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n° 40 – Ano XIV – Dezembro de 2016  →   VOLTAR

Artigo

As novas possibilidades da obra de Liliana Porter

A pequena escala, o silêncio, a economia formal são alguns aspectos importantes da poética de Porter. A artista convoca a refletir sobre novas possibilidades de compreensão do tempo ao questionar a linearidade da sequência temporal

Simone Rocha de Abreu – ABCA/São Paulo

Fig.1. Liliana Porter. Forty Years / Cuarenta años. Quarenta anos (mão sobre Linha horizontal 1973) (2013). Fotografia digital, grafite sobre foto e parede. 65 x 66 cm.

Liliana Porter. Reconstruction(Red Hat) (2008). Detalhe.

A obra de Liliana Porter nos convoca a refletir sobre novas possibilidades de compreensão do tempo ao questionar a linearidade da sequência temporal. Na obra Forty Years / Cuarenta años (Fig.1, 2013) a artista retrabalhou uma obra de sua autoria feita em 1973, onde fotografou a sua mão desenhada simulando a continuidade de uma linha que se vê no papel suporte da ação. Esta obra funde três momentos distintos, ou seja, a linha desenhada sobre papel, a mão desenhada e colocada junto a linha e por fim a continuação do risco a partir da imagem da mão. Quarenta anos depois a artista fotografa novamente a sua mão com a mesma proposta e justapõe as imagens, adicionando, portanto mais três camadas temporais, além do tempo que visivelmente distancia as duas mãos fotografadas. O resultado final é um trabalho que condensa diversas temporalidades e espacialidades em uma mesma imagem, todos os tempos e espaços vistos unificados em uma mesma perspectiva propondo uma nova possibilidade aonde os tempos e espaços diversos se fundem.

Porter trabalha o tema do tempo de outras maneiras como este pode ser interpretado também na série Reconstruction (Reconstrução), dessa série destaco a obra Red Hat /Chapéu vermelho (Fig.2, 2008), novamente a artista nos convoca a outra interpretação sobre a passagem do tempo que não seja uma sequência linear ao justapor a fotografia de uma estatueta de porcelana quebrada ao lado do que parece ser a mesma estatueta inteira. Esta obra também suscita a questão do simulacro, da imitação, da representação questões também caras a esta artista.

Refletir sobre a dialogia entre representação e realidade é outra possibilidade suscitada pela obra de Porter, sobre isso vamos ouvir a artista quando afirmou em 2011: “A única realidade que existe é nossa relação com as coisas”. Nessa direção perguntamos qual é a linha real? São várias as possibilidades: a linha sobre a mão, sobre o papel, sobre a parede na obra Cuarenta años (Fig.1) ou qual é a imagem real: a foto com a figura estilhaçada ou a figura de porcelana inteira na prateleira de madeira na obra Red Hat /Chapéu vermelho (Fig.2, 2008). As possibilidades que cada obra parece nos propor é de perceber a resposta como relativa à nossa interpretação e assim, a artista nos lembra que toda percepção é uma interpretação, mesmo em referência à temporalidade, a realidade ou ao espaço.

Ao refletir sobre a dialogia entre representação e realidade Porter elaborou inúmeras obras, talvez melhor seria dizer todas as obras em sua trajetória artística, dentre elas destacamos o trabalho sobre papel chamado The Simulacrum (O Simulacro, Fig. 3, 1991) e o álbum de fotogravura chamado Wrinkle (Amassado) ( Fig.4, 1968).

Fig. 3. Liliana Porter. The Simulacrum (O Simulacro), 1991. Pintura com polímero sintético, serigrafia e colagem sobre papel. 100 X 152.4 cm.

Na obra The Simulacrum (O Simulacro) (Fig.3,1991) Porter lançou mão de personagens conhecidos como o Mickey, o Pato Donald, o retrato idealizado de Gue Guevara inserido em um prato de souvenir turístico e uma figura de bailarina, lembrando estatuetas de porcelana comumente com esta temática. Também aparece na composição um exemplar de Simulations de Jean Baudillard, este índice, juntamente com o título, nos traz uma chave de interpretação. Os personagens estão justapostos e o diálogo ressoa somente como possibilidade. A artista empregou pintura, serigrafia e adição do real neste trabalho, resultante disso surgem no papel suporte dessa composição as sombras projetadas pelos objetos adicionados bem como as sombras pintadas para proporcionar o descolamento das imagens em referência ao suporte aonde foram representadas. Novamente a artista nos coloca no jogo entre o real e a representação para questionar a percepção do espectador e nos proporcionar uma nova possibilidade de espaço, mais livre, espaço libertário onde objetos reais convivem com representações. Espaço tão libertário como a liberdade possível na fusão de temporalidades diversas como vimos na obra Forty Years / Cuarenta años (Fig.1, 2013).

