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n° 41 – Ano XV – Março de 2017  →   VOLTAR

Exposição

Fabiana de Barros comemora os 18 Anos de Fiteiro Cultural

A proposta é a ocupação de espaços urbanos com seus quiosques que são eles mesmos a obra e o lugar de referência para trocas simbólicas.

Hélcio Magalhães – ABCA / São Paulo

Fiteiro Cultural de Fabiana de Barros, criado a partir de um construto simples, inspirado em quiosques de comércio popular do Nordeste brasileiro, foi concebido por uma estrutura móvel, a qual torna-se palco para a dessacralização da arte. A proposta de Fabiana é a ocupação de espaços urbanos com seus quiosques que são eles mesmos a obra e o lugar de referência para trocas simbólicas. O Fiteiro é aberto à participação  de artistas, convidados e público em geral para lá se manifestarem de maneira livre e, estabelece diretamente a coautoria do público, em sentido completo de interação, sob um conceito de coletivo.

Fiteiro Cultural montado na Praia Branca, João Pessoa, 1998.

O primeiro Fiteiro da artista foi criado em 1998, em João Pessoa, quando se transcorria uma proposta de intercâmbio artístico entre a Suíça, Brasil e França. Nessa residência, os artistas convidados deveriam viver dois meses na cidade e produzirem, cada um deles, uma obra original, a partir das trocas de experiência, diversidade de linguagem e a própria relação entre os artistas e a cidade, para uma grande exposição.

Fabiana de Barros, uma das artistas convidadas, embora brasileira, filha do grande artista/design/fotografo Geraldo de Barros, vive há muitos anos na Suíça e tomou parte dessa proposta. Idealizou um espaço cultural que pudesse ser ideal para ela mesma. Um lugar prático que lhe servisse de ateliê, palco para performances, criações coletivas, discussões, apresentações ou até mesmo um espaço para o seu próprio descanso, relaxamento e contemplação. Assim, a artista partiu para o desenho de um quiosque com múltiplas possibilidades de abertura, configurações e posições.

Um quiosque com múltiplas possibilidades

A instalação de Fabiana é um cubo de madeira composto por um teto inclinado, uma pequena porta lateral e quatro janelas retangulares – uma de cada lado – que se levantam perpendiculares à estrutura, e que se sustentam no alto por meio de quatro vigas. O que permite múltiplas disposições.

O interessante é que durante sua pesquisa para a construção do quiosque, a artista mergulhou na relação das bancas de comércio de rua que a cultura local havia consagrado em comércio popular, como as barracas de praia que vendiam desde água de coco, bebidas, comidinhas. Fabiana procurou a origem dessas construções rudimentares e, nessa investigação acabou por descobrir o termo “Fiteiro” utilizado para nomear essas estruturas.

O termo vem de banca que vende aviamentos, principalmente fitas, pois era assim que, no século 19 vendiam-se aviamentos importados no nordeste brasileiro, nos fiteiros. Fabiana encantou-se com a cultura dessa maneira de fazer comércio, algo que lhe chamou muita atenção, durante sua observação dos fiteiros, em João Pessoa, foi a maneira pela qual as pessoas investiam todas as suas economias para fazer seu quiosque e tirar a licença para funcionar. Quando pronto, o comerciante não tinha recursos para comprar mercadorias. Mesmo assim, abria seu fiteiro e conversava com os possíveis clientes, assim identificava quais as necessidades da freguesia, pela conversa, pela aproximação e relação com as pessoas. O fiteiro já era um espaço de trocas simbólicas, mesmo no momento em que não tinha nada para vender, mas se oferecia como espaço para uma boa conversa. Nesses quiosques vendem-se gelo, bebidas, água de coco, comidas, passes de ônibus e, até mesmo fitas. O de Fabiana de Barros se apresenta como uma espécie de mini centro cultural.

Um lugar em constante mutação 

Em João Pessoa, Fabiana escolheu montar seu fiteiro em uma região de  vista privilegiada, na praia de Cabo Branco, conseguiu a licença e lá se instalou. Quando não queria fazer nada, apenas contemplar a natureza, a artista esticava uma rede, dentro de seu fiteiro e se punha à prática do ócio criativo, quando queria, pintava, desenhava, recitava poesias ou convidava artistas a ocuparem sua instalação em diálogos diversos com o público que se aproxima do fiteiro.

