EDIÇÃO ATUAL
EDIÇÕES ANTERIORES

n° 41 – Ano XV – Março de 2017  →   VOLTAR

Ensaio

As conexões entre arte e o novo luxo

Para os gregos, kalos, kalói, significa Belo – Bem – Verdadeiro. Miró assinala que “arte é o que seduz, ou não é arte”. Paul Klee diz que “a arte torna visível o invisível”.

Elza Ajzenberg – ABCA / São Paulo

Sandro Botticelli. As Três Graças – Foto: Reprodução.

Arte e Luxo possuem muitas conexões na trajetória histórica. Estão envolvidos por conceitos, gosto, poder e economia. Hoje continuam a sugerir inúmeras questões. Na prática, pode-se perguntar, por exemplo, o que seria mais luxuoso? Comprar em lojas de alta costura ou visitar uma exposição de renomado artista, com um grupo seleto? A tendência contemporânea é a de assinalar que o Novo Luxo, aquele que se afasta da compra pela compra, pela mera ostentação de ter, volta-se mais para a esfera do aperfeiçoamento, do conhecimento ou do contato com as obras de arte e seus significados.

Há, entretanto, apropriações desses conceitos, pelo sistema econômico-social e de marketing, que bloqueiam a visão crítica. As marcas não podem parar de vender porque o foco do consumidor de luxo está em mudança. Desse modo, a estratégia é apropriar-se desse novo conceito, do consumidor de luxo voltado às motivações artísticas, trazendo-o à realidade do mercado. É preciso criar ilusões de “não consumo”, ou de valor artístico agregado, para suavizar o impacto do novo luxo frente ao antigo conceito. Em consequência, surgem parcerias de grandes grifes com artistas ou designers famosos.

 Caminhos e possibilidades

Sandro Botticelli, Mercúrio (detalhe) – Foto: Reprodução.

Como renovar o conceito de Luxo ou aguçar uma visão crítica?

O caminho do Novo Luxo valoriza experiências pessoais, a Criatividade que procede do Saber. Entre o “ter” e o “ser”, a escolha recai sobre o “ser”, ou, no plano de uma consciência crítica, saber escolher e não se fixar na ostentação. Pensar que o Luxo, hoje, pode estar na construção de uma imagem criativa e inserida numa realidade socioeconômica contrastante e repleta de possibilidades.

Observar o acervo que inclui os termos Luxo, Beleza e Arte, dinamiza as possibilidades: Luxo (do latim luxus) indica modo de vida caracterizado por grandes despesas, ostentação, supérfluo. No senso comum, associa-se a melindre, afetação. Porém, a etimologia do termo enfatiza também elegância, magnificência, esplendor, sedução – indicativos que se aproximam de questões estéticas e da ideia de Beleza. Para os gregos, kalos, kalói, significa Belo – Bem – Verdadeiro. Miró assinala que “arte é o que seduz, ou não é arte”. Paul Klee diz que “a arte torna visível o invisível”.

O artista surge sempre como termômetro de seu próprio tempo. Sandro Botticelli (1445-1510), por exemplo, em sua obra Alegoria da Primavera (1482, Uffizi, Florença, Itália), pontua densas motivações greco-romanas, focadas pelo Renascimento. A escolha das figuras, as cores, as linhas e a luminosidade, somam-se à suavidade e elegância, destacando-se o fascínio de sua Flora, com a meticulosa elaboração da sua roupa, entre o gosto florentino e a metáfora mitológica. Note-se que a encomenda da obra, pela família Médici, teve propósito terapêutico. Esta obra resume não só um contexto, mas também conexões entre Arte, Beleza e o Novo Luxo, bem como descobertas para os tempos atuais.

Sandro Botticelli, Alegoria da Primavera, 1492 – Foto: Reprodução.

n° 41 – Ano XV – Março de 2017  →   VOLTAR

Deixe uma resposta