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n° 40 – Ano XIV – Dezembro de 2016  →   VOLTAR

Artigo

Museu de Arte da Pampulha: patrimônio da arte brasileira

Com um acervo de aproximadamente 1.420 obras, é considerado o mais significativo de arte moderna e contemporânea de Belo Horizonte 

Marília Andrés Ribeiro –  ABCA/Minas Gerais

 No momento em que o Conjunto Arquitetônico da Pampulha está comemorando o título de “Patrimônio Cultural da Humanidade” pela UNESCO, torna-se importante refletir e apresentar ao público a relevância de seu acervo artístico, que se constitui como o mais significativo de arte moderna e contemporânea de Belo Horizonte.

Construído durante a prefeitura de Juscelino Kubistchek, em 1943, o prédio do atual Museu de Arte da Pampulha foi projetado por Oscar Niemeyer com a finalidade de se tornar um cassino, inserido no Projeto Arquitetônico e Urbanístico da Pampulha. O projeto moderno de JK também incluía a construção da Igreja de São Francisco, da Casa do Baile, do Iate Clube, consagrando artistas, arquitetos e paisagistas brasileiros como Cândido Portinari, Roberto Burle Marx, Alfredo Ceschiatti, José Pedrosa, August Zamoyski e Paulo Rossi Osir, entre outros.

Mas, com a proibição dos jogos no Brasil, em 1946, e o fechamento dos cassinos brasileiros, o prédio foi transformado, em 1957, no Museu de Arte da Pampulha, tornando-se um importante ponto de convergência das artes visuais em Minas Gerais. No Museu foram realizados os Salões Municipais de Belas Artes, que ocorriam no saguão da Prefeitura de Belo Horizonte e foram transferidos para o MAP.

Desde 2003 novas mudanças aconteceram no contexto do Museu e os Salões Nacionais de Arte foram substituídos pelo Bolsa Pampulha, um programa de residência artística que prioriza a pesquisa, o processo, a produção, o diálogo da obra com o Museu e a troca de informações entre os jovens artistas e os curadores. O Bolsa Pampulha originou-se do Projeto Pampulha, instituído em 2001 durante a direção de Priscila Freire, como um projeto de arte contemporânea que contemplava as propostas e as instalações dos artistas em diálogo com o espaço arquitetônico e paisagístico do Museu. O Projeto visava também à discussão da arte contemporânea, através de palestras, seminários e a publicação de livros/catálogos sobre a obra dos artistas convidados[1].

Nesse contexto, tornou-se importante a presença do curador nas atividades do Museu, não só como o responsável pela seleção e organização das exposições, mas também como aquele que dialoga diretamente com os artistas, discutindo projetos e buscando soluções para a produção, apresentação e publicação das obras. Salientamos a relevância da atuação dos curadores Adriano Pedrosa, Rodrigo Moura, Marconi Drummond e Renata Marquez junto à diretoria do MAP na concretização do Projeto Pampulha, que se tornou um marco de inserção da arte contemporânea em Belo Horizonte.

Tanto os Salões de Arte quanto o Projeto Pampulha contribuíram para a formação do acervo do Museu. Grande parte das premiações dos salões, patrocinadas por empresas privadas, tornaram-se aquisições museológicas, bem como foi introduzida no Projeto de Arte Contemporânea a doação de uma obra de cada artista como contrapartida à sua exposição no Museu. Ainda fazem parte desse acervo as doações independentes de artistas e colecionadores; portanto, esse é um acervo bastante diversificado, englobando obras de artistas provenientes de vários projetos e coleções, de diversas regiões brasileiras e diferentes expressões artísticas.

A exposição do acervo do MAP

Diante da importância desse acervo e da situação de incerteza de sua permanência no prédio do Museu, realizamos a exposição Arte e Política no Acervo do MAP em parceria com o SESC Palladium. A mostra discutiu a relação entre arte e política, tomando como dispositivo as obras do acervo do MAP que foram adquiridas desde os anos de 1960 até as propostas mais recentes contempladas pelo Projeto Pampulha[2].

Organizamos as obras por afinidades de expressões artísticas e iconográficas, buscando estabelecer um diálogo expográfico[3] entre elas em torno dos conceitos de micropolítica e micropoética, focalizando as poéticas visuais que se referem às questões políticas e circulam no universo molecular da vida cotidiana, das relações interpessoais e institucionais[4].

Retomamos também o pensamento do crítico Frederico Morais sobre a Nova Crítica para pensar a curadoria enquanto uma postura crítica e reivindicativa que se coloca dentro do circuito artístico e da própria instituição museológica.

