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n° 41 – Ano XV – Março de 2017  →   VOLTAR

Artigo

Escola de Belas Artes: 1816-2016
Duzentos anos construindo a arte brasileira

Para a exposição comemorativa foram enfatizados alguns dos muitos núcleos que projetaram a escola no cenário artístico do País

Angela Ancora da Luz – ABCA / Rio de Janeiro

Sala Clarival do Prado Machado. Núcleo Histórico da Pintura Acadêmica e início do século XX.

A exposição comemorativa dos duzentos anos da Escola de Belas Artes representou para mim um grande desafio, mas também uma realização completa, como ex-aluna da escola, professora, diretora, crítica de arte, pesquisadora e, finalmente, curadora da mostra que teve seu vernissage em 10 de novembro de 2016 e estendendo-se até 12 de março de 2017, no Museu Nacional de Belas Artes, espaço em que ocorre o evento.

As dificuldades foram inenarráveis. Quando aceitei o desafio tínhamos apenas pouco mais de um ano para realizar a exposição, uma vez que a escola estava trabalhando com profissionais competentes, mas que foram surpreendidos pelo esvaziamento total de recursos. Naquele primeiro momento a EBA contava com o apoio da Petrobrás que retirou o patrocínio após os problemas que atravessou, coincidentemente, no momento em que as primeiras ações para a realização da exposição estavam sendo tomadas. Sem verbas e sem espaço definido, o projeto da exposição parecia destinado ao fracasso.

Fui chamada pela direção da EBA e assumi a curadoria da exposição ciente de todas as dificuldades. Minha primeira ação foi convidar ADUPLA Produção Cultural Ltda, empresa que vem realizando significativos projetos culturais desde 1997 e com a qual já trabalhei. A equipe, encabeçada por Anderson Eleotério, sempre me surpreendeu pela capacidade de trabalho e soluções propostas, o que viria a se confirmar ao longo da exposição. A seguir convidei a Drª Kenny Neoob, da área de cultura da Escola de Belas Artes, para dialogar comigo, pois a dimensão do trabalho exigia discussão a cada passo.

Fizemos um novo projeto para a exposição, pois teríamos que diminuir custos sem perda de qualidade. Ao invés de focalizar os três grandes momentos da escola, primeiro como Academia Imperial das Belas Artes (1816 a 1890), a seguir como Escola Nacional de Belas Artes (1890 a 1965) e, finalmente, Escola de Belas Artes (1965 aos dias atuais), preferimos destacar alguns de seus marcos no contexto da cultura brasileira nos últimos 200 anos. Ou seja, recortes pontuais de artistas que, de alguma forma construíram o perfil da escola, conforme destaquei em parte do texto da exposição.

“Uma escola de grande peso no Império e que esteve aberta a todos os que desejassem buscar o caminho das artes, sendo aceitos pelos grandes mestres dos ateliês. O que norteava a seleção era o talento, sem restrição ao grau cultural, à raça ou situação econômica. Estêvão da Silva era filho de escravos africanos ainda no Império. Cândido Portinari havia completado o terceiro ano do curso “primário” quando foi aceito pela instituição, tornando-se a grande referência na pintura brasileira. Lúcio Costa de uma camada mais preparada e culta liderou o princípio de modernização da arte em 1931, no mesmo ano em que se instalou nos porões da escola o Grupo Bernardelli, de artistas que pintavam a noite porque precisavam trabalhar durante o dia. (…) São incontáveis os pintores, escultores, desenhistas, gravuristas, cenógrafos, indumentaristas, designers, restauradores e paisagistas que saíram dos ateliês e salas da escola. O grande desafio que a presente exposição nos trouxe foi o de apresentar apenas alguns destes artistas e suas obras. Mesmo se ocupássemos todas as salas deste museu, que foi projetado por Morales de Los Rios para ser a Escola Nacional de Belas Artes, (1908 – 1976) ainda assim seria impossível apresentar a excelência de tudo que aqui se produziu.”

Obtivemos o patrocínio da Secretaria Municipal de Cultura – SMC da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro através do edital VIVA A CULTURA – pois conseguimos inscrever o projeto no apagar das luzes do Programa de Fomento à Cultura da Prefeitura do Rio de Janeiro – Viva a Arte! O valor total seria de duzentos e dezesseis mil, oitocentos e cinqüenta e cinco reais e setenta e cinco centavos, o que representava aproximadamente a terça parte do que calculávamos para realizar a exposição que pretendíamos.

No primeiro momento não tínhamos um lugar para montarmos a exposição. O Museu Nacional de Belas Artes nos abriu as portas. É bem verdade que gozamos do apoio de outras salas, mas, ou teríamos que realizar a exposição no primeiro semestre ou no ano seguinte e seriam soluções impossíveis. No primeiro caso porque não teríamos tempo hábil para realizá-la e no segundo porque não seria no ano de aniversário da escola, além de fugir ao limite de calendário exigido pelo Programa de Fomento, que nos contemplava com a verba.