A obra de Fabiana de Barros, durante a primeira montagem, ainda garantia a facilidade de relação com outros artistas suíços, franceses e brasileiros; Em seu espaço, ela estava disponível para ajudar o grupo, fosse com relação às dificuldades com o idioma, questões administrativas, como apoio para conseguirem licenças, aproximação com os públicos, etc. Além de artista, Fabiana se tornou  uma facilitadora para todos eles.

De 1998 para cá mais quarenta trabalhos foram realizados em dezessete cidades diferentes. Em todas as oportunidades de apresentações ocorrem múltiplas ancoragens. O Fiteiro Cultural, por ser uma obra completamente aberta e colaborativa se reinventa e ganha sempre novos significados. Está em constante mutação, a procura de novas conexões e relações; no Fiteiro, tudo pode tudo é permitido.

Quando da apresentação do trabalho em São Paulo, em 2004, durante o Fórum Cultural Mundial, em um dos sete fiteiros produzidos na cidade, foi utilizado como rádio internet, outro foi ocupado por um grupo de artistas locais, outro transformado em uma oficina de gravura. A dimensão publicitária do “dispositivo-fiteiro” ficou em evidência com o Fiteiro Cultural apresentado como parte da mostra noviembre público, na Martinez Gallery do Brooklyn, em nova York, que funcionou como suporte para as atividades de um grupo de grafiteiros, em Sion, na Suíça, dois artistas transformaram um Fiteiro numa “Câmara escura”. em todos esses casos, os Fiteiros responderam às necessidades imateriais de artistas ou de comunidades, por meio da produção de espaços e atividades destinados tanto a satisfazê-los quanto a estimulá-los. 

Apresentação de Marina Abramovic, Fiteiro Cultural, Fórum Cultural Mundial, em São Paulo, 2004.

Ao longo do amadurecimento dos trabalhos realizados, a conclusão a que a artista chega é que há cada vez menos espaço para projetos dessa natureza. Nos últimos dezoito anos, ele percorreu diversas partes
do mundo: Grécia, Suíça, Armênia, Estados Unidos, Cuba, Portugal, França, Itália, Palestina e Alemanha. Ganharam espaços públicos, como também museus e, até mesmo coleções, atualmente, está presente como obra tridimensional no espaço virtual Second Life, um dos poucos lugares que ainda o abriga.

No comunicado de imprensa da VIII Bienal de Havana, realizada em 2003, Fabiana de Barros descreve o fiteiro “como uma das formas mais reduzidas e efêmeras de ocupação do espaço publico” e define sua própria obra “como uma escultura social que envolve uma utopia”.

 Exposição 

Fabiana de Barros com Danilo Santos de Miranda e Hélcio Magalhães na abertura da exposição (+ = -), no Sesc Pompeia, 2017.

Os 18 anos de Fiteiro Cultural estão sendo comemorados em (+ = -) Mais é Igual a Menos,  exposição de Fabiana de Barros inaugurada, no dia  30 de março no Sesc Pompeia, em São Paulo. Traz a trajetória da artista  e de sua obra através de maquetes que abordam um panorama de diálogos criado ao longo das montagens pelo mundo. A mostra apresenta também projeções de vídeos, um documentário do cineasta suíço Michel Favre, marido da artista e o lançamento da segunda edição do livro Open – Fiteiro Cultural de Fabiana de Barros,  publicado pela Edições Sesc São Paulo.

Lançamento do livro

Fabiana de Barros no Sesc Pompeia, 2017.

A exposição também oportuniza o lançamento da nova edição do livro Open – Aberto, em edição bilíngue (português/inglês), editado pelas Edições Sesc,  o livro apresenta um mapa da instalação dos Fiteiros Culturais ao longo os 18 anos de existência do projeto. Cada país contemplado conta com seu próprio capítulo, ricamente ilustrado com fotos, desenhos e imagens. Os diversos textos descritivos e reflexivos são assinados por 25 autores que participaram diretamente ou se encantaram com a obra sobre a qual discorrem, e há ainda uma entrevista com Fabiana de Barros realizada pelo jornalista e editor Alcino Leite Neto. O livro ainda está sendo lançado conjuntamente, na SP ARTE, no Pavilhão da Bienal.

“(+ = -)Mais  é  igual a menos”, de Fabiana de Barros, pode ser vista no Sesc Pompeia, na rua Clélia 93, São Paulo. Aberta de terça a sexta, das 10h às 21h30.  Sábado, domingo e feriado, das 10h às 18h.. Até 18 de junho de 2017.

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