A Nova Crítica de Frederico Morais, apresentada na exposição através dos audiovisuais Memória da paisagem (1970) e o Pão e o Sangue de cada um (1970), questiona a crítica judicativa convencional e propõe um novo comentário crítico por meio da linguagem audiovisual. Esta postura possibilita ao crítico se transformar no artista visual e estabelecer um diálogo direto com o artista. No primeiro audiovisual Frederico Morais faz um comentário crítico da exposição realizada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM), em 1969, das obras dos artistas Carlos Fajardo, José Resende, Emanuel Nassar e Luiz Baravelli, retomando a ideia de “poética dos materiais” encontrada na paisagem urbana. No segundo, o crítico comenta a série Situações, de Artur Barrio, uma proposta experimental realizada com materiais orgânicos, apresentada no Salão da Bússola, no MAM/RJ (1969), e no evento Do Corpo à Terra, em Belo Horizonte (1970).

Nos porões do acervo do Museu de Arte da Pampulha encontramos, ainda, várias obras, até então não reveladas, que tem o potencial de discutir a questão da guerra fria, da repressão, da violência, da corrupção e do comportamento emancipatório das minorias.

Beatriz Dantas e Paulo Lemos. Matadouro, audiovisual, 1971

A escultura de Jarbas Juarez (Matadouro,1971); o audiovisual de Beatriz Dantas (Matadouro,1971); a serigrafia de Iazid Thame (O Sacrifício do Apático, 1971) e o objeto de Maria do Carmo Vivacqua Martins (Eu disse era morte certa, 1969) nos levam à reflexão sobre a questão da violência no corpo e na alma dos militantes políticos nos porões da ditadura militar instaurada no Brasil entre 1964 e1985. A violência foi apresentada pelos artistas no circuito artístico brasileiro por meio de propostas conceituais, obras de artes plásticas, ações e audiovisuais. Essas obras emblemáticas são propostas poéticas e políticas que  mostraram o posicionamento de resistência dos artistas e críticos militantes frente à ditadura militar, revelando a memória de um momento de luta, sofrimento e repressão na história brasileira.

Seguindo essa mesma postura crítica, desta vez diretamente dirigida aos políticos e à macropolítica brasileira, situamos as pinturas de Júlio Espíndola (Quem não sabe calar não sabe falar,1979); Marisa Trancoso (RIR,1979) e Jaime Fortes (Ato I,II,II, dos anos 1980); as litografias da série Cenas da Vida Brasileira, 1930-1954 realizadas por João Câmara Filho em 1979;  o álbum Registro (1977) de Marília Rodrigues, resultado de um trabalho de bricolagem entre imagem e texto, gravura em metal e clicheria;  e  o  desenho Agente Disney (1975) de Marcos Coelho Benjamim.


Júlio Espíndola.  Quem não sabe falar não sabe calar. Óleo s/tela, 1979

Paulo Bruscky amplia a crítica à política institucional na América Latina durante os anos de chumbo. A atuação politica de Bruscky se evidencia  na circulação internacional de suas ideias através do movimento Arte Correio. As obras apresentadas na exposição, América Latina (1976) e Sem título (1995), mostram a sua participação nesse movimento, o que lhe possibilitou intercambiar ideias, dialogar com artistas e grupos dos mais distantes lugares do planeta, transgredir as normas vigentes, contestar as instituições estabelecidas e os regimes políticos, apontando a América Latina como um foco de autoritarismo e violência.

Maria Helena Andrés. Radioactive Ship. Óleo e colagem s/tela, 1965

Ainda na vertente da geopolítica, a obra Radioctive Ship (1965), de Maria Helena Andrés, que é uma experiência com colagem e pintura, revela o seu posicionamento crítico diante da Guerra Fria e da possibilidade de um iminente ataque atômico por parte das grandes potencias hegemônicas.

Já no campo comportamental, ainda nos anos de 1960/70, situamos os objetos: É proibido Amar em tempo de Guerra (1969) de José Alberto Nemer, e Guerra é Guerra, Vamos Sambar (1968) de Teresinha Soares.  Ambos se referem ao comportamento do homem e da mulher nos tempos de guerra, sendo que o objeto de Nemer chama a atenção para a solidão do homem moderno e a pintura objeto de Teresinha Soares contrasta frames da Guerra do Vietnã com o Carnaval brasileiro, representando a morte e a ressurreição do corpo, que é o eixo de sua poética feminista.

