Ado Malagoli – A ARTE COMO RAZÃO DE VIVER

Sem preconceitos e seguro do que almejava, o artista optou pelo Sul, pelas imagens gaúchas, pelo ensino de jovens pintores e a criação de museus. Não fez concessões, mas, a si mesmo, concedeu o direito de ser feliz. De viver com arte.

RICARDO VIVEIROS (ABCA)

 

 

Pouco se conhece da sua origem simples e oriunda da imigração italiana para o Brasil. Ado Malagoli nasceu no dia 28 de abril de 1906, em Araraquara, São Paulo. Cidade que também deu ao Brasil e ao mundo outros nomes da cultura: o produtor de cinema Herbert Richers; o gravador Lívio Abramo; a antropóloga Ruth Cardoso; o escritor Ignacio de Loyola Brandão; e o diretor teatral José (Zé) Celso Martinez Corrêa.

 

A BUSCA DO MUNDO

Aos oito anos, órfão de pai e mãe, Malagoli deixou a sua “Morada do Sol” rumo a Capital do estado, onde foi viver com parentes. Como sempre soube o que desejava ser na vida, aos 16 anos diplomou-se em “Artes Decorativas” pela Escola Profissional Masculina, no bairro proletário do Brás. Hoje Escola Técnica Estadual Getúlio Vargas, esse educandário desempenhou relevante papel na formação de vários artistas plásticos que se tornariam famosos.

Destinada à formação de mão-de-obra especializada para a indústria e o comércio, seus cursos de desenho receberam nomes como: Volpi, Bonadei, Zanini e Rebolo (com quem Malagoli pintou paineis). Era ensino profissionalizante, noturno, para pessoas de baixa renda. Em especial, imigrantes que chegavam para “fazer a América”, mesmo que ao sul do Equador…

Nos anos seguintes, de 1922 a 1928, Malagoli seguiu o mesmo caminho que os demais formados pela EPM: o Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. Lá, sob a orientação dos professores italianos, Giuseppe Barchita e Enrico Vio (que o proibia de apagar erros, porque era vergonhoso), estudou e trabalhou ao lado de Rebolo, Volpi e Zanini, alguns dos quais integrariam, um pouco mais tarde, o emblemático Grupo Santa Helena.

Aos 22 anos, Malagoli vai para o Rio de Janeiro onde ingressa na respeitada Escola Nacional de Belas Artes. Cinco anos depois, ingressa no Núcleo Bernadelli, movimento em busca da liberdade de expressão. Aos 30 anos de idade forma-se pela ENBA. Sua pintura, desde sempre, foi comprometida com os temas do cotidiano; seus primeiros quadros trazem o rosto da gente sofrida e alegre das favelas cariocas, em irônica mescla sociológica. Em 1935, Malagoli recebe “Menção Honrosa” no Salão Nacional.

 

O MUNDO OFERECIDO

Mas, foi aos 36 anos, com a tela “Por quê?”, o primeiro momento marcante da sua carreira. Malagoli conquista o “Prêmio de Viagem ao Estrangeiro”, no mesmo disputado salão. Entre 1943 e 1946 o artista vive nos Estados Unidos (Los Angeles, Chicago e Nova York), estuda nas Universidades de Nova York e Columbia, interage com os brasileiros Edson Motta e Djanira. No último ano de sua permanência nos EUA, a Galeria Careen Gems, em NY, realiza uma exposição individual do pintor. Todas as obras são vendidas, e uma delas adquirida pelo político e mecenas Nelson Rockefeller.

De volta ao Brasil, Malagoli expõe aqui, na Argentina e na França (“Salão de Outono”). Em 1948 casa-se com Ruth, amor de toda a vida. Participa da I Bienal de São Paulo, em 1951. Monta ateliê no Rio de Janeiro, e frequenta as rodas de artistas da cidade. Era um boêmio e aventureiro “saudável”, como definia sua mulher. Tanto que se meteu na construção de uma estrada de rodagem em região inóspita. Com as mãos arrebentadas pela picareta, desistiu e voltou para casa. Mas, claro, com muitas e ricas imagens na memória…

Em 1952, com uma carreira promissora, Malagoli opta por viver em Porto Alegre. Sua atitude surpreende colegas e críticos, mas, seu coração e sua mente estavam seguros da escolha. Aceita convite oficial do governo do estado do Rio Grande do Sul e assume a cadeira de Pintura da Escola de Belas Artes. Em 1957, no cargo de diretor da Divisão de Cultura da Secretaria de Educação e Cultura do estado, cria o Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS).

 

O MUNDO ESCOLHIDO

Fruto de incontestável vocação, aluno de grandes mestres, possuidor de técnica apurada, capaz de olhar o mundo além do aparente, com absoluto domínio das matérias primas e do instrumental da pintura, compromisso com a inovação permanente, Malagoli realizou uma verdadeira revolução no ensino das artes plásticas. Soube, respeitando o estilo acadêmico em seus fundamentos, instigar seus alunos para o moderno. A rigor, antecipava o futuro.

Com uma visão além de seu tempo, despertou a crítica negativa de colegas, pais e, até mesmo, de alunos mais ortodoxos. Muitas vezes, ouviu que em suas aulas se “desaprendia pintura”. Foi o primeiro a introduzir debates entre os alunos, com cada um criticando o trabalho do outro e, assim, juntos crescendo na pintura e na vida. “Eu não posso ficar corrigindo quadrinhos”, dizia. E ensinava a criar sem limites, pesquisar e descobrir, transcender como cabe na verdadeira arte.

Nos anos 1960, Malagoli pintou os primeiros “casarios”, expôs e recebeu prêmios no Brasil, voltou a viajar para a Europa. Mais tarde, em meados de 1980, aposentado das funções públicas, retoma pinturas com temas religiosos, sob certo lirismo, e experimenta algumas abstrações. Sua obra demonstra uma perfeita integração entre técnica e emoção, os temas são tratados com ampla visão da vida e trazem toques que vão do romantismo ao realismo, mas, sempre, com profundo respeito e amor. Há em suas telas a nítida determinação em mostrar que viver é difícil, mas, vale a pena.

Ado Malagoli morreu em 4 de março de 1994, em Porto Alegre (RS). Dois anos antes, o museu que fundou passou a ter seu nome: “MARGS – Ado Malagoli”. Diz o respeitado crítico de arte e escritor, Jacob Klintowitz: “Eu o conheci bem e era impossível não gostar dele. Homem moderado, delicado, afável. Sua pintura tinha uma pátina de amor invisível”.

 

­­

Ricardo Viveiros (ABCA), para a Revista Abigraf, em 28/10/2011.

Categoria: Exposições / permalink.