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n° 41 – Ano XV – Março de 2017  →   VOLTAR

Livros

Os indicados ao Prêmio Sérgio Milliet 2016

A Comissão de Leitura fez um trabalho exaustivo nesta edição do Prêmio Sérgio Milliet. Os integrantes Leila Kiyomura, Mariza Bertoli, Neide Marcondes, Percival Tirapelli, Sylvia Werneck, e eu, pesquisamos e relatamos verbalmente e por escrito os livros que concorriam. Apresento as três resenhas que escrevi dos livros de José Armando Pereira da Silva, Mirian de Carvalho e Paula Ramos.

Jacob Klintowitz – ABCA / São Paulo

A Brasilidade na Pintura de César Romero. Autoria: Mirian de Carvalho, 303 páginas. Edição Expoart.

É excelente e raro o trabalho da autora, Mirian de Carvalho, neste livro. A qualidade deste trabalho se desenvolve em duas claras vertentes e que são, em minha opinião, as bases fundamentais dos grandes ensaios sobre arte e cultura. Ela se dedica a mostrar e demonstrar o artista e, simultânea e concomitantemente, ela amplia o seu entendimento para explicar as grandes teorias sobre cultura e o mundo em que vivemos. Mirian de Carvalho percebe o artista e o universo onde ele está inserido, e conhece e nos explica a civilização dos séculos vinte e vinte e um a partir da obra plástica. Ela dedica-se detalhadamente a situar, apresentar e revelar a obra de César Romero. E é este cosmos limitado, a obra de um artista, que ela utiliza como modelo para desenvolver e nos trazer o conhecimento de como é o universo cultural dos últimos dois séculos. Deste ponto de vista, é um livro primoroso. Mirian de Carvalho se insere na tradição do que temos de melhor entre os pensadores nas últimas décadas, Giulio Carlo Argan, Robert Hughes, Jean Cassou, Harold Bloom, Italo Calvino, Marguerite Yourcenar, Jorge Luis Borges, Bernard Shaw, John Updike, Henry Miller, Aldous Huxley, Giovanni Papini, H.G.Chesterton, Israel Pedrosa, Claude Lévi-Strauss, todos os autores capazes de nos apresentar vislumbres do mundo a partir da obra de arte plástica ou literária.

Em primeiro lugar, a crítica Mirian de Carvalho analisa minuciosamente a obra do artista César Romero, o assunto central do livro. Ela se detém na história biográfica do artista, relata as circunstâncias de vida, as características regionais, a formação intelectual e profissional, as relações do artista com a cultura de base, as formas religiosas e a sua capacidade de, a partir do regional, perceber e expressar o universal.

Em segundo lugar, Mirian de Carvalho amplia o horizonte nos apresentando de maneira clara, objetiva e, curiosamente, didática, as correntes do pensamento filosófico, sociológico e estético da civilização contemporânea ocidental. Não só ela cita os grandes mestres e pensadores, como ela explica o sentido de cada citação. Ela torna acessível o tesouro do conhecimento, pois representa os mestres e o seu pensamento e fornece a chave do entendimento do seu saber.

É rara e quase inusitada esta devoção ao saber, se me permitem a breve ironia de um senhor tão avançado nos anos. As citações raramente são esclarecedoras e tem tido o sentido de vassalagem às correntes acadêmicas mais aceitas no momento da citação. Eu sei, há notáveis exceções! Aliás, é neste grupo que coloco este trabalho de Mirian de Carvalho. As suas citações e obras de referência são ampliadoras: Juan Acha, Giulio Carlo Argan, Mário de Andrade, Mikhail Bakhtin, Roger Bastide, Câmara Cascudo, Ernst Cassirer, Roberto Damatta, Gilles Deleuze, Jacques Derrida, Umberto Eco, Arnold Hauser, entre tantos outros.

Eu gostaria de tornar um destaque nesta breve resenha o fato da autora ser detentora de um expressivo domínio da língua portuguesa e nos tornar a leitura um momento de prazer devido à essência poética do seu texto. Cito um único exemplo, como paradigma do todo, para que os meus caros colegas saibam do que estou falando:

“Exu abriu os caminhos para o altar de Oxumaré, o Filho do Senhor do Xale Brilhante. Divindade do arco-íris. Corpo de serpente. Corpo cromático, o dorso de Oxumaré ondula-se nas telas do pintor, colorindo os sinais do povo.”


Artistas na Metrópole. Galeria Domus 1947-1951. Autor: José Armando Pereira da Silva, 250 páginas. Editora Via Impressa.

Trata-se de um livro dedicado a nos revelar a cidade de São Paulo no período de pós-guerra, observada do ponto de vista do desenvolvimento da arte e do mercado de arte. Deste ponto de vista, da apresentação de uma cidade ainda provinciana que via com desconfiança a arte moderna, o autor, José Armando Pereira da Silva, fez um trabalho precioso. O livro é ele mesmo um mosaico de dados, catálogos, biografias localizadas em cronologia restrita, textos críticos jornalísticos, dados de aceitação ou rejeição de público e até mesmo vários levantamentos dos resultados de vendas das exposições.