O corpo também está presente na fotografia marginal de Hugo Denizart e Rosângela Rennó. Ambos trabalham com o corpo social, o uso social da imagem e aquilo que se coloca à margem da fotografia estética convencional. O Poder Perveso (1980) de Denizart, no olhar do repórter fotográfico, apresenta com muito realismo, a perversão e a criminalidade estampada nos corpos dos jovens das comunidades periféricas do Rio de Janeiro. No caso de Rosângela Rennó, artista que experimenta diversas linguagens, a fotografia do Old Nazi (1996)  consiste na discussão do retrato burguês associada ao poder, à glória, ao machismo e à vaidade masculina.

A crítica à sociedade burguesa continua nos objetos de Sebastião Nunes denominados Enterro Simbólico da Classe Média (1998); no audiovisual  O que o uso faz ao costume (1977) de Miguel Gontijo e Maria do Carmo Arantes; e também no Arquivo (2007) de Paulo Nazareth. A atitude transgressora de Paulo Nazareth incide sobre a sociedade burguesa e o sistema de arte capitalista, integrando dentro de um mesmo Arquivo alguns folhetos e textos publicados sobre a arte e o museu, além de restos de objetos encontrados ao acaso nas diversas perambulações do artista nas ruas da cidade.

Paulo Nazareth, Arquivo. Caixa de madeira com objetos e impressos, 2007

Destacamos, ainda, na vertente da crítica ambiental e ecológica, o audiovisual Terra (1971) de Beatriz Dantas e Paulo Emilio Lemos e os postais de Manfredo Souzanetto. O trabalho de Beatriz é uma exaltação da terra como possibilidade de vida, de construção, de fazer arte com os pigmentos naturais.

Já os postais de Manfredo chamam a atenção para a extinção de nosso planeta, focalizando a destruição das montanhas de Minas pelas grandes mineradoras. Desde os anos de 1970 Manfredo tem denunciado a exploração do solo de Minas em sintonia com o poeta Carlos Drummond de Andrade. Olhe bem as montanhas e O lugar da ausência, da série Réquiem para a serra do Curral (1980), representam o desaparecimento, o lugar da memória e o Triste Horizonte de Minas Gerais.

Manfredo Souzanetto. O Lugar da Ausência.
Cartão Postal impresso a partir de fotolito, 1980

Dentre os artistas contemporâneos que participaram da mostra com intervenções em projetos paralelos[5] foram apresentadas as propostas de Ricardo Burgarelli, no Projeto Parede, e de Douglas Pego, no Projeto Café, ambos provenientes do Bolsa Pampulha. Os dois jovens artistas discutiram questões fundamentais do universo contemporâneo referentes ao gênero e ao ativismo político, que estão presentes na vida e no imaginário de homens e mulheres que vivem os desafios do século XXI.

Proposta Construtiva para o Acervo do MAP

Atualmente, o Museu de Arte da Pampulha, que é um equipamento da Fundação Municipal de Cultura da Prefeitura de Belo Horizonte, possui um acervo de aproximadamente 1.420 obras, localizado no porão do prédio do Museu, que está sendo cuidado por uma equipe formada por uma conservadora e alguns assistentes. Esse acervo será transferido para outro local da Prefeitura, um galpão perto do Arquivo da Cidade, durante o período de reforma do prédio, visando a sua adequação às exigências da UNESCO.

Diante desse quadro de precariedade e incerteza, apontamos a necessidade de construção de um local adequado para a conservação, exposição e divulgação desse importante acervo. A Prefeitura possui um território em frente ao prédio do Museu; um projeto arquitetônico, urbanístico e museológico realizado em 2012 pelo escritório Horizontes Arquitetura e Urbanismo; e ainda temos a vontade da comunidade artística de concretizar a construção de um anexo do MAP. Falta a vontade política dos gestores culturais da cidade para concretizar esse projeto que continua arquivado a mais de 10 anos na Prefeitura de Belo Horizonte.

Acreditamos que, por meio de ações políticas específicas, possamos sensibilizar o poder público e trabalhar na construção desta microutopia que visa preservar, apresentar, discutir e divulgar as obras, os documentos, a história e o legado dos artistas, contribuindo para a construção da história da arte brasileira na cidade de Belo Horizonte [6]

Referências:

DEPOIMENTO de Teresinha Soares para Marilia Andrés Ribeiro. In: RIBEIRO, Marília Andrés; SILVA, Fernando Pedro da (Org.). Teresinha Soares – Depoimento. Belo Horizonte: C/Arte, 2011 (Circuito Atelier).