Recebemos as salas Clarival do Prado Machado e Joaquim Lebreton e, junto com a produção cultural, percebemos que teríamos que recortar alguns aspectos fundamentais para a exposição, uma vez que não poderíamos lançar nosso olhar sobre a extensão da escola, com a diversidade de cursos que ela hoje possui, além do Programa de Pós Graduação em Artes Visuais. Recortamos o acervo nos seguintes núcleos: Pintura Acadêmica, o início do século XX e seus desdobramentos, o Núcleo de Gravura e Desenho e a passagem para a arte contemporânea.

Sala Clarival do Prado Machado. Pintura Acadêmica.

Sala Clarival do Prado Machado. Núcleo Histórico da Pintura Acadêmica.

Sala Clarival do Prado Machado. Núcleo Histórico da Pintura Acadêmica.

O projeto cenotécnico considerou o espaço como um grande circuito, razão pelo qual tivemos que construir divisórias com o intuito de ampliar a superfície expositiva e induzir a passagem do fruidor, buscando o distanciamento necessário para sua melhor apreensão. Estas divisórias foram pintadas com um azul Klein, enquanto as paredes do museu permaneceram brancas, para diminuir os custos da montagem, bem como para facilitar a entrega das salas após o término da exposição.

Na parte central da Sala Clarival do Prado Machado colocamos uma vitrine com dois livros emblemáticos: Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil de Debret e a Arquitetura Toscana de Grandjean de Montigny. Procuramos partir deste coração pulsante, ou seja, da presença destes dois artistas que iniciaram o ensino artístico da Academia numa casa alugada no centro da cidade, pois o prédio da Academia só seria inaugurado dez anos depois, portanto em 1826. As obras para a exposição foram selecionadas do acervo do Museu D.João VI, do Museu Nacional de Belas Artes e de colecionadores particulares, estes últimos para a montagem da sala Joaquim Lebreton, de arte contemporânea.

Vitrine com os livros “Arquitetura Toscana” de Grandjean de Montigny e “Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil” de Debret. MNBA, Sala Clarival do Prado Machado.

O Museu Nacional de Belas Artes foi criado em 1937, durante o governo de Getúlio Vargas, funcionando no mesmo edifício construído por Morales de los Rios para a Escola Nacional de Belas Artes. O acesso para o Museu passou a ser pela Avenida Rio Branco, enquanto a entrada pela Avenida Araújo Porto Alegre destinou-se aos estudantes, mestres e funcionários da Escola Nacional de Belas Artes.

A divisão do acervo, que até aquele momento pertencia exclusivamente à Escola, se deu, então, levando em consideração a própria vocação dos espaços das duas instituições. As obras que estavam nos ateliês de ensino e produção, tal como os desenhos e as pinturas diversas, desde trabalhos realizados em aulas por professores e alunos, como também por pensionistas que iam para a Europa usufruir suas premiações ficaram com a Escola Nacional de Belas Artes. As grandes coleções, que vieram desde os primeiros momentos da academia passaram a constituir o acervo do Museu Nacional de Belas Artes.

Até 1975, o prédio abrigou o Museu e a Escola, cada instituição com seu acervo. Em 1975, quando a Escola foi transferida para a Ilha da Cidade Universitária, cada qual ficou com sua herança… A da Escola deu origem ao Museu D. João VI, criado em 1976. Ao trabalharmos com as duas coleções, a do Museu Nacional de Belas Artes e a do Museu D. João VI permitimos que o conjunto destas obras projetasse a totalidade da Escola em seus duzentos anos de ensino da arte no Brasil.

Para a presente exposição enfatizamos alguns dos muitos núcleos que projetaram a escola no cenário artístico brasileiro. Um deles é a Gravura, marcada pela presença de Oswald Goeldi, Raimundo Cela, Adir Botelho, Rubens Gerchman, Roberto Magalhães, Newton Cavalcanti, Lygia Pape, entre outros, todos importantes quer como estudantes, artistas e até professores. Foram destacados ainda, artistas como Abelardo Zaluar, Portinari e Burle Marx, pela significação da escola em suas biografias.

Sala Clarival do Prado Machado. Gravuras – século XX.

Sala Clarival do Prado Machado. Gravuras – século XX.

Zaluar, por exemplo, cassado em 1968 pela força do AI-5 apesar de não ser um homem de esquerda, foi um atuante e inovador professor, um artista moderno que, ao ser reintegrado na sessão ordinária da congregação de 27 de junho de 1980, iniciou seu discurso com o desabafo:

Caros amigos e colegas. Volto a esta Escola que aprendi a freqüentar e amar desde os meus vinte anos de idade [...] Mas uma Escola, uma Nação, não configuram abstrações ou entidades estáticas; elas são constituídas, além de espaços físicos, tempo e lugar, de gente, de pessoas humanas. Em certo momento de minha vida na Escola, pessoas promoveram meu afastamento, colocando-me na marginalidade do magistério oficial; coisa própria dos momentos anormais. Tive que aceitar a irrecorribilidade do Ato, mas não aceitei a injustiça e violência do fato[1].

