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n° 40 – Ano XIV – Dezembro de 2016  →   VOLTAR

Homenagem

Ferreira Gullar e os Encantamentos

Figura singular, de alta densidade intelectual e emanante sensibilidade poética…

Daisy Peccinini – ABCA/São Paulo

Ferreira Gullar: eleito “imortal” da Academia Brasileira de Letras (ABL) em 2014. Foto: Divulgação

Em breve texto faço homenagem a Ferreira Gullar relembrando momentos de contato com ele, que se, em verdade, foram experiências inesquecíveis e grandes encantamentos.

Figura singular, de alta densidade intelectual e emanante sensibilidade poética. Era um homem alto, sereno e sempre generoso. Nos anos de 1977 e 1978 atendeu-me   e foi disponível à equipe de alunos   da Faculdade de Artes Plásticas da Fundação Armando Álvares Penteado que coordenei, desenvolvendo o projeto de pesquisa sobre a questão do objeto na arte nos anos 60. Trabalho que redundaria na exposição de mesmo nome no Museu de Arte Brasileira da FAAP.

 Em sucessivas e prolongadas entrevistas, via telefone, com tranquilidade tratou do neoconcreto e dos não objetos.  Dispôs – se a colaborar, não só cedendo o seu texto-manifesto primordial do neoconcretismo, Teoria do Não Objeto   , a ser publicado no catálogo, como texto de referência. Ainda enviou duas obras para a exposição uma era o Poema Não Objeto, 1958/59 que me confiou com muitas recomendações porque era seu primeiro não objeto: uma montagem como um grande caderno de folhas de papel canson de diferentes tamanhos e dimensões, em que o ato de folhear já era uma interação poética tipicamente neoconcreta. Outro trabalho era o poema não objeto, Lembra, 1959/60, formado por volumes de madeira brancos quadrangulares. No centro uma pequena depressão quadrangular onde se encaixava um pequeno cubo azul claro e, ao levantar-se o cubo, lia-se a palavra “lembra”, esta ação era um puro encantar-se!

 Desencadearam-se encantamentos com a colaboração de Ferreira Gullar, teórica e plástica, acontecendo na exposição O Objeto na Arte: Brasil nos anos 60, que abriu em 13 de setembro de 1978 no Museu de Arte Brasileira, MAB – FAAP. No mapeamento da exposição, as duas obras ao lado dos outros neoconcretos estavam no ingresso, em destaque, à direita como o primeiro impacto sensível que a exposição oferecia. Inúmeras vezes participei com o público ao interagir e viver o prazer estético de manipular o poema não objeto Lembra, que permaneceu encantado em mim.

Hélio Oiticica deixou seu exílio ou autoexílio, em Nova York, e veio para a exposição, tendo emprestado os Parangolés, exibidos pela primeira vez depois de Opinião 66, e passou   instruções diretas sobre sua montagem de outros seus objetos, o mesmo aconteceu com Lygia Pape e outros artistas da vanguarda carioca. Entretanto durante exposição não vieram Ferreira Gullar e Lygia Clark que estavam no Rio de Janeiro.

Ao encerrar-se a mostra, a Gullar, enviei-lhe o catálogo e devolvi em boas condições o pioneiro poema não objeto que tanto recomendara, bem como Lembra, acompanhada de várias comunicações telefônicas de praxe de agradecimentos e de finalização da colaboração.

Passaram-se quase duas décadas para reencontrá-lo numa mesa redonda sobre arte contemporânea no Rio de Janeiro, nos últimos anos de 1990 quando novo encantamento vivi ao apreender com deleite as preciosas noções sobre arte expressas de forma singular, profunda e tranquila. Mais de uma década e reencontrei-me com Ferreira Gullar, e foi nosso último encontro, 8 de outubro de 2014, no Centro Cultural Correios do Rio de Janeiro. Ele veio à abertura da exposição Brecheret Mulheres de Corpo e Alma – desenhos e esculturas, de que fui a curadora. Sua presença serena, marcante, um dos mais poderosos   poetas teóricos literato artista plástico do país me deixou encantada de forma muito especial. Percorreu comigo toda a mostra, escutando e fazendo seus comentários-alguns trazendo novas percepções e encantando-me! Saiu tranquilamente.   Foi ver outra exposição que se abria no mesmo edifício porque era incansável em acompanhar as múltiplas exposições; aparições da arte que imprimiram cada instante de sua presença no mundo.

 Desta vez, foi o derradeiro encantamento que marcou meu espírito. Sei que não verei mais o mestre de encantos de sabedoria, de momentos indizíveis dos totalmente incluídos em minha própria vida.