DEPOIMENTO de Paulo Bruscky para Marconi Drummond e Marília Andrés Ribeiro. In: RIBEIRO, Marília Andrés; SILVA, Fernando Pedro da (Org.). Paulo Bruscky – Depoimento. Belo Horizonte, C/Arte, 2011 (Circuito Atelier).

DEPOIMENTO de Maria Helena Andrés no blog Memórias e Viagens, “Relato de uma experiência nos EUA, em 1961”, Segunda feira, 21 de março de 2016. Disponível em <http://memoriaseviagensmha.blogspot.com.br>.

GUATTARI, Félix; ROLNIK, Suely. Micropolitica, cartografias do desejo. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

INVENTÁRIO do Museu de Arte da Pampulha, Belo Horizonte, Fundação Municipal de Cultura, 2010.

MARQUEZ, Renata (Org.). Lição de Coisas. Nydia Negromonte;  Museu Observatório. Eduardo Coimbra; Outros lugares. Ines Linke, Louise Ganz e Mônica Nador; Conjs., re-bancos*: exercícios e conversas. Ricardo Basbaum. Belo Horizonte, Museu da Pampulha, 2001. (Projeto Arte Contemporânea).

MORAIS, Frederico. Artes plásticas: a crise da hora atual. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.

MOURA, Rodrigo. Catálogo de implantação da Bolsa Pampulha 2003/2004, organizado para substituir o 27º Nacional de Arte de Belo Horizonte, Museu de Arte da Pampulha, 2004.

NEVES, Ana Luiza. Os Salões Nacionais de Arte em Belo Horizonte na década de 1980: as especificidades dos salões temáticos. Dissertação (mestrado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Escola de Belas Artes. 2014.

OKSALA, Johanna. Como ler Foucault. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

RIBEIRO, Marília Andrés. O pensamento crítico de Frederico Morais na formulação do ideário das neovanguardas. In: _____. Neovanguardas. Belo Horizonte, anos 60. Belo Horizonte: C/Arte, 1997.

_______________________. Intermidialidade e a poética de Manfredo de Souzanetto. In: Anais do XXVII Colóquio do Comitê Brasileiro de História da Arte. Belo Horizonte: C/Arte, 2008. p. 264-273.

_______________________. A crítica Institucional e a estética da existência. In: CAVALCANTI, Ana Maria; COUTO, Maria de Fátima Morethy; MALTA, Marize; OLIVEIRA, Emerson Dionisio. Anais do XXXII Colóquio do CBHA. Rio de Janeiro, 23 a 27 de setembro de 2013, p. 351-360. (CD)

SAMPAIO, Márcio. Entre Salões 1969/2000. Belo Horizonte, Museu de Arte da Pampulha, 2009.


[1] O Projeto Pampulha foi instituído na gestão de Celina Albano na Secretaria Municipal de Cultura e de Priscila Freire na diretoria no MAP. Adriano Pedrosa e Rodrigo Moura foram os curadores que iniciaram esse projeto, inaugurado em 2001 com amostra de Edgar de Souza.

[2] A exposição, que aconteceu entre 22 de junho e 31 de julho, foi acompanhada de um Seminário sobre Pesquisa, Comunicação e Curadoria nas Instituições Culturais com a participação de Frederico Morais, Agnaldo Farias, Marconi Drummond e Renata Marquez. Realizamos também um Encontro com os artistas Teresinha Soares e Marco Paulo Rolla para discutirmos a importância da performance na cena artística de Belo Horizonte.

[3] A curadoria dessa exposição foi realizada por Marília Andrés Ribeiro junto com os co-curadores Ana Luiza Neves e Augusto Fonseca. A expografia foi desenhada pelo arquiteto Cristiano Cesarino Rodrigues.

[4] Resgatamos o pensamento de Michel Foucault e Félix Guattari para refletir sobre o conceito de micropolítica como uma atitude crítica diante da sociedade capitalista contemporânea, que se dá no nível subjetivo e interpessoal, bem como no nível social, englobando as relações políticas institucionais.

[5] Projeto Parede e Café@mostra são projetos propostos pelo SESC Palladium que incentivam os jovens artistas e ocorrem paralelos às exposições de artes visuais.

[6] A primeira versão desse texto foi apresentada no catálogo Arte e Politica no Acervo do MAP, Belo Horizonte, Fundação Municipal de Cultura, Museu de Arte da Pampulha, SESC, 2016.

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