Segundo depoimento gravado por Fernando Pamplona, Zaluar era udenista. No período da ditadura os estudantes se reuniam na Cinelândia, local em que os movimentos estudantis procuravam impor sua voz em favor da liberdade. Logo que a força policial comparecia, eles corriam para a escola e os jovens ficavam a salvo de qualquer agressão. Assim foi até o dia em que a direção impediu o retorno dos estudantes, ordenando que os portões fossem fechados para que eles não pudessem se beneficiar da segurança que a instituição oferecia. Foi então que Zaluar saiu de seu ateliê e, como catedrático, exerceu sua autoridade, determinando a abertura dos portões para que os jovens entrassem. Ele mesmo conduziu os alunos pelos corredores dos porões e deu proteção para que eles saíssem em segurança pela avenida México.

Com a visão geral de uma escola que teve um importante papel na sociedade, na política, no ensino artístico e na produção cultural destes duzentos anos, destacamos um grupo de artistas e suas obras para montar a sala Lebreton.

Obras contemporâneas. MNBA, Sala Lebreton.

Obras contemporâneas. MNBA, Sala Lebreton.

Selecionamos alguns de nossos artistas contemporâneos e suas obras. Jarbas Lopes, Marcos Cardoso, Jorge Duarte, o Imaginário Periférico, Hugo Houayeck, Pedro Varela, Bruno Miguel, o vídeo artista Maurício Dias, (Dias &Riedweg), Celeida Tostes, Lourdes Barreto, Mauricio Salgueiro e muitos outros que fizeram a sala de exposição ficar pequena. Não foi possível trazer as Figuras de Ascânio MMM, que pertence ao acervo do Museu, pois sua remoção deveria ser feita pela escada, face as suas dimensões. A escultura se encontra na Galeria do Século XX, no terceiro andar e a exposição ocorreria no segundo andar.

Maurício Salgueiro – MNBA, Sala Lebreton. Escultura Luminosa 20 / 2016 Metal e lâmpadas fluorescentes. Acervo do artista – Fotografia Maurício Saules Salgueiro.

Em três de outubro de 2016, um mês antes da exposição, aproximadamente, o oitavo andar do Prédio da Reitoria da UFRJ sofreu um incêndio de grandes proporções. A Escola de Belas Artes e o Museu D. João VI estão situados no sétimo andar do edifício e, apesar de não termos perdido nenhuma obra, houve prejuízos. O prédio foi interditado, a luz cortada e tivemos que retirar as obras selecionadas pelas escadas. O sistema de refrigeração deixou de funcionar e o maior medo era que a sala das obras raras fosse afetada com o comprometimento dos infólios, as obras seculares que guardamos e que, sendo constituídas por grandes folhas dobradas não podem ser colocadas em pé. Além disso, havia a preocupação com os documentos em papel e as centenas de obras significativas da biblioteca Alfredo Galvão.  Por tudo o que acontecia após o sinistro e a suspensão temporária das aulas, os estudantes estavam indignados. Uma parte não compreendia o porquê se comemorar 200 anos no caos que se instalou. Sofriam com o auge da indignação política pela situação do país e ocupavam os espaços possíveis para seus protestos, na busca de que suas vozes fossem ouvidas.

Prosseguimos com a exposição, já cientes pelas redes sociais que os estudantes planejavam um ato de repúdio ao que interferia em seus legítimos anseios. Esta manifestação iria acontecer durante o Vernissage.

Convidamos os estudantes de Artes Cênicas da Escola de Belas Artes a se apresentarem com a performance da Família Real Portuguesa. A obra performática foi o presente que estes estudantes ofereceram à Escola por ocasião das comemorações do aniversário da EBA. Seria uma forma de sinalizarmos que a Escola não era só constituída pelos núcleos selecionados, mas por cursos atuantes de profissionais da arte, impossíveis de serem representados em duas salas apenas.

Abertura da Exposição – performance “Família Real”.

Finalmente, em 10 de novembro de 2016 a exposição foi aberta. Lá estavam os manifestantes com toda a sua indignação, bloqueando a entrada dos visitantes nas escadarias do Museu. Queriam que alguém da escola fosse discursar para eles, com a irreverência que sempre caracterizou os jovens na busca de diálogo. Aceitei o desafio entre aplausos e vaias. Conversei sobre a importância destes duzentos anos e, mesmo com a indignação de alguns, ao final de certo tempo o grupo se dispersou e todos entraram para ver a exposição.

Aberta até doze de março recebeu um número significativo de visitantes e agradado a acadêmicos e modernos, alunos e professores e a todos os que descobrem a importância do ensino da arte e a força bicentenária desta escola.

[1] Primeiro parágrafo do discurso proferido por Abelardo Zaluar e transcrito na ata da congregação de 27 de junho de 1980.

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