EDIÇÃO ATUAL
EDIÇÕES ANTERIORES

n° 40 – Ano XIV – Dezembro de 2016  →   VOLTAR

Ensaio

Postureo – Identidades de Alto Contraste

A paulista, Maria Cristina Pollesel Vicenti, radicada em Madri há quase uma década, fragmenta e reorganiza o cotidiano em pinturas/colagens multifacetadas

Lilian Cristina Monteiro França[1] – ABCA/ Sergipe

Radicada em Madri, Espanha, há quase uma década, a artista plástica paulista, Maria Cristina Pollesel Vicenti, fragmenta o cotidiano e o reorganiza em pinturas/colagens multifacetadas, que misturam técnicas e perspectivas, remetendo tanto aos grafites de Bansky (Figura 1), quanto à linguagem publicitária da primeira era da POP ART e ao traço ágil dos animes japoneses.

Figura 1: Brincando, 2015. Foto: Maria Cristina Pollesel Vicenti

Na série “Fragmentações” a artista se debruça sobre a complexa trama identitária que se processa na contemporaneidade, argumentando:

La fragmentación del individuo, cuerpo y mente, como resultado de la ruptura de la sociedad civil, la perdida de límites, la globalización y la falta de capacidad del sujeto para estructurarse frente a eso todo. El cuerpo no es más inconsciente que la mente, al contrario de lo que la gente piensa el cuerpo posee otro tipo de conciencia basada en sentimientos de fondo que rompen con el sentido de la estaticidad y la tendencia de categorización (Maria Crsitina Pollesel Vicenti, 2016).

Com trajetória alicerçada na utilização de materiais inusitados para a composição pictográfica, busca criar novas dimensões para a pintura, lançando mão, por exemplo, de pedaços recortados de chapa metálica, adesivos do tipo post it, tecidos e do próprio material da tela (linho, canvas) para substituir a pincelada tradicional. As composições resultantes incluem o figurativo no abstrato e o abstrato no figurativo, tencionando, dessa forma, a própria linguagem.

Com trajetória alicerçada na utilização de materiais inusitados para a composição pictográfica, busca criar novas dimensões para a pintura, lançando mão, por exemplo, de pedaços recortados de chapa metálica, adesivos do tipo post it, tecidos e do próprio material da tela (linho, canvas) para substituir a pincelada tradicional. As composições resultantes incluem o figurativo no abstrato e o abstrato no figurativo, tencionando, dessa forma, a própria linguagem.

A imagem deixa sua condição estática para ganhar movimento, ou um simulacro de movimento, como em “La Sonrisa”, 2016 (Figura 2), quando apaga os olhos, espelho d´alma, para focar no movimento de um sorriso que se abre, hesita e gargalha, simulando a “flicagem” do vídeo nas telas, obrigando o leitor a percorrer a obra e a reconstruí-la.

Figura 2: La Sonrisa, 2016. Foto: Maria Cristina Pollesel Vicenti

O espaço da tela se abre para o viés do macro e do micro, conferindo autonomia para cada fração (Figura 3), possibilitando, dessa forma, um diálogo entre o todo e as partes.

Figura 3: Detalhe de La Sonrisa, 2016. Foto: Maria Cristina Pollesel Vicenti

Em exibição na Galeria Nave 73, Madri, espaço multidisciplinar e multicultural que reúne artes cênicas, plásticas e música, “Abstracción de un postureo”, 2016 (Figura 4), busca sentido num termo oriundo das redes sociais – “postureo” – cujo significado, não dicionarizado, transita entre o aparente e o premeditado, o que se mostra como de fato não é e o que faz pose, criando, portanto, um personagem a ser compartilhado através das plataformas da web.

Figura 4: “Abstracción de un postureo”, Maria Crsitina Pollesel Vicenti, 2016. Foto: Maria Cristina Pollesel Vicenti

O detalhe de “Abstracción de un postureo” (Figura 5), evidencia as camadas que compõem as identidades contemporâneas e o deslocamento de um sujeito entrecortado por avatares que se sucedem no cotidiano digital.

Figura 5: Detalhe de Abstracciaón de un postureo Maria Crsitina Pollesel Vicenti, 2016. Foto: Maria Cristina Pollesel Vicenti

Para Maria Cristina, “El cuerpo es mucho más que simple representación física de una persona, contiene al alma en sí misma, emociones, sentimentos “ (Maria Crsitina Pollesel Vicenti, 2016).  Retrata essa fusão em “De Pequeña le dormían leyendo Bukowski”, 2015 (Figura 6) e “Fragmentada con mala señal “, 2016 (Figura 7), recriando máscaras que exprimem a necessidade de externar ainda que metaforicamente, na bolha de sabão, na bola de chiclete, os contrastes da alma encerrada em selfs que se conformam, ou não, a padrões pré-estabelecidos.

Figura 6 : De Pequeña le dormían leyendo Bukowski, 2015. Foto: Maria Cristina Pollesel Vicenti

Figura 7: Fragmentada con mala señal, 2016. Foto: Maria Cristina Pollesel Vicenti

Ambas as telas traduzem o universo ácido de um Bukowski irreverente que perambula pelas tramas do destino com desprezo a agudez, materializando um indivíduo frívolo, perdido nas inúmeras tentativas de ser, que Maria Cristina atualiza, na face blasé das meninas em sopro de vida e dos meninos entretidos com seus brinquedos (Figura 8).

Figura 8: Vaya pedazo moto me han hecho! (2015) e Vaya cochazo! (2016). Foto: Maria Cristina Pollesel Vicenti

[1] Pós-doutora em História da Arte IFCH/UNICAMP. Doutora em Comunicação e Semiótica. Professora da Universidade Federal de Sergipe/UFS. Membro da ABCA-Sergipe e da AICA.

n° 40 – Ano XIV – Dezembro de 2016  →   VOLTAR

Deixe uma resposta