O álbum de fotogravura denominado Wrinkle / Arruga (Amassado) (Fig. 4, 1968) foi realizado no âmbito do The New York Graphic Workshop e para uma exposição no Museo de Bellas Artes de Caracas durante janeiro de 1969 a artista apresentou esta obra da seguinte maneira:

La distancia mental que hay entre la representación
gráfica de la arruga al hecho real de la arruga en sí.
La relación entre la ficción y la realidad superpuestas.
Apoyándose, y al mismo tiempo contradiciéndose.
Esa redundancia creando la posibilidad de otra cosa.
El arrugado es sólo uno de los ejemplos
posibles para este planteo. La misma idea sería:
sombra – sombra
luz -luz
mancha – mancha
El dibujo de la sombra y la sombra real.
Lo que yo hago suceder sumado
a lo que naturalmente sucede.
Algo así como: fingir que soy yo.
La idea es superponer realidad,
a la descripción de esa misma realidad.
Entrar en un proceso creativo participando en él
y acortando la distancia que no tendría que existir
entre hacer arte y estar vivo. [1]

Fig.4. Liliana Porter. Wrinkle / Arruga (Amassado), 1968. Parte do álbum com fotogravuras

A obra Wrinkle / Arruga (Fig.4, 1968) inclui dez imagens que mostram em sequencia a deformação progressiva de uma folha de papel e um diálogo, ambos destinados a abordar um discurso sobre materialidade, gesto artístico, significado artístico e paisagens visuais.

Fig.5. Liliana Porter. Wrinkle / Arruga (Amassado), 1968. Entrevista com Emmett Willian, parte do álbum de fotogravuras

O diálogo é uma entrevista com Emmett Willian onde dois personagens (Fig.5) conversam sobre a natureza da arte, dos materiais, citando alguns artistas contemporâneos e que trouxeram resoluções ao debate colocado, um diálogo irônico entre o entrevistado com ele mesmo, já que quem dialoga é “emm” com “ett”.  Se os dois personagens parecem estar em Emmett Willians é este realmente um diálogo? Existem mesmo dois personagens para conservar de maneira dialogal? Os dois personagens são reais? Novamente a artista nos coloca frente à questão do que é a realidade. Essa é uma grande questão para Porter que não desperdiça nenhuma chance para nos evidenciar brechas ou erros em qualquer definição ou descrição do que é realidade.

A pequena escala, o silêncio, a economia formal são alguns aspectos importantes da poética de Porter. Os personagens em suas obras são por diversas vezes facilmente reconhecíveis, são ora símbolos da cultura de massa, como o Mickey, ora objetos do cotidiano, como pregos, souvenir de viagem, brinquedos infantis bastante conhecidos, como os bonecos Playmobil. O reconhecimento da figura, principalmente quando esta é um brinquedo ou personagem de uma fábula, aliado a pequena escala insere o espectador no universo infantil, passamos a desejar o desfecho do mistério ou da brincadeira de criança, mas em Porter esse desfecho nos é negado, ressoa, portanto somente como possibilidade.

As figuras diminutas estão inseridas em situações desproporcionais, isso leva o espectador a se aproximar para perceber o que ocorre na obra, despertando um sentimento de intimidade com o personagem, como pode ser visto nas obras To Be Him (Ser ele) e To Dance (Dançar) ambas de 2011 (fig. 6 e 7).

Fig. 6. Liliana Porter. To Be Him. (Ser ele), 2011. Boneco sobre papel. 21 X 16 cm.
Detalhe a direita.

Fig.7. Liliana Porter. To Dance (Dançar). 2011. Bonecos sobre papel. 21 X 16cm. Detalhe a direita.

Na série Trabalhos Forçados (Ver Fig. 8), a aproximação aos personagens desvela uma desproporção entre o mesmo e o tamanho das tarefas que eles realizam, nos evidenciando que o trabalho acaba engolindo-o, que as tarefas enfocadas são infindáveis, irrealizáveis e a questão do tempo e a sua passagem é novamente colocada por essa artista. Que tempo é este? Tempo de liberdade ou de prisão? Que possamos seguir refletindo com as questões e possibilidades suscitadas pela obra de Porter.

Fig.8. Forced Labor (Blue Sand) / Trabalho Forçado (Areia Azul), 2008. Estatueta de metal, areia azul e prateleira de madeira. 9 X 110,5 X 26,1 cm. Detalhe a direita.

Referências

Porter, Liliana. “[La distancia mental que hay entre la representación gráfica…].” In New York Graphic Workshop. Luis Camnitzer, José Guillermo Castillo, Liliana Porter. Exh. cat., Caracas: Museo de Bellas Artes de Caracas, 1969.

Catálogos de exposições:

Liliana Porter. To see blue. Galeria Brito Cimino, São Paulo, Agosto de 2008.

Liliana Porter. El hombre con el hacha y otras situaciones breves. Buenos Aires: Fundación Eduardo F. Costantini, 2013.

As referências imagéticas são tomadas fotográficas realizadas por Rejane Tozaki no Museu Emilio Carrafa em 01 de setembro de 2016, fotos gentilmente cedidas ao Jornal ABCA.

[1] Porter, Liliana. “[La distancia mental que hay entre la representación gráfica…].” In New York Graphic Workshop. Luis Camnitzer, José Guillermo Castillo, Liliana Porter. Exh. cat., Caracas: Museo de Bellas Artes de Caracas, 1969 (grifo nosso).

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