O Texto de José Armando é correto, claro, direto, descritivo, como este assunto requeria a partir do enfoque do autor: a narração objetiva de um período. O núcleo central desta narrativa é o que se passou com a pioneira Galeria Domus. E nada foi poupado pelo autor, pois ele traça o perfil dos proprietários, o modo de agir, a personalidade, os interesses pessoais e comerciais. É um levantamento típico do jornalismo investigativo, com o diferencial, no caso de José Armando, de uma postura afetiva. O autor gosta dos seus personagens.

Não há dúvida de que este livro servirá como referência de época e será sempre um documento indispensável. Acrescente-se que a leitura do “Artistas na metrópole…” é fascinante, pois nos encontramos com o pensamento e a vida de homens e mulheres interessantes, numa cruzada em busca da modernidade, e capazes de assinalar a sua vida com uma reflexão profunda e instigante. Ali estão personagens como Paulo Mendes de Almeida, Quirino Campofiorito, Antonio Bento, Lourival Gomes Machado, Quirino da Silva, José Geraldo Vieira, Geraldo Ferraz, Ibiapaba Martins, Sergio Milliet, Osório César, Pietro Maria Bardi, Lina Bo Bardi, Alfredo Volpi, Aldemir Martins, Mario Gruber, Danilo Di Prete, Aldo Bonadei, Victor Brecheret, Ely Bueno, Emiliano Di Cavalcanti, Milton Dacosta, Oswaldo Goeldi, Arnaldo Pedroso D’Horta, Francisco Rebolo Gonsales, Tarsila do Amaral, e tantos outros que hoje compõem a nossa abobada celeste e muita da nossa memória pessoal.

A modernidade Impressa. Autora: Paula Ramos, Editora UFRGS, 655 páginas.

Paula Ramos quis a história de um período áureo do Brasil, a saga dos ilustradores da Livraria do Globo, em Porto Alegre, RS. E conseguiu fazer esta narrativa de maneira sensível e completa. E, na verdade, fez mais do que isto, pois traçou o panorama de um período brasileiro onde tudo parecia ser possível, ou impossível, no qual a construção do social era igualmente um projeto de vida individual. Trata-se de um livro abrangente, pois é imagem, é texto, são as biografias, é a descrição minudente do dia-a-dia, é a vida cultural em formação num país periférico e, neste país, numa região de fronteira, longe dos centros de poder e cultura, é a história diante dos nossos olhos e é, igualmente, uma ópera dramática na qual os sonhos podem ser realizados ou frustrados e que, ao final, as flores murcham, perdem a cor e se despetalam. Da glória ao abandono. Um retrato objetivo de um empreendimento comercial e cultural, talvez uma metáfora do percurso da vida humana, que a autora recupera e nos devolve. No seu livro, por um momento, as flores novamente estão perfumadas.

É a vida da ilustração na Livraria e Editora Globo e é igualmente a vida literária e cultural. Existem os ilustradores, os desenhistas, os pintores, todos engajados na invenção de uma nova história, e existem os poetas, os escritores, os críticos literários, os filósofos, os tradutores, os modelos nacionais e internacionais de excelência, pois estas atividades são complementares. Ilustradores e artistas como João Fahrion, Sotero Cosme, Nelson Boeira Faedrich, Edgar Koetz, Santa Rosa, Vasco prado, Carlos Scliar, Vitório Gheno, Gastão Hofstaetter, Carlos da Cunha, Fernando Corona, Ernst Zeuner, Aubrey Beardsley, Gustave Doré. E escritores como Erico Verissimo, Justino Martins, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Paulo Ronai, Cecilia Meireles, Jorge Amado, Mario de Andrade, Augusto Meyer, Mauricio Rosemblat, Simões Lopes Neto, Darcy Azambuja, Vargas Netto, Manoelito de Ornellas, Aldous Huxley, Thomas Mann, Honoré de Balzac, Virginia Wolf, Giovanni Papini, Agatha Christie, Oscar Wilde, Edgar Wallace,  Somerset Maugham, Conan Doyle, Stefan Zweig, Vianna Moog, Roger Martin du Gard, Romain Rolland, Beaumarchais, Marques Rebelo, Sergio Milliet, Virginia Woolf, Herbert Caro, Marcel Proust, James Joyce, Stendhal, Charles Dickens.

A narração é completa, pois apresenta os fundamentos políticos e econômicos que geraram esta atividade. As questões regionais, as discussões sobre identidade e, que, detalhadamente, nos conta da vida individual e biográfica. O percurso de cada um está assinalado. E do empreendimento artístico e comercial também, desde a fundação até a venda final da editora, dos direitos autorais e, principalmente, da marca “Globo”, que ajudou a consolidar as empresas de Roberto Marinho sob uma única logomarca.

É uma história de invenção, glória, apogeu e decadência. Talentos em afirmação e criatividade. É uma saga épica, mas narrada com moderação, de maneira límpida e correta, quase como um conto de fadas. Uma história de adultos num país como o Brasil e numa região tão distante do Rio de Janeiro e de São Paulo. E tem o supremo mérito – para mim de alto valor simbólico – de manter o interesse e o ritmo durante 655 páginas. O próprio lay out do livro contribuiu para esta qualidade, com as páginas divididas em três colunas, geometricamente equilibradas, o que permitiu as anotações e detalhes em corpo menor, com o uso sábio de páginas sangradas e com o difícil equilíbrio formal de tantas imagens. Trata-se de um projeto gráfico clássico na sua organização espacial e que não abdica da criatividade.

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