ambulante, deslocamentos e aproximações de materiais de diferentes contextos geográficos. Enfim, a ideia de movimento é de grande interesse nos desdobramentos do que venho construindo nos últimos anos.

SW: Sem ter tido um aprendizado formal, como você orientou seu caminho autodidata, em termos de que fontes buscar, que livros ler, que artistas acompanhar, etc?

 MM: Quando mudei para Marabá-PA, em 1997, coincidiu com o início de um movimento que reuniu um grupo de artistas que estavam inquietos em busca de um maior contato com a produção artística contemporânea. Acabei conhecendo e participando desse grupo. Inicialmente fizemos contato com a cena artística de Belém, que era a referência mais próxima, e a partir daí começamos a promover workshops, estabelecer parcerias com instituições como universidades e o Instituto de Artes do Pará.

Em seguida, após já ter realizado minha primeira exposição individual na galeria da Universidade da Amazônia/Belém, tento ingressar no curso de artes visuais da Universidade Federal do Pará. Porém, havia uma avaliação prévia, uma espécie de teste de aptidão, no qual fui considerado inapto a fazer o curso. Diante dessa negativa, continuei a desenvolver meu trabalho e a buscar informações e ambientes de trocas, que era o que pretendia na academia.

SW: Seu trabalho tem uma carga conceitual que, acredito, foi sendo elaborada aos poucos. Digo, me parece que em seus primeiros trabalhos com apropriações, sua preocupação era mais compositiva, formal. Mas hoje você está num caminho bastante envolvido em questões sociais, econômicas. Como foi se delineando esta rota?

MM: Minhas primeiras experiências, digamos, mais sérias na tentativa de construir um trabalho, se deram via a pintura (que hoje, de maneira expandida, é de grande interesse no que faço), porém, em um determinado momento aquilo já não estava me satisfazendo. Foi a partir desse impasse que parti para elaborar o trabalho com o princípio da apropriação, mas era realmente muito vinculado a interesses ainda puramente formais e pictóricos, como você observou. Desse primeiro momento até o presente, já passaram-se cerca de duas décadas. Nesse intervalo, muita coisa aconteceu e o trabalho foi absorvendo outras camadas e ampliando seu campo de interesses.

A partir do interesse em trabalhar com apropriação de materiais gastos, impregnados de vivências, com o tempo alguns processos para localizar e adquirir esses materiais foram ficando mais complexos; isso me levou a alguns projetos no quais estabeleço contato com alguns grupos sociais, tendo aproximação com realidades e questões diversas, me fazendo repensar e redirecionar o olhar para além do objeto de interesse estético. Essas experiências me afetaram e começaram a reverberar de forma mais evidente na obra.

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